NESTA EDIÇÃO. A crise da biodiversidade deixou de ser apenas ambiental e passou a ameaçar a estabilidade financeira global, alertam cientistas.
Mineração, energia e construção civil estão entre os setores mais expostos à perda da natureza.
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O foco no crescimento medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) resultou em danos significativos ao meio ambiente, o que reflete diretamente nos negócios de grandes empresas globais, conclui um estudo divulgado nesta segunda (9/2) pela a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).
O documento é resultado de três anos de trabalho de um grupo de 79 cientistas e recebeu o endosso de mais de 150 países na cúpula do IPBES, “o IPCC da biodiversidade”, encerrada no domingo no Reino Unido.
O recado dos cientistas é direto: a perda de biodiversidade está se tornando um risco sistêmico para a economia global e a estabilidade financeira. Ou as empresas agem agora ou correm o risco de extinção.
“Todos os negócios dependem da natureza, portanto, ações que conservam e utilizam a natureza de forma sustentável também podem ser aquelas que ajudam as empresas a prosperar a longo prazo”, comenta Stephen Polasky (EUA), copresidente do estudo.
Segundo o relatório, os níveis do chamado capital natural (ecossistemas e recursos naturais) caíram quase 40%, mas, como os mercados não precificam a biodiversidade, as empresas não sentem o custo dos danos.
A valorização inadequada desses recursos também atrapalha a contabilidade do lucro com a sua proteção, o que tira a atratividade do investimento em preservação.
Como o PIB é a métrica, atividades que desequilibram o clima e destroem a natureza seguem recebendo a maior parte do fluxo de capital global.
Dados da ONU sobre o Estado das Finanças para a Natureza mostram que cerca de US$ 7,3 trilhões foram gastos em atividades “negativas para a natureza”, em comparação com US$ 220 bilhões em investimentos favoráveis em 2023.
Em números — principais conclusões do relatório:
- US$ 1,18 trilhão – US$ 130,11 trilhões: crescimento da economia global entre 1820 e 2022 (em dólares de 2011).
- +100% vs -40%: aumento médio per capita do capital humano produzido desde 1992, em comparação com a redução dos estoques de capital natural.
- US$ 4,9 trilhões: financiamento privado em 2023 com impactos negativos diretos sobre a natureza.
- US$ 2,4 trilhões: gastos públicos em subsídios prejudiciais ao meio ambiente em 2023.
- <1%: empresas que divulgam publicamente seus resultados e mencionam os impactos na biodiversidade em seus relatórios.
- 60%: percentual de terras indígenas globalmente ameaçadas pelo desenvolvimento industrial.
- 25%: percentual de territórios indígenas sob forte pressão devido à exploração de recursos.
- Pelo menos 8: número de países (além da União Europeia) em que os bancos centrais analisaram a exposição de suas instituições financeiras à dependência da biodiversidade.
Metade do PIB
Subvalorizada, a natureza fornece à economia global cerca de US$ 150 trilhões em serviços ecossistêmicos por ano, calcula a Zero Carbon Analytics.
E ainda: 55% do PIB global — o equivalente a cerca de US$ 58 trilhões em 2023 — depende moderadamente ou altamente da natureza e de seus serviços, estima.
Enquanto ela não entra na conta dos negócios, empresas dos setores de construção civil, agronegócio, produtos farmacêuticos e infraestrutura estão altamente expostas aos riscos da degradação.
Isso porque a dependência da água, do controle de tempestades e inundações e das mudanças climáticas domina os riscos ambientais corporativos.
A Zero Carbon Analytics traz exemplos práticos de perdas corporativas relacionadas à destruição da natureza. O maior deles vem da Tesla, que teve US$ 5,7 bilhões em custos extras e 3,1% em queda de ações por causa do atraso da construção de sua gigafábrica na Alemanha, em meio a restrições regulatórias sobre o uso da água.
Cobrimos por aqui
Curtas
Minerais críticos. O Brasil descarta aderir à aliança dos Estados Unidos sobre minerais críticos proposta pelo presidente norte-americano, Donald Trump. A prioridade é firmar acordos bilaterais com outros países, estabelecendo que o Brasil processe e não só exporte a matéria-prima para outras nações.
Multa na Foz do Amazonas. O Ibama multou a Petrobras em R$ 2,5 milhões por um vazamento de fluido de perfuração ocorrido em 4 de janeiro, durante a exploração do poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas.
Dano ambiental. A Justiça de Minas Gerais determinou a paralisação, com efeito imediato, de todas as atividades da mineradora Vale no Complexo Minerário de Fábrica, na cidade mineira de Ouro Preto, após danos ambientais causados por um vazamento de água e rejeitos ocorrido 25 de janeiro. A decisão foi assinada na última sexta-feira (6).
Solar para data centers. TotalEnergies e Google anunciaram nesta segunda (9/2) a assinatura de dois contratos de longo prazo de compra de energia para fornecer 1 GW de capacidade solar para abastecer os data centers da empresa de tecnologia no Texas. O volume contratado equivale a 28 TWh de eletricidade renovável ao longo de 15 anos.
R$ 2 bi para financiar caminhões. Em evento em Guarulhos (SP), o vice-presidente e ministro, Geraldo Alckmin, disse no domingo (8) que o programa Move Brasil liberou aproximadamente R$ 2 bilhões em financiamentos para renovação da frota de caminhões no primeiro mês de vigência.

