Opinião

Eletromobilidade entre China e Brasil: perspectivas de cooperação e desafios para a transição energética

Apesar da cooperação com a China trazer inovações, desafios econômicos e diferenças nas estruturas de mercado têm dificultado essa parceria, escreve Ricardo Lopes Kotz

Ricardo Lopes Kotz pesquisador do CEFD (Foto: arquivo pessoal)
Ricardo Lopes Kotz pesquisador do CEFD (Foto: arquivo pessoal)

A transição energética global, cada vez mais ligada à competitividade industrial e ao avanço tecnológico, coloca os veículos elétricos (VEs) em uma posição estratégica. Este artigo analisa a cooperação entre China e Brasil no setor de eletromobilidade, abordando se o investimento direto estrangeiro (IDE) chinês pode fomentar a inovação e a produção industrial no país ou se, ao contrário, pode gerar novas formas de dependência nas cadeias de valor.

Desde o início do século XXI, o Brasil se firmou como um destino atraente para o IDE chinês, recebendo investimentos em setores diversos como petróleo, energia elétrica e agricultura.

Entretanto, essa relação é desigual: enquanto a China domina as tecnologias de ponta, o Brasil enfrenta a dificuldade de diversificar sua economia, que ainda depende predominantemente da exportação de commodities.

Embora a China seja um dos maiores emissores de poluentes, também lidera a transformação em tecnologias renováveis.

Uma das questões centrais é: até que ponto os investimentos chineses no Brasil podem fortalecer a capacidade produtiva e de inovação local? Ademais, como o Brasil pode aproveitar esses recursos para avançar em setores críticos, como baterias e veículos elétricos?

Para maximizar os benefícios do IDE, a construção de políticas industriais coerentes é essencial.

O Brasil deve transformar esses investimentos em uma plataforma que desenvolva suas capacidades internas, evitando cair na armadilha da dependência, onde a falta de coordenação entre políticas de inovação pode limitar o país a atividades de montagem e extração de recursos.

O impacto da cooperação na produtividade e inovação depende da robustez das instituições brasileiras. O capital e a tecnologia trazidos pelo IDE chinês não garantirão desenvolvimento sustentável.

Sem uma estrutura institucional adequada, as empresas podem operar como enclaves direcionados à exportação, contribuindo pouco para a economia local.

Dividindo a cadeia de valor dos VEs em três segmentos – upstream, midstream e downstream – obtemos uma visão mais clara das oportunidades e desafios.

O segmento upstream envolve a extração e o processamento de insumos críticos, como lítio, cobre e cobalto, essenciais para baterias. A China domina essa fase, respondendo por 60% do refino global dessas matérias-primas.

O Brasil, com suas ricas reservas minerais, ainda não agrega valor de forma eficaz, necessitando de políticas públicas que desenvolvam o processamento, evitando assim a mera exportação de commodities.

No segmento midstream, que inclui a montagem e produção de baterias, empresas chinesas estão explorando a verticalização da produção.

Esse movimento pode abrir portas para o Brasil, permitindo o desenvolvimento de capacidades locais e uma rede de fornecedores na montagem e integração de packs de baterias.

Especialmente no segmento midstream residem oportunidades ainda pouco exploradas para desenvolvimento de empresas com capacidades locais, tornando-se fornecedores de produtos qualificados para as montadoras chinesas.

Os investimentos chineses na eletromobilidade oferecem uma oportunidade única para o Brasil. A formação de marcos regulatórios que estimulem a capacitação técnica e a criação de valor local é crucial para garantir uma reindustrialização verde.

A relação Brasil-China no setor de veículos elétricos deve ser monitorada com políticas que promovam a verdadeira integração e o desenvolvimento, evitando que o Brasil seja apenas uma extensão da produção chinesa.

A participação de empresas chinesas em leilões de armazenamento de energia no Brasil pode, por sua vez, favorecer transbordamentos intersetoriais e aprendizagem tecnológica.

O segmento downstream, que abrange montagem e comercialização de veículos, pode gerar empregos e oportunidades, mas os transbordamentos são potencializados quando investimentos incorporam engenharia e adaptação ao mercado local.

Globalmente, o investimento chinês no segmento downstream é significativo, mas na América Latina ainda se concentra nas atividades upstream, com exceção do Brasil.

A crescente presença de empresas chinesas no Brasil reflete uma reconfiguração das cadeias de valor, impulsionada pela pandemia de COVID-19.

A combinação dos recursos minerais brasileiros com o ecossistema de inovação chinês pode fomentar resultados positivos, desde que os investimentos estejam alinhados às estruturas institucionais locais.

O BNDES desempenha um papel fundamental na transição energética e na promoção do ecossistema de mobilidade elétrica no Brasil, atuando como provedor de crédito e política pública.

No entanto, o país enfrenta desafios significativos, como a limitada demanda por veículos elétricos em comparação com mercados globais.

Além do BNDES, políticas industriais como a iniciativa Mover e a Nova Indústria Brasil (NIB) visam reduzir emissões no setor automotivo através de novas tecnologias.

Apesar da cooperação com a China trazer inovações, desafios econômicos e diferenças nas estruturas de mercado têm dificultado essa parceria.

A instalação de estações de recarga, por exemplo, ainda é modesta, o que demonstra a fragilidade da cooperação em inovação de baixo carbono.

A política industrial deveria priorizar o chamado “elo intermediário ausente” da cadeia de valor — ferramental, automação, eletrônica, software industrial, sistemas de qualidade e certificação verde.

Nestes segmentos, os efeitos de encadeamento são significativos e as empresas brasileiras ainda apresentam fragilidades.

O fortalecimento dessas áreas exigirá políticas industriais direcionadas, incluindo o desenvolvimento de parques industriais especializados e coordenação financeira entre governos federal e subnacionais, em parceria com empresas líderes.

Para que a colaboração China-Brasil traga benefícios duradouros, o país precisa se posicionar como um agente ativo, utilizando essa interação para fortalecer sua base industrial e tecnológica, essencial para a sua transição energética e descarbonização.


Ricardo Lopes Kotz é pesquisador no Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD).  Doutorando em Políticas Públicas e Estudos Internacionais pela City University of Hong Kong, possui dois títulos de mestrado: o primeiro em Política Chinesa (LL.M), pela Renmin University of China, e o segundo em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atuou como pesquisador (research fellow) na City University of Hong Kong por quatro anos e publicou trabalhos sobre temas que englobam tecnologia, inovação e energia, além das relações da China com a América Latina.

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