À espera de regras

Publicação de decretos para hidrogênio é prioridade na agenda do setor para 2026

Com marcos legais aprovados desde 2024, indústria vê como prioridade conclusão da regulamentação em 2026 para que país não perca investimentos

Lançamento da Agenda Estratégica para 2026 da Abihv na Câmara dos Deputados, em 17 de março de 2026 (Foto Divulgação)
Lançamento da Agenda Estratégica para 2026 da Abihv na Câmara dos Deputados, em 17 de março de 2026 (Foto Divulgação)

Com marcos legais aprovados desde 2024, a indústria brasileira de hidrogênio cobra regulamentação para poder definir investimentos e aproveitar janela de oportunidade no mercado internacional.

Na terça (17/3), a Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (Abihv) lançou, na Câmara dos Deputados, a Agenda Estratégica 2026 do setor (em .pdf), em busca de articulação política para avançar com pautas prioritárias ainda no primeiro semestre.

A principal demanda, conta a diretora-executiva da Abihv, Fernanda Delgado, é a publicação dos decretos presidenciais que regulamentam as leis 14.948 e 14.990, ambas de 2024.

Há meses o governo promete a publicação para “as próximas semanas” e o mercado demonstra preocupação com a demora, já que o acesso aos incentivos fiscais tem prazo de validade.

“O grande desafio de 2026 é concluir a regulamentação infralegal do marco do hidrogênio de baixa emissão de carbono. Essa etapa é essencial para viabilizar as decisões finais de investimento e dar segurança aos projetos”, afirma Delgado.

As leis que compõem o marco legal do hidrogênio preveem R$ 18,3 bilhões em créditos fiscais (PHBC), além de incentivos voltados à desoneração do Capex (Rehidro), deixando para a regulamentação a tarefa de definição das regras para acesso a esses recursos.
 
Essa definição é aguardada pelas empresas para decisões finais de investimentos na produção industrial do gás de transição energética no Brasil. Algumas, inclusive, já adiaram seus cronogramas.

“Existe uma janela de oportunidade aberta. O Brasil tem condições de liderar, mas isso exige decisões coordenadas, rapidez na regulamentação e alinhamento entre política industrial, energética e de comércio exterior”, explica a diretora-executiva.

Segundo o presidente do Conselho da Abihv, Luis Viga, o Brasil já tem projetos estruturantes e investidores prontos. Falta a definição das regras do jogo para que eles se concretizem.

“O que precisamos agora é avançar com segurança regulatória e instrumentos que reduzam o custo de capital, permitindo que esses projetos saiam do papel”, defende o executivo, que também é presidente da Fortescue no Brasil.

A empresa australiana planeja investir R$ 18 bilhões em uma planta com capacidade de 1,2 GW de eletrólise no Porto do Pecém, no Ceará. A engenharia do projeto já foi concluída e a expectativa é chegar a decisão final de investimento (FID) ainda este ano.

Primeiro leilão em 2026?

Na semana passada, durante um evento do setor em Brasília, o diretor de Programa da Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Carlos Colombo, disse que a pasta está trabalhando para realizar o primeiro leilão de acesso a incentivos para produção e consumo de hidrogênio de baixo carbono em 2026.

“Sabemos dos desafios, da sensibilidade em ano eleitoral, mas estamos trabalhando para ter um modelo e realizar esse leilão este ano”, reforçou.
 
O representante da Fazenda evitou cravar, no entanto, uma data para a publicação dos decretos

Royalties do petróleo para financiar a transição

A agenda do setor tem cinco eixos: marco legal, indução de demanda, setor elétrico, financiamento e comércio exterior.

“Precisamos direcionar os instrumentos públicos para projetos com capacidade de adensar cadeias produtivas, gerar escala e ampliar a competitividade do Brasil no cenário internacional”, diz Delgado.

Dentre as propostas de política pública está a destinação extraordinária de royalties do petróleo para fomentar a produção nacional de hidrogênio, incrementando o PHBC.

Ao mesmo tempo, a associação defende mecanismos para garantir que o hidrogênio de origem renovável seja priorizado na disputa pelos recursos do programa de incentivos.

Já na indução de demanda, a agenda menciona a lei do Combustível do Futuro, de outubro de 2024, e as discussões na Organização Marítima Internacional (IMO, em inglês) como potenciais criadoras de grandes mercados consumidores.

Isso porque o hidrogênio verde é um insumo para produção de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, em inglês) e diesel verde, que passarão a ter um mandato no Brasil em 2027.

A molécula também pode ser convertida em metanol e amônia verdes e abastecer grandes navios, para cumprir o futuro esquema de descarbonização da IMO.

Outro potencial mercado é o de fertilizantes, já que o Brasil importa cerca de 85% de seus fertilizantes e 90% das tecnologias relacionadas ao setor.

O documento aponta que o hidrogênio verde é um insumo essencial para a produção de fertilizantes sustentáveis, fundamental para a implementação de projetos de amônia verde.

No legislativo, a associação está acompanhando a tramitação dos PLs 699/2023 (Profert) e 4338/2023, que estabelece o Programa Emergencial de Amônia e Ureia.

Segundo a Abihv, em um cenário em que o Brasil alcance cerca de 4% da produção global de hidrogênio verde, o impacto pode chegar a R$ 7 trilhões no PIB até 2050.

“Estamos falando de uma indústria capaz de reposicionar o Brasil na economia global, com geração de emprego, renda e inovação tecnológica”, comenta Delgado.

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