Opinião

O gargalo da transmissão põe em xeque a transição energética

O descompasso entre geração e capacidade da rede transmissora revela que produzir energia renovável não basta se a infraestrutura elétrica não acompanhar a demanda crescente de uma economia em eletrificação, escreve Glauco Freitas

Glauco Freitas, head da Região Sul da América Latina e presidente Brasil na Hitachi Energy (Foto Divulgação)
Glauco Freitas, head da Região Sul da América Latina e presidente Brasil na Hitachi Energy (Foto Divulgação)

No cenário energético global, o Brasil é referência em energia renovável, com 85% da eletricidade de fontes renováveis. Essa oferta cresceu cerca de 40% entre 2020 e 2025, de 175,6 gigawatts (GW) para mais de 246 GW de capacidade instalada de geração.

Mesmo sendo referência, o país está diante de um problema estrutural. Até 2020 a geração crescia cerca de 3 gigawatts ao ano (GW/ano) e a evolução da transmissão acompanhava esse ritmo.

A expansão acelerada das renováveis, com destaque para energia eólica e solar, rompeu o equilíbrio e resultou em um choque entre geração e capacidade de transmitir a energia.

Entre 2020 e 2025, a expansão da malha de transmissão foi tímida: calcula-se algo em torno de 5% da malha existente. Esse crescimento não ocorreu na mesma proporção ou com a tecnologia necessária para escoar o volume adicional de energia gerada.

Este descompasso é uma questão de Estado que requer debate público e propostas voltadas a superá-lo, de modo a alinhar a capacidade de transmissão à de geração.

É algo necessário e urgente para que o país não perca a oportunidade aberta pela energia limpa de atrair investimentos internacionais, criar cadeias produtivas e gerar os benefícios socioeconômicos daí decorrentes.

A expansão das fontes renováveis ocorreu especialmente no Norte e Nordeste, e não há transmissão no ritmo adequado à demanda dos maiores centros consumidores, situados no Sudeste e no Sul. Estudos da consultoria Rystad Energy indicam que a concentração da produção renovável no Nordeste provoca congestionamentos na rede elétrica.

Produzir energia renovável em grande escala é essencial, mas não suficiente. Afinal, a eletrificação da economia avança em ritmo acelerado e exige redes capazes de transportar a energia com segurança, eficiência e confiabilidade.

Esse gargalo compromete a transição energética, o que foi reconhecido em evento pré-COP30 pelo secretário de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia, Gentil Nogueira de Sá Júnior.

Um dos sintomas mais visíveis desse desequilíbrio entre geração e transmissão é o chamado curtailment, quando usinas renováveis precisam reduzir ou interromper a produção não apenas por limitações na capacidade de escoamento, mas também em situações em que a demanda não é suficiente para absorver a energia gerada.

Levantamentos do setor com base em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que, apenas no Rio Grande do Norte, os cortes na produção renovável provocaram perdas de cerca de R$ 1,69 bilhão em 2025.

Com forte atuação no Brasil e em diversos países, a Global Renewables Alliance (GRA), reúne associações globais de energia solar, eólica, hidrelétrica, hidrogênio verde e armazenamento e defende que a expansão das fontes limpas deve caminhar junto com aportes robustos em transmissão, digitalização das redes e sistemas de armazenamento.

Como membro do Comitê de Mobilização de Energias Renováveis coordenado pela GRA, acompanho de perto essa agenda, que é absolutamente estratégica para o país.

Projeto que a combinação de abundância de energia limpa e infraestrutura adequada pode atrair ao Brasil novas indústrias, estimular a eletrificação e a descarbonização da economia e fortalecer cadeias produtivas de maior valor agregado.

São, justamente, os segmentos eletrointensivos, como data centers, mobilidade elétrica e produção de hidrogênio de baixo carbono, que buscam se instalar onde há suprimento crescente de fontes limpas.

Mas o Brasil precisa enfrentar esse entrave entre geração e capacidade da rede ou perderá o interesse dos investidores internacionais, que poderão optar, em certos casos, por países vizinhos.

Uma demora pode comprometer o acesso a tecnologias e equipamentos disputados por projetos em outras nações, retrair aportes na geração de energia limpa e, o mais grave, enviar um sinal de insegurança ao mercado.

Superar esse desafio exige planejamento, diálogo e ação coordenada entre governo, setor produtivo e sociedade.

A transição energética deixou de ser uma perspectiva distante. Está em curso e dependerá, cada vez mais, da capacidade de construir redes elétricas à altura dessa transformação.


Glauco Freitas é head da Região Sul da América Latina e presidente Brasil na Hitachi Energy, membro do Comitê de Mobilização de Energias Renováveis coordenado pela Global Renewables Alliance. Atua há mais de 30 anos no setor de infraestrutura e transmissão de energia

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