diálogos da transição

Biogás repaginado embarca na agenda de soberania energética

Centro de pesquisa reinaugurado quer atrair universidades e empresas para testar novas tecnologias, como SAF de biogás

Planta de hidrocarbonetos renováveis (como hidrogênio verde para SAF) no Itaipu Parquetec, na hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu/PR (Foto William Brisida/Itaipu Binacional)
Planta de hidrocarbonetos renováveis no Itaipu Parquetec, da hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu/PR (Foto William Brisida/Itaipu Binacional)

NESTA EDIÇÃO. Unidade de Demonstração Biocombustíveis quer atrair universidades e empresas para testar novas tecnologias.


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Itaipu Binacional reinaugurou na segunda (13/4) seu centro dedicado a pesquisas para novos combustíveis a partir do biogás. O espaço, que passou a se chamar Unidade de Demonstração Biocombustíveis e quer atrair universidades e empresas para testar novas tecnologias.

A mudança de nome é simbólica. Antes focada no biogás e biometano, a instalação se propôs a expandir horizontes, alcançando mercados como a aviação — de olho na soberania.

“Com biogás e biocombustíveis, a gente pode chegar também na agenda de soberania”,  aponta Felipe Marques, diretor-presidente do Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás). 

“O que estamos vendo na geopolítica dos últimos meses torna urgente a produção de fertilizantes no país, a produção de energia no país. Então reduzir a importação de combustível e de fertilizantes se torna uma estratégia essencial para a produtividade do país”, explica. 

A iniciativa é resultado de uma parceria entre Itaipu Binacional, CIBiogás e Itaipu Parquetec, que desde 2017 transforma resíduos orgânicos do complexo hidrelétrico e de apreensões da Polícia Rodoviária Federal em biogás, que pode ser convertido em energia elétrica, biometano, petróleo sintético, hidrogênio e fertilizantes.

Um levantamento realizado em 2022, pela Cooperação Brasil-Alemanha e o CIBiogás, identificou que o Paraná tem potencial de produção de cerca de 15 mil metros cúbicos por ano de combustível sustentável de aviação (SAF, em inglês) a partir do biogás.

O volume corresponde a aproximadamente 4% do fornecimento total de querosene de aviação na região Sul do país.



Em momentos como o atual, em que a guerra no Oriente Médio pressiona os preços dos combustíveis, contar com outras alternativas além do petróleo pode ser uma carta na manga.

O SAF, no entanto, ainda custa de quatro a oito vezes mais que o querosene fóssil, justamente por falta de escala de produção e necessidade de diversificar matérias-primas e rotas.

A proposta da Unidade de Demonstração é ajudar a encontrar novas soluções energéticas.

Rogerio Meneghetti, superintendente de Energias Renováveis na Itaipu Binacional, conta que a unidade já transformou mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos em 480 mil km rodados em biometano — o equivalente a 12 voltas na Terra. E o plano é ir além.

“O importante não é só fazer tratamento, gerar biometano, é toda a inovação que começou pelo biogás e, mais recentemente, com a unidade de hidrocarbonetos que inauguramos há um ano e meio”, diz.

“Nessa reinauguração, queremos possibilitar uma integração maior dos nossos processos com o turismo, com a vinda de universitários e empresários, para ver o que estamos fazendo, mas também trazer tecnologias para serem testadas aqui”, completa Meneghetti.

Hoje, a unidade produz 100 m3 por dia de biometano a partir da purificação do gás de resíduos, para abastecimento de veículos da frota interna.

O combustível equivalente ao gás natural também é utilizado em uma planta de produção de hidrocarbonetos sintéticos.

A partir da rota Fischer-Tropsch, o gás é convertido em líquido, dando origem ao bio-syncrude, o petróleo sintético.

A unidade é capaz de gerar diariamente 6 kg de óleo que serve de matéria-prima para a produção de SAF e diesel sintético.

* A jornalista viajou a convite e com despesas pagas por Itaipu Binacional


Consumo fóssil. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) reafirmou sua previsão para o crescimento da demanda global pela commodity este ano, em 1,4 milhão de barris/dia. Se confirmada a projeção, o consumo global chegará a 106,53 milhões de barris/dia em 2026, segundo relatório mensal divulgado na segunda (13/6). 

  • Na cotação do petróleo ontem (13), o cenário de hostilidades levou o Brent para junho a avançar 4,36% (US$ 4,16), chegando a US$ 99,36 o barril.

Em direção oposta, a Agência Internacional de Energia (IEA) prevê contração global de petróleo em 2026, com maior recuo desde a pandemia no segundo trimestre, após guerra afetar fluxos no Oriente Médio. Demanda deve cair 1,5 milhão de bpd entre abril e junho. “Raramente as perspectivas foram tão incertas”, afirmou a agência.

Reserva estratégica. Irã tem capacidade de suportar bloqueio dos EUA em Ormuz “por semanas ou meses”, diz Wall Street Journal. O país exportou 1,84 milhão de barris por dia no último mês, antecipando-se à medida estadunidense. China é o principal destino, com compras via refinarias independentes.

Autossuficiência. O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou na segunda (13/4) que o Brasil pode produzir todo o diesel que consome nos próximos cinco anos, caso os investimentos em refino atualmente em curso sejam mantidos. O tema deve ganhar espaço na campanha eleitoral de 2026. 

E menor dependência nos fertilizantes. O conselho de administração da Petrobras aprovou o investimento de cerca de US$ 1 bilhão para a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN III), localizada em Três Lagoas (MS). A previsão é de entrada em operação comercial em 2029.

Tarifa menor em Itaipu. A Binacional busca reduzir preço e unificar tarifa para Brasil e Paraguai a partir de 2027, afirma diretor-geral Enio Verri. Hoje, brasileiros pagam US$ 16,71/kW por mês e paraguaios, US$ 19,28/kW. Verri diz que negociações partem do patamar brasileiro e que novo valor deve sair até dezembro.

Vai e vem. Governo confia que Justiça vai derrubar liminar contra taxa de exportação de petróleo, diz ministro Bruno Moretti. Decisão que suspendeu o tributo baseou-se em trechos inexistentes da MP 1340/2025. Moretti classificou a fundamentação como “perplexa” e disse que equipe jurídica está mobilizada para reverter a medida.

E margens na mira. Na mesma coletiva, o Planalto anunciou que vai obrigar distribuidoras a publicarem dados semanais de margens brutas do diesel. O envio é condição para comercializar combustível com subvenção e vale desde 22 de fevereiro. Descumprimento pode gerar multa de até R$ 1 milhão.

Preço dos combustíveis. As oscilações e os repasses nos preços da gasolina e do diesel foram discutidos em audiência pública pela Comissão de Finanças e Tributação nesta terça (14/4), a pedido do deputado federal Merlong Solano (PT/PI). Integra da audiência.

  • O governo já zerou PIS/Cofins sobre o diesel e negocia desoneração com estados.

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