Reembolso

A cronologia da crise que levou a Petrobras a devolver dinheiro por leilão de gás de cozinha

Em vez de cancelar a venda de 70 mil toneladas de gás de cozinha, a Petrobras optou por um reembolso retroativo, mas limitado ao PPI. A estatal estuda aderir à MP 1349 para um repasse adicional do subsídio às distribuidoras

A cronologia da crise que levou a Petrobras a devolver dinheiro por leilão de gás de cozinha

A Petrobras informou nesta quinta (9/4) que vai devolver parte dos valores pagos por distribuidores de gás de cozinhas nas compras realizadas por meio do leilão de 31 de março, quando o combustível foi vendido, em algumas regiões, por mais que o dobro do preço. A decisão foi tomada após o presidente Lula determinar publicamente o cancelamento do leilão.

Segundo a Petrobras, contudo, o reembolso inicial será apenas dos valores cobrados acima dos preços de paridade de importação do gás liquefeito de petróleo (GLP), registrado na semana de 23 a 27 de março e publicados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis (ANP). 

Os valores do PPI que serão usados no reembolso são R$ 50,6740 e R$ 51,4020, para importação por Suape (PE) e Santos (SP), respectivamente e considerando o volume de 13 kg, usado nos botijões domésticos. 

Segundo a companhia, está em análise a adesão formal ao programa de subvenção governamental ao GLP importado, instituído pela MP 1349. Caso decida pela adesão, também vai devolver aos clientes os valores subsidiados, de 85 centavos por kg ou R$ 11,05 por botijão de 13 kg.

O preço de tabela da companhia é R$ 34,73 na média nacional, enquanto os valores praticados nos leilões variaram de R$ 56,88 a R$ 72,77.

Isto é, os preços de importação (PPI) são 47% maiores que os cobrados pela Petrobras nas vendas normais de GLP, fora dos leilões. E a venda controversa das 70 mil toneladas nas concorrências foram fechadas com um ágio próximo de 110% em relação ao preço de tabela em alguns casos; e entre 12% e 43% acima do PPI.

A companhia garantiu que vai entregar a totalidade dos volumes contratados no leilão. As cargas já estavam sendo retiradas desde o dia seguinte à realização do leilão, como mostrou a eixos.     

A linha do tempo da crise do gás de cozinha da Petrobras 

  • 24 de março. Petrobras programou leilões de 70 mil toneladas de GLP, 12% da demanda prevista para abril, com lances iniciais de até R$ 12,35 por 13 kg de GLP. O gás de cozinha sairia ao menos 35% mais caro nesses casos. A imprensa noticia o leilão.
  • 31 de março. Após adiar o leilão, a Petrobras comercializa as 70 mil toneladas de GLP em leilões com ágios de até 100% sobre o preço de tabela. Por exemplo, o preço em Duque de Caxias (RJ) saltou de R$ 33,37 para R$ 72,77 (botijão de 13 kg). A estatal justificou a venda alegando o aumento da demanda industrial.
  • 1º de abril. A Abragás afirma que muitos revendedores podem abandonar o programa Gás do Povo, que fornece botijões gratuitos para famílias de baixa renda. Setor cobra o reajuste da tabela do programa social…
  • … Às 20h59. O Ministério de Minas e Energia (MME) assina o ofício despachado no dia seguinte ao Ministério da Fazenda e à Senacon para que adotem medidas contra práticas abusivas de preços no mercado de GLP.
  • 2 de abril, às 07h55. A ANP abre oficialmente o processo de fiscalização em que determina o envio de informações oficiais da Petrobras sobre os valores e entregas acertadas no leilão. Decisão foi tomada na noite do dia anterior…
  • Às 8h30. O presidente Lula fala ao vivo em entrevista à Record Bahia que o leilão de gás de cozinha será cancelado, após repercussão negativa dos resultados. Distribuidoras comunicam aos varejistas que os valores serão repassados e o botijão vai ficar cerca de R$ 7 mais caro.
  • 6 de abril. A Petrobras demite Claudio Romeo Schlosser, diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados, com efeito imediato. Schlosser era responsável pelos leilões de GLP (gás de cozinha), diesel e gasolina (estes últimos, cancelados)…
  • … E o governo federal anunciou o pacote extra de R$ 10 bilhões para subsidiar combustíveis, incluindo a criação de uma subvenção de R$ 0,85/kg de GLP importado, válida por dois meses (abril e maio), com custo estimado em R$ 330 milhões.
  • 8 de abril. Petrobras aprova a “neutralização” dos efeitos decorrentes do leilão de 31 de março. Se comprometeu a devolver aos distribuidores os valores cobrados acima do PPI divulgado pela ANP (referente ao período de 23 a 27 de março).

Segundo a Petrobras, a decisão de devolver uma parte dos valores foi “sustentada por análises econômicas e de risco” e levou em conta a “excepcionalidade do contexto mercadológico atual, decorrente do conflito no Oriente Médio”.

A empresa cita ainda as “manifestações de órgãos de controle e regulatórios, tais como ANP e Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon)”.

Petrobras, leilões e o uso industrial do GLP

Segundo a Petrobras, os leilões de GLP, realizados regularmente desde 2024, são uma resposta ao uso industrial do combustível. “O objetivo é atender às necessidades crescentes do segmento industrial e de outras demandas que não se enquadram no uso residencial em botijões de 13kg (gás de cozinha)”, afirmou em nota à agência eixos, enviada em 1º de abril.  

Contudo, desde o governo de Jair Bolsonaro (PL) foi encerrada a política de diferenciação de preços, criada em gestões petistas no passado, para oferta de GLP mais barato para uso residencial. Era um subsídio embutido na estatal que começou a ser revisto no governo de Michel Temer (MDB).

Assim, sempre que a Petrobras vende cargas em leilões com valores mais elevados que os cobrados na tabela da estatal, distribuidoras repassam os aumentos para o varejo, independente do destino atribuído pela Petrobras ao GLP. Isso ocorreu desde o ano passado, como esclarece a própria Petrobras.

Essa modalidade de venda é regular, prevista em contratos. Mas cria uma tensão que precede a guerra: a estatal prática preços, por vezes, mais baratos que o de importação, o que é bom para o consumidor (residencial e industrial), mas desestimula a concorrência. 

Esse GLP mais barato tira, inclusive, o mercado do gás natural. E, em uma crise, a responsabilidade pelo abastecimento recai quase integralmente sobre ela.  

Em 2025, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) acionou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) com um pedido para analisar a prática.

O caso está sob a relatoria do diretor Fernando Moura, e até o momento nenhuma decisão foi tomada. Os preços do GLP da Petrobras são os mesmos desde julho de 2024; à época, a Petrobras ofertou cerca de 2% do total de entregas em dois polos por meio de leilões.

Seis meses depois, a prática chegou a 12% das entregas em sete polos. Com ágio crescente, saindo do patamar de 10% a 16% para mais de 100% em alguns casos, como voltou a acontecer agora, em março de 2026.

O valor mínimo dos lances é estipulado acima do preço-base da companhia. Desde janeiro de 2023, quando Lula assumiu, a Petrobras reduziu os preços-base do GLP no país em cerca de 17%.

À época, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, justificou que o preço do GLP é mantido em um patamar mais baixo nos valores cobrados na tabela, porque é para o consumo doméstico, por meio dos botijões de 13 kg.

“O preço do GLP é calibrado para a cocção e uso doméstico – e o crescimento [dessa demanda] é puramente vegetativo – o que estamos vendo? (…) as distribuidoras buscam o aumento desse mercado [industrial], alegando o uso doméstico”, disse em declarações à imprensa.

“Nada mais justo do que o preço do leilão. No passado, chegamos a ter dois preços, um industrial e um doméstico. E agora essa discussão voltou por causa do aumento da demanda industrial e acho que a gente consegue enfrentar isso, não tem nada mais justo”.

Inscreva-se em nossas newsletters

Fique bem-informado sobre energia todos os dias