Adicionalidade opcional

CNI defende critérios diferentes para hidrogênio exportado e consumido no Brasil

Estudo sugere que Brasil adote o critério de adicionalidade de forma opcional no mercado interno

Vista aérea vertical de embarcações atracadas no cais do Porto do Pecém, com água esverdeada ao redor (Foto Divulgação)
Maioria dos projetos de hidrogênio verde no Porto do Pecém miram mercado europeu (Foto Divulgação)

RIO — A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende a adoção de um modelo de certificação flexível e em duas frentes para o hidrogênio de baixo carbono no Brasil — uma voltada para atender às exigências de mercados internacionais e outra mais adaptada à realidade doméstica. 

A posição consta em um estudo inédito apresentado pela entidade, que compara os critérios de certificação adotados por dez países em diferentes estágios da regulação do hidrogênio.

O levantamento compara os esquemas de certificação de Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, China, Canadá, Japão, Índia, Austrália, França e Coreia do Sul.

A certificação no Brasil depende da publicação do decreto para regulamentar as leis do hidrogênio no Brasil (leis 14.948 e 14.990). O texto está pronto e parado há um mês, aguardando o aval da Casa Civil.

Na última quinta (13), o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), disse que seria publicado “na próxima semana“.

“O Brasil tem condições singulares de se posicionar como um grande fornecedor de hidrogênio de baixo carbono, graças à alta participação de fontes renováveis na matriz elétrica”, afirma Ricardo Alban, presidente da CNI.

“Mas, para transformar esse potencial em vantagem competitiva real, precisamos de regras claras, proporcionais e compatíveis com nossa realidade produtiva”, pondera.

Adicionalidade e mercado nacional

Um dos pontos mais debatidos no relatório é o critério de adicionalidade. Isto é, a exigência de que a energia renovável usada na produção de hidrogênio seja proveniente de novos projetos, e não da capacidade já instalada.

O tema, inclusive, vem “assombrando” os empreendimentos de hidrogênio verde no Brasil.

A CNI destaca que, se por um lado, o critério pode atrair investimentos para novas fontes renováveis, por outro, compromete a competitividade ao aumentar custos de implantação na produção do energético.

O estudo sugere que o Brasil adote o critério de adicionalidade de forma opcional no mercado interno, mas obrigatória para mercados que a exigem, como o europeu.

Já quanto ao sincronismo temporal e a correlação geográfica, outros critérios exigidos pela Diretiva Europeia de Energias Renováveis (RED II), poderiam ser atendidos com relativa facilidade no Brasil, graças à infraestrutura já existente no Sistema Interligado Nacional (SIN).

“As conclusões do estudo apontam para a necessidade de um modelo de certificação nacional simples, flexível e alinhado às práticas internacionais, capaz de atender tanto ao mercado interno quanto às exigências do comércio global”, diz o relatório.

Certificação para evitar o greenwashing

O hidrogênio pode ser produzido por múltiplas rotas tecnológicas e com diferentes pegadas de carbono. 

Nesse contexto, o estudo destaca que a certificação funciona como uma garantia para investidores e compradores  de que o produto foi fabricado com baixa emissão de gases de efeito estufa (GEE), protegendo contra práticas de greenwashing

O documento também cita a importância da certificação para os projetos que pretendem acessar os R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais (PHBC), além dos incentivos voltados a desoneração do Capex (Rehidro). 

“A certificação fortalece tanto o mercado interno quanto o de exportação, criando condições favoráveis para que os projetos brasileiros possam acessar políticas de estímulo, como o Rehidro e o PHBC, e competir globalmente, especialmente em mercados exigentes como o europeu”, avalia Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI.

Limites discrepantes de emissões

Outra observação é a grande disparidade nos critérios de emissão aceitos. Enquanto a legislação brasileira admite até 7 kgCO₂e por kg de hidrogênio, os limites adotados por Reino Unido, EUA e União Europeia ficam entre 2,4 e 4 kgCO₂e/kgH2.

“A falta de padronização e(ou) critério limite acima do aceito pelos países que desejam importar hidrogênio e derivados, pode afastar investidores que possuam foco na exportação”, diz o documento

Por outro lado, a CNI destaca que a indústria brasileira ainda está despreparada para atender “níveis de exigência muito altos”, especialmente devido à limitada tecnologia nacional para produção de hidrogênio por processos com captura de carbono, reforma  ou DRI — para produção de aço verde.

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