Sinais trocados

Mercado de data centers negocia incentivo nos estados após aumento de alíquotas de importação

Para Brasscom, aumento de imposto federal anula os benefícios do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no Brasil (Redata)

Data Center de nuvem da IBM (Foto Divulgação)
Data Center de nuvem da IBM (Foto Divulgação)

A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) está buscando desoneração de ICMS nos estados em uma estratégia que busca amenizar os efeitos da recente elevação das alíquotas federais de importação para bens de capital e bens de informática e telecomunicação.

Na semana passada, o Comitê de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) aprovou a elevação do imposto, o que, segundo análise da Brasscom, praticamente anula os benefícios do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter no Brasil (Redata).

A associação agora tenta desempatar o jogo com estratégia que já vinha caminhando junto com a Medida Provisória 1318, enviada pelo governo ao Congresso em setembro.

A MP perde a validade em 25 de fevereiro, mas os benefícios do Redata seguem na pauta, com um projeto de lei idêntico apresentado pelo líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT/CE). O PL 278/2026 teve a urgência aprovada na terça (10/2) e pode ser votado diretamente no plenário, sem passar pelas comissões.

Embora não haja prazo de validade para um PL, o setor trabalha com o calendário que havia sido definido para a MP e espera a aprovação ainda em fevereiro.

Na articulação com os estados, o diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Brasscom, Sérgio Sgobbi, apresentou nesta quarta-feira (11/2) ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) os possíveis retornos às unidades da federação a partir da concessão de benefício sobre o ICMS.

À agência eixos, ele conta que a expectativa é que os representantes das fazendas estaduais usem as informações para subsidiar os demais secretários na reunião que terão em março, quando o tema do incentivo para o Redata estará em pauta.

A intenção do setor é contar com as desonerações dos impostos federais, a partir da aprovação do Redata que está no Congresso, e com uma política específica para os estados em 2026.

Um eventual pedido de revisão à medida da Camex ainda será avaliado.

Consequências da decisão da Camex

Resolução Gecex 852, de 4 de fevereiro, traz alíquotas de 18% para equipamentos de média capacidade e até 25% para servidores de grande capacidade, desagradando setores da indústria.

Em uma nota conjunta, Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) e Movimento Brasil Competitivo (MBC) criticam a falta de coordenação da Camex com o Redata.

“A decisão do Gecex/Camex causou grande e decepcionante surpresa por ir na contramão dessa lógica estratégica e transmitir uma mensagem altamente negativa para os investidores da indústria digital, de capital tanto nacional como internacional”, diz a nota.

“Enquanto a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Redata avançam no sentido de fortalecer infraestrutura crítica, digitalização produtiva e adensamento tecnológico, o foco excessivo em realinhamentos tarifários desconsidera o caráter estratégico da computação para a soberania nacional”, continua.

Para o grupo, o risco é o Brasil ficar para trás num jogo global, “onde a concorrência são os outros países que estão tomando medidas para atrair investimentos e fortalecer sua indústria digital”.

Uma comparação regional feita pela Brasscom, estima que a carga tributária torna a instalação de um data center no Brasil muito mais cara do que em vizinhos sul-americanos.

A instalação de um data center Tier III, de 5 MW, custa aproximadamente R$ 197 milhões no Chile, R$ 165 milhões na Colômbia, R$ 126 milhões na Argentina, enquanto no Brasil o mesmo projeto chega a R$ 266 milhões, com carga tributária de aproximadamente 23%, contra apenas 8% no Chile.

Segundo o diretor da Brasscom, a decisão da Camex tornaria esse projeto 7,6% mais caro, na hipótese mais otimista, considerando a média das alíquotas.

Os números refletem um déficit brasileiro em serviços de computação e informação, que chegou a US$ 7,6 bilhões em 2025, mais do que o dobro do registrado em 2010, tornando o Brasil um importador líquido de poder computacional.

Sem citar a empresa, Sérgio Sgobbi disse à eixos que uma de suas associadas tem um projeto para investir R$ 1 bilhão no Brasil e já está com a infraestrutura toda pronta para receber os equipamentos. Esses aparelhos estão previstos para começar a chegar em 1º de março, já sob as novas tarifas, e deve acrescentar R$ 200 milhões à conta final.

“E se ela decidir que o investimento não virá mais para o Brasil em função dessa majoração? Essa outra infraestrutura que ela fez, ela vai ter que pagar de algum jeito. Que previsibilidade é essa? Que segurança é essa? Esse é o questionamento que a gente está fazendo”, pontua.

“É uma mensagem contraditória que está sendo dada pelo mesmo governo que dá os incentivos para que a gente se reposicione enquanto um país que quer ter significância no mundo digital”, critica Sgobbi.

Questionado sobre os motivos da decisão da Camex, a possibilidade de revisão da medida e a associação das novas alíquotas num momento em que se discute o Redata, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) não respondeu. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

“Mudança de regra no meio do jogo”

A resolução da Camex permite o benefício do regime ex-tarifário, que reduz o imposto de importação para zero nos casos em que não há um produto equivalente nacional. O problema, segundo a indústria, está nos prazos.

“Se eu peço um ex-tarifário hoje, demora 120 dias para sair e cabe recurso. Então, esse prazo vai se alongando. Quando eu coloco isso em um cronograma de investimento, para dar retorno um prazo determinado, qualquer dia que eu perco nessa tramitação é o retorno que estou deixando de ter”, explica o executivo da Brasscom.

“A mensagem que estamos passando é de que a gente não tem previsibilidade, que as decisões são instáveis e o ambiente é inseguro”, critica.

Para o analista sênior do grupo de projetos de infraestrutura da Moody’s Ratings, Vincent Detilleux, esses sinais contraditórios reforçam a percepção de um ambiente operacional volátil.

“Visibilidade de longo prazo e segurança jurídica são fundamentais, já que os investimentos em data centers exigem elevado capex inicial e apresentam um horizonte de retorno longo”, disse Detilleux.

Urgência no Redata

Com o regime de urgência aprovado para o PL do Redata, associações do setor estão atrás de partidos que votaram contra ou tiveram alguma resistência contra o requerimento, dentre os quais o Novo, PSOL, Rede e PL para sensibilizar sobre a importância da pauta.

Também há um trabalho junto aos ministérios e agências reguladoras envolvidos.

Na visão da Brasscom, com a política aprovada, os diferenciais competitivos do Brasil, dentre os quais se destaca a abundância de fontes renováveis de energia, tendem a se sobressair.

Especialmente nessa questão, a associação aposta em soluções de descarbonização do setor.

“A energia será consumida em qualquer lugar do mundo e o dado será processado. Então, é melhor processar no Brasil, porque temos energia limpa, do que queimar carvão em outro lugar”.

Publicado para consulta pública nesta quinta (12/2), o Plano Nacional de Energia (PNE 2055) projeta que o consumo energético de data centers no Brasil pode chegar a 300 TWh em 2055.

Emendas miram Camex, gás e ZPEs

Até o momento, o projeto conta com 24 emendas, dentre elas uma de autoria de André Figueiredo (PDT/CE), que determina justamente a observância das disposições da Camex quanto à isenção do imposto de importação, restringindo apenas para casos em que não há similar nacional.

A discussão quanto às fontes de energia permitidas no Redata, que marcaram o envio da MP, voltaram em forma de emenda para o projeto de lei. Iniciativa de João Carlos Bacelar (PL/BA) propõe o reconhecimento do gás natural, biometano e energia nuclear como fontes aptas.

Outra emenda de Figueiredo determina regra de conteúdo local de 30%, produzidos em território nacional ou resultantes de desenvolvimento e inovação tecnológica no país. Também propõe alterar a obrigação de investimentos adicionais em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação para 10%.

Já a alteração proposta pelo deputado Júlio César (Rep./DF) autoriza o Poder Executivo a criar Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) sujeitas ao regime jurídico da lei do Redata, com a finalidade de reduzir desequilíbrios regionais.

O governo também chegou a enviar uma medida provisória para tratar das ZPEs (MP 1307), mas a medida não chegou a ser votada e caducou em novembro de 2025.

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