A Petrobras confirmou a venda de 70 mil toneladas de gás liquefeito de petróleo (GLP) no leilão realizado na terça-feira (31/3) e atribuiu a decisão ao aumento da demanda industrial pelo combustível.
“O objetivo é atender às necessidades crescentes do segmento industrial e de outras demandas que não se enquadram no uso residencial em botijões de 13kg (gás de cozinha)”, afirmou em nota à agência eixos.
O presidente Lula mandou a estatal cancelar o leilão, em uma declaração pública durante entrevista à TV Record da Bahia nesta quinta-feira (2/4). Disse que foi uma “cretinice” na Petrobras, feita à revelia da diretoria comandada por Magda Chambriard.
“Não vamos aumentar GLP, não vamos aumentar. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras e vamos rever esse leilão. Nós vamos anular esse leilão, porque o povo pobre não pagará em hipótese alguma o preço dessa guerra”.
Segundo a Petrobras, a venda de 70 mil toneladas equivale a “apenas” 12% do mercado nacional estimado para abril.
“Como referência, o segmento industrial e de outras demandas é da ordem de 30% do mercado brasileiro e a quantidade ofertada no leilão equivale a apenas 12% do mercado”, diz a nota.
O preço do gás de cozinha vai subir
Por mais que represente uma parcela do consumo de gás de cozinha, os leilões são gatilhos para aumento de preços pelas distribuidoras.
O governo de Jair Bolsonaro (PL) acabou com a política de diferenciação de preços, criada em gestões petistas no passado, para oferta de GLP mais barato para uso residencial. Era um subsídio embutido na estatal que começou a ser revisto no governo de Michel Temer (MDB) e concluída com Bolsonaro.
Assim, sempre que a Petrobras vende cargas em leilões com valores mais elevados que os cobrados na tabela da estatal, distribuidoras repassam os aumentos para o varejo, independente do destino atribuído pela Petrobras ao GLP. Isso ocorreu desde o ano passado, como esclarece a própria Petrobras.
“A comercialização de GLP por leilões está prevista nos contratos celebrados com as Distribuidoras e vem sendo praticada regularmente desde novembro de 2024. Essa modalidade de venda busca complementar a oferta de forma competitiva, transparente e isonômica”, diz.
A tensão precede a guerra. Em 2025, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) acionou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) com um pedido para analisar a prática.
O caso está sob a relatoria do diretor Fernando Moura, e até o momento nenhuma decisão foi tomada.
Os preços do GLP da Petrobras são os mesmos desde julho de 2024; à época, a Petrobras ofertou cerca de 2% do total de entregas em dois polos por meio de leilões.
Seis meses depois, a prática chegou a 12% das entregas em sete polos. Com ágio crescente, saindo do patamar de 10% a 16% para mais de 100% em alguns casos, como voltou a acontecer agora, em março de 2026.
O valor mínimo dos lances é estipulado acima do preço-base da companhia. Desde janeiro de 2023, quando Lula assumiu, a Petrobras reduziu os preços-base do GLP no país em cerca de 17%.
À época, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, justificou que o preço do GLP é mantido em um patamar mais baixo nos valores cobrados na tabela, porque é para o consumo doméstico, por meio dos botijões de 13 kg.
E que o leilão é um mecanismo competitivo e justo; e o uso industrial de GLP está tirando o mercado do gás natural.
“O preço do GLP é calibrado para a cocção e uso doméstico – e o crescimento [dessa demanda] é puramente vegetativo – o que estamos vendo? (…) as distribuidoras buscam o aumento desse mercado [industrial], alegando o uso doméstico”, disse em declarações à imprensa.
“Nada mais justo do que o preço do leilão. No passado, chegamos a ter dois preços, um industrial e um doméstico. E agora essa discussão voltou por causa do aumento da demanda industrial e acho que a gente consegue enfrentar isso, não tem nada mais justo”.
Lula manda cancelar leilão de gás de cozinha
O aumento mais expressivo decorrente do leilão desta terça-feira (31/3) foi registrado em Duque de Caxias (RJ), onde o preço do botijão de 13 kg saiu por R$ 33,37 de acordo com a tabela da Petrobras — e foi comercializado por R$ 72,77.
O resultado provocou desdobramentos dentro da companhia, com o afastamento de um gerente da área de Comercialização pela presidente, Magda Chambriard.
Lula afirmou que a realização do leilão foi uma “bandidagem”. “A pessoa sabia da orientação do governo, da orientação da Petrobras”, disse Lula.
A anulação do leilão, porém, é encarada com dúvidas pelo mercado, pois o novo preço já foi praticado junto aos distribuidores que adquiriram as cargas de GLP.
Ontem, a Associação Brasileira das Entidades de Classe das Revendas de Gás (Abragás) afirmou que os revendedores avaliam deixar o programa Gás do Povo em razão do cenário.
