A entrada em operação da primeira planta de hidrogênio verde do Sudeste, em Jacareí (SP), marca um ponto de inflexão para esse energético renovável no Brasil. O projeto se viabilizou economicamente sem depender de subsídios públicos — e com custo competitivo em relação ao hidrogênio produzido a partir de fontes fósseis.
Operada pela White Martins, do grupo Linde, a unidade tem capacidade para produzir 800 toneladas por ano de hidrogênio verde (cerca de 8,5 milhões de metros cúbicos), com fornecimento para clientes de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Do total, 20% será destinado à fabricante de vidros Cebrace e 80% a indústrias dos setores metalúrgico, químico e de alimentos.
É a segunda planta do tipo da companhia no país, mas com capacidade cinco vezes maior que a unidade piloto inaugurada em 2022, em Pernambuco.
“Não temos expectativa de nenhum benefício financeiro (…) Temos capital, o projeto, a construção e a operação. Não dependemos disso”, afirmou o presidente da White Martins e da Linde na América Latina, Gilney Bastos, durante coletiva de imprensa.
O projeto foi colocado de pé antes mesmo da regulamentação do marco legal do hidrogênio no Brasil — cujo decreto ainda é aguardado, um ano e meio após a sanção da lei, que prevê subsídios de R$ 18,3 bilhões para a produção e consumo de hidrogênio de baixo carbono.
Para a empresa, a ausência de uma regulamentação clara não impediu o avanço do investimento, embora as regras sejam vistas como importantes para padronizar a certificação do produto.
“Ele [o decreto] é mais importante no sentido de padronizar, oficializar o que é um produto verde, como definir quem vai ser a certificadora”, diz Bastos.
Competitividade ancorada no custo
Parte da competitividade da planta de Jacareí está ligada a fatores estruturais do Brasil — especialmente o alto custo do gás natural, principal insumo do hidrogênio cinza.
“O gás natural no Brasil é caro. Essa condição nos dá a condição de ser bem competitivo aqui com esse produto”, avalia o executivo.
A equação inclui também a autoprodução de energia renovável — responsável por até 80% do custo do hidrogênio verde.
A White Martins conta com cerca de cerca de 100 MW de energia eólica proveniente de um parque da Serena no Chuí (RS), e 130 MW de energia solar do complexo Eneva Futura I, em Juazeiro (BA).
Além disso, a empresa destaca a experiência na produção e distribuição de gases industriais como fator de redução de custos, que também possibilita disponibilizar um “blend” no mercado, com a mistura do hidrogênio verde com o convencional em contratos não dedicados.
A combinação de todos esses fatores permite com que a empresa não precise cobrar um “preço premium” pelo hidrogênio verde.
“Nosso interesse principal não é precificar o hidrogênio verde mais caro que o hidrogênio tradicional. Não tem sentido para nós, porque o custo não é maior”, pontua Bastos.
Segundo a empresa, a planta opera em plena capacidade desde fevereiro e já atende parte dos 400 clientes da White Martins de hidrogênio no país, incluindo os que querem o produto 100% verde e os que não possuem esta demanda.
“O mais importante é expandir o hidrogênio verde, dar a possibilidade à indústria de consumir um produto melhor ambientalmente falando”, destaca o presidente da companhia.
Substituição do gás natural
Apesar de a competitividade com o hidrogênio fóssil já estar estabelecida, a White Martins também enxerga espaço para que o hidrogênio verde avance sobre usos hoje atendidos diretamente pelo gás natural na indústria — um movimento que, segundo a empresa, depende menos de preço e mais de adaptação tecnológica.
“Esperamos sim que isso ocorra. Para nosso benefício, produzimos tanto hidrogênio verde quanto gás natural liquefeito (GNL). Temos as duas pontas e o nosso objetivo principal é sempre poder oferecer todas as alternativas para o cliente”, afirma Bastos.
A substituição, no entanto, não é trivial. Segundo o vice-presidente de negócios, Mario Simon, muitos clientes ainda não dominam o uso do hidrogênio como combustível industrial, o que exige o desenvolvimento conjunto de aplicações.
Para isso, a companhia mantém centros de tecnologia no Brasil e no exterior, além de infraestrutura local para testes.
A empresa também utiliza estruturas como o laboratório de combustão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo, onde clientes podem simular, em condições reais, a troca do gás natural pelo hidrogênio.
Foco na descarbonização industrial do país
Diferentemente de projetos voltados à exportação, a planta de Jacareí, nasce com foco na descarbonização da indústria nacional.
A expectativa é que apenas a Cebrace deixe de emitir cerca de 1.600 toneladas de CO₂ por ano com o uso do insumo. Considerando toda a produção da planta, a redução pode superar 8 mil toneladas anuais em comparação ao hidrogênio cinza.
O fornecimento será feito principalmente por carretas, com parte do volume destinada à Cebrace por meio de um gasoduto dedicado de 3 km — ainda em fase de homologação.
A logística flexível permite atender diferentes regiões e perfis de demanda.
Regulação e incentivos
Embora o projeto não dependa de subsídios, a White Martins vê espaço para políticas públicas, especialmente do lado da demanda.
A regulamentação pode permitir que empresas com redução de emissões tenham acesso a incentivos ou créditos de carbono, fortalecendo o mercado.
“Eles estão reduzindo a emissão de CO₂ na atmosfera, deveriam ter o direito de algum benefício em cima disso”, defende Bastos, referindo-se aos clientes industriais que compram o hidrogênio verde.
A empresa também acompanha mecanismos internacionais, como o programa H2Global, que subsidia a compra de hidrogênio verde de derivados, e pode viabilizar projetos de maior escala voltados à exportação.
Megaprojetos para exportação
A White Martins também tem memorandos de entendimento para grandes projetos de hidrogênio e derivados em estados como Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Esses empreendimentos, segundo Bastos, podem ser de 10 a 20 vezes maiores que a planta de Jacareí, mas dependem de demanda internacional firme.
“Temos contratos de desenvolvimento de projetos em conjunto assinados no Pecém (CE), no Porto do Açu (RJ), no Rio Grande do Sul”, diz.
Esses projetos, no entanto, estão diretamente ligados ao cenário geopolítico. As guerras na Europa e Oriente Médio esfriaram temporariamente o apetite por hidrogênio verde, ao deslocar o foco para a segurança energética, na avaliação do executivo.
Ainda assim, a expectativa é de retomada.
“Uma vez que termine a guerra, não acredito que nenhum político consiga se eleger pautando o desenvolvimento do próprio país em queimar carvão, em queimar gás natural ou diesel”, afirma Bastos.
Para a empresa, o movimento é inevitável, e o Brasil, com abundância de recursos renováveis, deve ocupar papel relevante. Enquanto isso, a estratégia é consolidar o mercado interno, com projetos que já demonstram viabilidade econômica e operacional.
“O desenvolvimento do hidrogênio, industrialmente falando, vai ser muito mais rápido do que a gente imagina”, conclui.
* O jornalista viajou a convite e com despesas pagas por White Martins
