Leilão de GLP

Após o diesel, Petrobras vende gás de cozinha mais caro em leilões para distribuidoras

Repetindo estratégia feita com o diesel, a Petrobras vendeu gás de cozinha via leilões com ágio de até 100%. A medida protege as margens da estatal em meio à crise global de petróleo

Na imagem: Botijões reciclados de 13 kg de GLP, o gás de cozinha, empilhados e enfileirados (Foto Marcelo Casal/Agência Brasil)
Por ser largamente utilizado na cozinha dos brasileiros, o preço do GLP é sensível do ponto de vista social e tem um histórico de controles e subsídios | Foto Marcelo Casal/Agência Brasil)

A Petrobras está comercializando 70 toneladas de gás liquefeito de petróleo (GLP), nesta terça (31/3), com preços até 100% maiores que os cobrados na tabela da estatal, os chamados “preços em linha”. A concorrência foi anunciada na semana passada, em meio à disparada das cotações do petróleo no mercado internacional. 

O leilão ainda está em curso, a matéria será atualizada na medida em que os resultados dos polos forem concluídos.

O aumento mais expressivo registrado até o momento foi em Duque de Caxias (RJ), onde de acordo com a tabela da Petrobras, o preço do botijão de 13 kg sai por R$ 33,37 — foi comercializado por R$ 72,77 no leilão.

O gás de cozinha da Petrobras é vendido por cerca de R$ 2,7 por quilo, na média nacional, desde julho de 2024. Contudo, por meio dos leilões, a companhia coloca combustível mais caro no mercado, elevando suas margens, sem a necessidade de anunciar um aumento de preços. 

As 70 toneladas vendidas no leilão de hoje representam cerca de 15% da demanda do combustível em todo país no intervalo de um mês. Como já ocorreu no passado recente, os preços mais caros nos leilões serão repassados pelas distribuidoras para os clientes finais. 

Em resposta à crise provocada pelos ataques dos EUA e Israel contra o Irã, a Petrobras vendeu lotes de diesel em leilão, com preços até 75% mais caros, como mostrou a agência eixos. Pretendia fazer o mesmo com volumes de gasolina, mas recuou, cancelando os leilões e, na sequência, decidiu antecipar pedidos das distribuidoras pelos preços normais.

Leilão de GLP termina com “prêmio” de R$ 39 por botijão

Na lista a seguir, apresentamos os preços médios do GLP vendido pela Petrobras nos leilões, calculando o impacto no botijão de 13 kg, comparativamente aos preços médios praticados pela estatal nos estados. 

Isto é, o “preço de tabela” é o valor médio informado pela Petrobras para os estados em sua página na internet (precos.petrobras.com.br). Os valores são os mesmos desde julho de 2024. O “leilão” informa, respectivamente, o valor médio de 13 quilos vendidos nos leilões desta terça, com o ágio por quilo entre parênteses.            

  • Belém (PA), 3 mil toneladas.
    Preço no estado: R$ 35,10 (13 kg);
    Leilão: R$ 56,88 (13 kg), ágio de 1,675/kg
  • Ipojuca/Suape (PE), 9 mil toneladas;
    No estado: R$ 33,35 (13 kg)
    Leilão: R$ 60,65 (13kg), ágio de 2,100/kg
  • Betim (MG), 5 mil toneladas;
    No estado: R$ 35,48 (13 kg)
    Leilão: R$ 52,48 (13kg), ágio de 1,300/kg 
  • Duque de Caxias (RJ), 13 mil toneladas;
    No estado: R$ 33,37 (13 kg)
    Leilão: R$ 72,77 (13kg), ágio de 3,030/kg
  • São José dos Campos (SP), 14 mil toneladas;
    Tabela: R$ 34,74 (13 kg)
    Leilão: R$ 58,14 (13kg), ágio de 1,800/kg 

Ainda restam os leilões referentes aos polos de Paulínia (SP), com 17 mil toneladas; e Araucária (PR), com 9 mil toneladas.

Brecha na regulamentação de preços 

A falta de transparência nos leilões da Petrobras é reflexo de uma lacuna na regulamentação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em um entendimento particular da ANP, a Petrobras não é legalmente obrigada a tornar públicos os resultados detalhados dos leilões que realiza. 

Essa isenção contrasta com as obrigações gerais de transparência impostas ao setor. A regulação exige que os preços cobrados por todas as refinarias nacionais, bem como pelos importadores, sejam disponibilizados publicamente na internet. 

Essa medida visa garantir que o mercado e os consumidores tenham acesso a informações essenciais de precificação. No entanto, essa obrigatoriedade atinge apenas os “preços de tabela”, ou “preços em linha”, utilizando o jargão específico do mercado de combustíveis.

A brecha regulatória reside justamente no tratamento diferenciado dado aos resultados dos leilões da Petrobras. A própria ANP, ao interpretar a regulamentação existente, não exige que haja transparência nos casos em que os combustíveis são vendidos por meio desses leilões e acima do preço de tabela

Essa situação cria um ponto cego no mercado, onde parte significativa das transações de combustíveis da maior empresa do setor no país pode ocorrer sem o escrutínio público necessário.

Para entender: os leilões da Petrobras  

A Petrobras opera com um regime de “cotas”. Distribuidoras que têm contratos com a estatal podem comprar volumes mensais de gasolina, diesel e GLP de acordo com a média de retiradas de meses anteriores.

  • Nessas cotas, valem os preços da tabela publicada pela companhia em seu site. Nos leilões, distribuidoras disputam o pagamento de um “prêmio”, o valor a mais a ser pago sobre a tabela para retirada de volumes adicionais de combustíveis.
  • Os leilões são uma forma de a companhia ofertar volumes adicionais, além das cotas, mediante concorrência no mercado. Contudo, nos casos recentes do diesel e da gasolina (depois, cancelados), a Petrobras cortou as entregas por cotas, e programou leilões. Serviu, assim, para vender mais caro sem precisar anunciar um reajuste oficial. 

A agência eixos procurou a Petrobras para comentar o resultado do leilão e os valores dos ágios, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto.

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