NESTA EDIÇÃO. Fazenda espera realizar ainda este ano o primeiro leilão de acesso aos incentivos do hidrogênio de baixo carbono.
Mas decreto regulamentando a distribuição dos R$ 18,3 bi em créditos fiscais segue sem previsão. E o mercado está ansioso.
EDIÇÃO APRESENTADA POR:

O Ministério da Fazenda está trabalhando com um cronograma para realizar o primeiro leilão para acesso a incentivos para produção e consumo de hidrogênio de baixo carbono ainda este ano, indicou esta semana o diretor de Programa da Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Carlos Colombo.
“Nossa expectativa é desenhar um leilão realmente eficiente, voltado para a sustentabilidade e o desenvolvimento nacional. E esperamos que esse modelo esteja pronto para ser realizado ainda este ano”.
“Sabemos dos desafios, da sensibilidade em ano eleitoral, mas estamos trabalhando para ter um modelo e realizar esse leilão este ano”, reforçou.
Colombo participou de evento promovido pela Abihv (hidrogênio verde) e Abeeólica (energia eólica) na Apex, em Brasília, na quinta (12/3), e antecipou que a regulamentação do marco legal do hidrogênio deixará uma “flexibilidade” para que os editais direcionem a concorrência pelos recursos.
O representante da Fazenda evitou cravar, no entanto, uma data para a publicação dos decretos regulamentando as leis 14.948 e 14.990, que formam o marco legal do setor.
“Todo mundo na expectativa de que ‘na próxima semana’ teremos no decreto”, brincou. “Mas acredito que em breve teremos a regulamentação do marco legal como um todo, para o Rehidro, mas principalmente para o PHBC”, completou.
Há meses o governo promete a publicação para “as próximas semanas” e o mercado está impaciente, já que o acesso aos incentivos fiscais tem prazo de validade.
As leis que compõem o marco legal do hidrogênio preveem R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais (PHBC), além de incentivos voltados à desoneração do Capex (Rehidro), deixando para a regulamentação a tarefa de definição das regras para acesso a esses recursos.
Essa definição é aguardada pelas empresas para decisões finais de investimentos na produção industrial do gás de transição energética no Brasil. Algumas, inclusive, já adiaram seus cronogramas.
Prioridade para mercado doméstico
Uma das grandes questões no desenho de como será o acesso aos incentivos é garantir que eles atendam a uma demanda por industrialização doméstica, isto é, o Brasil quer exportar produtos com valor agregado além de baixo carbono.
De acordo com a Fazenda, os R$ 18,3 bilhões previstos no PHBC podem ser direcionados para os produtores e consumidores, o que, na visão da pasta, deve beneficiar as cadeias nacionais.
Ainda assim, o governo trabalha com a flexibilidade, de olho na exportação, já que a Europa tem metas de consumo do energético, o que a torna um grande mercado potencial.
“Acreditamos que as cadeias nacionais vão ser mais beneficiadas quando priorizamos os incentivos para que o hidrogênio possa ser consumido no Brasil. Mas temos uma flexibilidade e um olhar que não deixa de fora a oportunidade de explorar ou de escalar nossa produção e explorar nosso potencial internacional”, explica Colombo.
Corrida internacional
Com cerca de R$ 454 bilhões em investimentos anunciados em hidrogênio verde, o Brasil está entre um dos poucos com condições de fornecer o energético a um custo competitivo de US$ 1,47/kg até 2030, calcula a BloombergNEF.
No entanto, corre o risco de perder investimentos para países que já se lançaram na corrida para atrair essa indústria.
Embora o Ministério de Minas e Energia (MME) tenha lançado metas para hubs de hidrogênio de baixa emissão até 2035, incorporada no Plano Clima, um levantamento da EY mostra que, por enquanto, os projetos mais avançados no Brasil são pilotos — enquanto lá fora grandes empreendimentos já avançam para a fase de desenvolvimento.
Um exemplo é o da bp na Espanha, que anunciou, em fevereiro de 2025, o início da construção da planta de 2 GW de eletrólise para substituir hidrogênio fóssil na refinaria de Castellon. Um dos produtos será o combustível sustentável de aviação (SAF, em inglês).
Já a China é um exemplo de país com um plano concreto — e forte apoio político e financeiro do Estado — para alavancar o hidrogênio de baixo carbono.
“A China lançou o plano de industrialização para os próximos cinco anos e o hidrogênio verde é o energético de aposta. Eles estão falando de 400 milhões de toneladas a serem produzidas nos próximos anos em várias províncias chinesas”, conta Fernanda Delgado, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (Abihv).
“E a beleza da indústria chinesa é que ela é uma locomotiva para o resto da indústria mundial. Assim como aconteceu com a indústria solar e eólica, uma aposta chinesa representa um caminho pavimentado para o resto da economia. Você sabe que dali vai sair escala, vão sair equipamentos sofisticados para atender essa indústria e isso se espraia para o resto do mundo”, analisa.
No caso do Brasil, Delgado aponta que ainda é preciso encaixar algumas peças para materializar os investimentos bilionários anunciados por aqui.
Cobrimos por aqui
Curtas
Testes para E35 e B25. A diretoria colegiada da ANP aprovou nesta sexta (13/3) a minuta de portaria com critérios para sua participação nos testes de viabilidade técnica para o aumento das misturas de biocombustíveis na gasolina e no diesel.
- As análises vão verificar a compatibilidade de teores de até 35% de etanol (E35) e 25% de biodiesel (B25), conforme previsto na Lei do Combustível do Futuro.
Reajuste no diesel. A Petrobras informou, nesta sexta (13/3), aumento de R$ 0,38 por litro no preço do diesel A vendido para as distribuidoras, a partir de sábado (14/3). Segundo a petroleira, considerando a mistura obrigatória 15% de biodiesel, o ajuste é equivalente a R$ 0,32 por litro sobre o diesel B comercializado nos postos.
- Leia também: Petrobras minimiza imposto sobre exportação de petróleo: ‘é cenário de guerra’, diz Magda
Leilão de diesel. A Petrobras realiza nesta sexta-feira (13/3) um novo leilão de diesel, após uma disparada da demanda pelo combustível. A estatal confirmou à agência eixos que, dessa vez, a oferta será de 240 milhões de litros, para entrega durante o mês de abril em diversos polos onde atua.
Regimento do Fonte. O MME publicou no Diário Oficial da União desta sexta-feira (13/3) o regimento interno do Fórum Nacional de Transição Energética (Fonte). Entre os objetivos estabelecidos na portaria estão ampliar o debate entre governo, setor produtivo e sociedade civil.
Pequenos reatores. O governo nomeou, nesta sexta-feira (13/3), os membros do GT que vai estudar a infraestrutura nacional para reatores nucleares de potência, a fim de recepcionar pequenos e microrreatores modulares (SMRs). Os trabalhos vão durar 180 dias, podendo ser prorrogados, e resultarão em um documento sobre os desafios e oportunidades.
Chamada para biometano. A Comgás recebe até 30 de março as propostas comerciais para interconexão de plantas de biometano à rede de distribuição. A chamada foi aberta na esteira da criação, em São Paulo, da tarifa de distribuição específica para produtores — a Tusd-Verde.
Soluções baseadas na natureza. A Petrobras selecionou quatro propostas no edital Soluções Baseadas na Natureza para Adaptação e Resiliência Climática nas Cidades que receberão, juntos, R$ 21 milhões em novos investimentos nos próximos três anos no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Conheça os projetos
Artigos da semana
Transição, substantivo feminino Não haverá uma transição energética verdadeiramente justa se ela não for capaz de absorver, em todas as suas esferas, o talento das mulheres, especialmente nas carreiras emergentes que estão desenhando a infraestrutura do futuro, escreve Veronica Vara
Petróleo, conflitos geopolíticos e reputação revelam o que crises energéticas dizem sobre o futuro das empresas Conflitos em regiões estratégicas de produção energética reforçam dependência da economia global em relação a um recurso concentrado em áreas sensíveis, escreve André Senador
China e a muralha da transição energética Enquanto o ocidente tenta alcançá-la, a China avança para o próximo degrau tecnológico, com novas células fotovoltaicas, baterias de estado sólido, eletrólitos de alta tensão, escreve Marcelo Gauto
Data centers avançam e revelam gargalos críticos da infraestrutura brasileira Brasil permanece bem posicionado para liderar a próxima geração de data centers sustentáveis, mas insegurança jurídica afeta a viabilidade dos projetos, escrevem Luciana Maciel, Patricia Dias e Eduardo Pinho
- diálogos da transição
- Hidrogênio
- Política energética
- Transição energética
- Abeeólica
- ABIHV
- China
- Fernanda Delgado
- Hidrogênio de baixo carbono
- Hidrogênio verde (H2V)
- Hub de hidrogênio
- Indústria verde
- Marco legal do hidrogênio
- Ministério da Fazenda
- Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixo Carbono (PHBC)
- Rehidro
- Subsídios

