diálogos da transição

COP30 e Colômbia tentam alinhar transição em meio a guerra e petróleo nas alturas

Colômbia organiza primeira conferência sobre afastamento dos combustíveis fósseis e enxerga complementariedade com roteiro da COP30

Ministra de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres, anuncia, na COP30, conferência para transição para longe dos combustíveis fósseis
Ministra de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez Torres, anuncia, na COP30, conferência para transição dos fósseis. Foto: Wilder García | © Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sostenible

NESTA EDIÇÃO. Colômbia quer articular “vontade política” em primeira conferência para afastamento dos combustíveis fósseis. E contribuir com mapa do caminho da COP30.

Enquanto guerra e subsídios criam barreiras à transição energética global.


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Em uma iniciativa paralela ao mapa do caminho da presidência brasileira da COP30, a Colômbia sediará, no final de abril, a primeira conferência global dedicada à transição para o afastamento dos combustíveis fósseis — e busca de resultados práticos.
 
“Precisamos de resultados que sejam úteis para os países. Não apenas declarações, mas diretrizes concretas”, disse nesta terça (24/3) a ministra colombiana de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Irene Vélez Torres.
 
Ela participou nesta manhã de um seminário promovido pelo Observatório do Clima e ClimaInfo, com a presença do embaixador André Correa do Lago, presidente da COP30.
 
Ambos afirmaram que as duas iniciativas são complementares, com diferenças no enfoque.
 
“A diferença talvez esteja na abordagem. Nosso processo tem uma ênfase mais política e se concentra na coordenação entre os países. O processo da COP30 tem um componente mais estruturado e técnico, mais voltado para a construção de uma estrutura global”, explica Torres.
 
“Um ajuda a gerar vontade política, o outro ajuda a organizar essa vontade em um caminho concreto”, pontua.
 
A transição para o afastamento dos combustíveis fósseis foi um compromisso assumido na COP28, em 2023, por 196 países.
 
De lá para cá, os signatários pouco avançaram neste sentido. Muitos, aliás, recuaram.
 
E a cúpula de Belém (PA), em novembro do ano passado, deu sinais de que a disposição política para abandonar óleo, gás e carvão não está tão firme quanto a intensidade e o custo dos eventos climáticos extremos.
 
Foi justamente neste contexto que Corrêa do Lago assumiu a missão de elaborar um mapa do caminho e a Colômbia encabeçar a conferência de Santa Marta. Embora, no princípio, houvesse um tom de concorrência (e insatisfação).



A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã trouxe mais uma vez à tona a exposição do preço do petróleo aos conflitos internacionais e os riscos para economias dependentes de importações
 
Mas o que poderia ser um incentivo para novos caminhos e investimentos na diversificação com fontes de energia renovável acaba se perdendo em meio a medidas emergenciais, voltadas à contenção da inflação.
 
Para a ministra de Ambiente da Colômbia, uma estratégia real de transição, especialmente no Sul Global, precisa considerar três questões fundamentais: dependência econômica, subsídios e dívida externa.
 
“Muitos países do Sul são produtores de hidrocarbonetos e, para eliminar esses combustíveis, precisamos garantir que teremos outra economia — produtiva e não extrativa”.
 
Ela também usou como exemplo o momento atual de alta dos preços do petróleo, em que governos decidem subsidiar diesel e gasolina para conter a inflação.
 
“Ao mesmo tempo, os subsídios distorcem completamente o mercado. O que vemos hoje é um sistema artificial que sustenta um modelo econômico altamente poluente”, criticou.

Em meio à alta do petróleo causada pela guerra dos EUA no Irã, o governo Lula (PT) adotou uma política emergencial de subvenção e renúncia fiscal para o diesel rodoviário.
 
A intenção é controlar o aumento de preços sobre o combustível mais consumido no país, já que isso influencia o custo do frete e, consequentemente, da maior parte do que é consumido no país.
 
Mas a medida incomodou setores de bioenergia e gás natural, por criar distorções que beneficiam o fóssil.


Por falar em preço dos combustíveis… Os governadores estaduais indicaram uma rejeição à proposta da União que previa o reembolso em até 50% de uma desoneração temporária do ICMS de importação de diesel. A Fazenda insiste e apresentou outra sugestão nesta terça (24/3): criar um programa de subvenção adicional para os importadores de diesel.
 
Alta do GLP. A Petrobras já entregou ao mercado os volumes de gasolina que seriam ofertados em leilão e foram suspensos após atingirem ágios elevados. Mas, segundo o presidente do Sindigás, Sérgio Bandeira de Mello, a estatal programou para o próximo dia 27 leilões de GLP, trazendo preocupação ao setor pelo risco de aumento de preço.
 
Enquanto isso, no mercado internacional, o GNL perdeu a sua reputação de “combustível acessível” com o bloqueio do Estreito de Ormuz e a destruição parcial da infraestrutura de liquefação do Catar, avalia o diretor executivo da S&P Global Energy, Laurent Ruseckas, durante participação na CERAWeek, em Houston.

  • Também na CERAWeek, o CEO da Kuwait Petroleum Corporation, Nawaf Saud Al Sabah, afirmou que vê escassez de ureia em diversas regiões nos próximos meses, cenário que tende a afetar a produção global de alimentos.

Departamento de eletromobilidade. O MME quer alterar sua estrutura para criar um Departamento de Eletromobilidade, vinculado à Secretaria Nacional de Transição Energética e Planejamento. A proposta foi apresentada ao Ministério da Gestão

Combustível do Futuro. Um grupo de associações dos setores de energia, agronegócio e proteína animal divulgou nesta terça (24/3) um posicionamento conjunto pedindo a diferenciação da origem do biometano na contabilidade de descarbonização do mandato. O documento faz críticas à proposta do MME que foi para consulta pública no final de 2025.

UTE Brasília. O Ibama decidiu manter o indeferimento da licença prévia para a instalação da Usina Termelétrica Brasília, da Termo Norte Energia, em Samambaia (DF). A decisão, tomada após o órgão analisar pedido de reconsideração apresentado pela empresa, reafirma a conclusão anterior de inviabilidade ambiental do empreendimento.

Descarbonização marítima. Vast infraestrutura e HIF Global anunciaram nesta terça (24/3) um acordo para a construção de tancagem dedicada ao e-metanol no Porto do Açu (RJ). A assinatura definitiva do contrato, no entanto, está condicionada à decisão final de investimento da planta de e-metanol que a HIF pretende desenvolver no porto.

IA para financiar transição. O “fator medo” presente na indústria de óleo e gás, de que a IA possa substituir a mão de obra no setor, é superestimado, disse nesta terça a diretora de Engenharia da Petrobras, Renata Baruzzi, durante participação na CERAweek 2026, em Houston.

  • Ela acrescentou que a inteligência artificial “não é um risco”, em si, e que pode ajudar a indústria de óleo e gás a financiar a transição energética.

E na agenda da indústria. O projeto de lei 2338/2023, que regulamenta a inteligência artificial no Brasil, é um dos 15 itens elencados como prioritários na agenda legislativa da indústria, elaborada pela CNI e apresentada nesta terça (24/3). Documento que reúne proposições monitoradas pelo setor industrial também destaca preocupação com a PEC das Agências.
 
Renovação da Enel Ceará. A Aneel decidiu, por maioria, recomendar a renovação contratual por 30 anos da Enel Distribuição Ceará. Com a decisão, a única pendência no atual ciclo de renovação contratual de distribuidoras de energia elétrica é a Enel São Paulo.
 
PPA solar. Qair e Ultragaz anunciam nesta terça (24/3) a assinatura de um contrato de compra de energia (PPA) para o projeto solar Bom Jardim, em Icó (CE). O projeto deverá fornecer aproximadamente 131,5 GWh de energia renovável por ano a partir de 2026, para apoiar a estratégia de transição energética da Ultragaz. A usina entrou em operação em janeiro.

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