Coluna do Gauto

Os 25 anos para o Net Zero

Meta esbarra em limites físicos, econômicos e geopolíticos, exigindo conciliar clima, segurança energética e custos em um curto prazo, escreve Marcelo Gauto

Complexo siderúrgico da Nippon Steel na zona industrial de Nagoya, no centro-leste do Japão, lançando grande volume de fumaça poluente na atmosfera (Foto wtdrkaia/Flickr)
Poluição atmosférica lançada pelo complexo siderúrgico da Nippon Steel na zona industrial de Nagoya, no Japão (Foto wtdrkaia/Flickr)

Em 2018, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) publicou um relatório mostrando que, para que temperatura média não ultrapassasse o aumento de 1,5 °C, medido em relação à temperatura média global da era pré-industrial, as emissões líquidas globais de gases de efeito estufa (GEE) deveriam chegar a zero por volta de 2050.

Desde então, 2050 ficou globalmente conhecido como o “ano do Net Zero”, onde há uma espécie de encontro marcado com o destino. Um mundo menos quente, limpo e renovado, com emissões líquidas de carbono iguais a zero. 

Quando olhamos para o “chão de fábrica” da realidade, descobrimos que a transição energética não é uma escolha de destino, é uma negociação constante com a realidade econômica e com questões físicas. E, como em toda negociação complexa, há cláusulas que não podemos simplesmente ignorar. A inércia, a segurança, a equidade e a sustentabilidade são possivelmente as mais complicadas da equação.

Não é possível tratar a transição como se estivéssemos atualizando o software de um celular. A civilização não é feita de bits, ela é feita de átomos que se empilham.

O sistema econômico global é de cerca de US$ 110 trilhões, construído sobre o carbono. Não se muda isso do dia para a noite. As transições energéticas anteriores levaram gerações. Do carvão para o petróleo, foram décadas de sobreposição, não de substituição.

Por quê? Por causa da inércia material. Para chegar ao Net Zero em 2050, teríamos que reconstruir a base física do planeta, a base de tudo que construímos, o aço utilizado, o cimento das construções, o fertilizante do agro, entre tantos outros derivados petroquímicos, em apenas 25 anos.

É plausível, a nível global? Mais do que um milagre econômico, seria um milagre termodinâmico

Há ainda o famoso trilema da transição: buscar a sustentabilidade do planeta, a segurança energética (a garantia de que a luz não vai apagar) e a equidade, isto é, o preço que as pessoas conseguem pagar. A realidade econômica dita que, se você puxar o “pé” da sustentabilidade com muita força e os outros dois ficarem curtos demais, o tripé não se sustenta e o banquinho cai.

Quando o preço da energia dispara, a “equidade” morre e a política entra em colapso. Quando o vento não sopra e o sol não brilha, a “segurança” exige o gás ou o carvão. A negociação com a economia é dura, sociedades não aceitam o escuro ou a pobreza em nome de uma meta para daqui a duas décadas e meia. 

A transição é multidimensional, tem geopolítica também. Não existe uma única transição, mas várias, ocorrendo em velocidades, necessidades e interesses diferentes. A China tem feito grande esforço em energia renovável, buscando independência de petróleo e gás importados e domínio tecnológico especialmente na eletrificação, influenciando a transição indiretamente no mundo todo.

A Europa, pela proximidade territorial, tem sentido sua indústria automobilística definhar pela invasão dos veículos elétricos chineses. Os EUA, grande emissor histórico de GEEs, tenta se manter como potência mundial, mesmo que isso exija mais carbono na atmosfera, impondo barreiras comerciais e ações unilaterais que desafiam o século XXI.

Pelas variadas questões elencadas, padronizar o relógio global para 2050 mostra-se deveras complexo. O Net Zero em 2050 é um norte moral valioso, mas a física e a economia nos alertam que o cronômetro da história corre mais devagar do que a simples vontade política. 

A transição não é um evento agendado, é o maior desafio de engenharia e reequilíbrio econômico da humanidade. Uma jornada que levará muito mais do que 25 anos, mas que exige que cada um desses anos seja focado em soluções que a economia possa sustentar e que a física possa entregar.

O relógio não para. O Net Zero não será alcançado por decretos ou slogans, mas por decisões concretas que conciliem ciência, economia e engenharia. 

Há muito trabalho pela frente nos próximos 25 anos que nos levarão até 2050. Se correr, a luz apaga, se ficar o clima esquenta. Parafraseando o filósofo Mario Sergio Cortella: “façamos o nosso melhor, até que tenhamos condições melhores para fazer melhor ainda”. Vamos adiante.

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