Opinião

Do cimento à eficiência: a transformação da construção civil na era da eletrificação

Construir com eficiência energética deixa de ser apenas uma decisão econômica e passa a ser uma questão de segurança energética, escreve Gustavo Tognetta

Gustavo Tognetta é Head de Eficiência Energética da GreenYellow Brasil (Foto: Divulgação)
Gustavo Tognetta é Head de Eficiência Energética da GreenYellow Brasil (Foto: Divulgação)

A construção civil sempre refletiu a tecnologia, as necessidades e a visão de cada época.

Dos abrigos primitivos em madeira e pedra à engenharia monumental de Roma, passando pelo uso do ferro e do cimento na Revolução Industrial, até a arquitetura moderna em concreto e vidro, cada avanço buscou eficiência, durabilidade e funcionalidade.

Hoje, estamos diante de uma mudança estrutural que pode transformar não apenas a forma como construímos, mas também a maneira como consumimos energia.

No final do ano passado, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou uma resolução que estabelece índices obrigatórios de eficiência energética para todas as novas edificações.

A norma cria um marco regulatório para o setor, promovendo o uso racional da energia e a redução do consumo ao longo de todo o ciclo de vida do edifício.

A implementação será gradual, começando pelas edificações federais em 2027 e se estendendo até 2040.

Os edifícios passarão a receber uma etiqueta de eficiência energética, classificada de A a E, do melhor para o menor desempenho.

Enquanto prédios públicos federais devem atingir o nível A, imóveis comerciais e residenciais precisam alcançar pelo menos o nível C.

A certificação será realizada por autodeclaração anexada à Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), com fiscalização pelo Inmetro, permitindo que a estratégia seja ajustada ao longo do tempo conforme a experiência com a norma.

A norma do MME deve gerar até R$ 2,7 bilhões em economia de eletricidade até 2040 e reduzir custos operacionais ao longo do ciclo de vida do edifício, considerando o Custo Total de Propriedade (CTP), que avalia não apenas o investimento inicial, mas também os gastos com operação e manutenção.

Construções bem planejadas, portanto, são mais econômicas, resilientes e sustentáveis.

Em 2024, transportes e indústrias responderam por cerca de 65% do consumo de energia, enquanto residências representaram 10,8%, juntos totalizaram 75,8% do uso nacional, segundo o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN 2025).

A demanda elétrica nas áreas metropolitanas deve triplicar até 2030, impulsionada por veículos elétricos, transporte público modernizado e digitalização dos serviços urbanos.

Não se trata apenas de ampliar a oferta de energia, mas de reduzir o consumo e elevar a eficiência no uso. Nesse contexto, a construção civil assume papel central.

Edificações mais eficientes representam menor carga sobre o sistema elétrico, menor necessidade de expansão da infraestrutura e maior estabilidade operacional.

Em síntese, construir com eficiência deixa de ser apenas uma decisão econômica e passa a ser uma questão de segurança energética.

Em edificações eficientes, o armazenamento de energia permite carregar baterias no período de maior geração solar e, na ponta, suprir parte ou toda a demanda local.

Isso ajuda a mitigar os efeitos da “curva do pato” e torna as redes mais resilientes e seguras.

A automação e o monitoramento em tempo real transformam esses edifícios em nós inteligentes da cidade. Com gestão ativa de carga, eles reduzem picos de demanda, aumentam a resiliência e permitem uma operação mais previsível da rede urbana.

Ou seja: o prédio deixa de ser apenas um consumidor e passa a atuar como agente do sistema, contribuindo para o equilíbrio da carga, a redução de desperdícios e a maior eficiência do setor elétrico.

Para viabilizar essas soluções de eficiência energética, modelos de negócio como o Energy as a Service (EaaS) permitem que empresas e incorporadoras implementem sistemas avançados de gestão de energia, incluindo climatização, refrigeração e armazenamento, sem a necessidade de investimento inicial (Capex).

Além de garantir a performance dos ativos, essa abordagem facilita que tanto construções novas quanto existentes se adequem às exigências regulatórias, tornando o consumo mais inteligente e previsível.

Nesse contexto, eficiência energética deixa de ser um diferencial de mercado e passa a ser um requisito básico.

Tecnologias antes consideradas “extras”, como isolamento térmico, fachadas inteligentes, automação, iluminação eficiente e sistemas de gestão energética, tornam-se parte integrante do projeto.

Construir de forma eficiente não é apenas uma tendência: é uma necessidade estratégica para o futuro das cidades brasileiras e para a estabilidade do sistema elétrico.


Gustavo Tognetta é Head de Eficiência Energética da GreenYellow Brasil.

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