Opinião

O prejuízo bilionário da indústria automotiva e a economia circular como fronteira estratégica

Em tempos de relativa escassez de capital natural e abundância de capital humano, modelos de negócios circulares serão os novos unicórnios do mundo, escreve Marcelo Souza

Marcelo Souza é presidente do Inec e CEO da Indústria Fox (Foto Divulgação)
Marcelo Souza é presidente do Inec e CEO da Indústria Fox (Foto Divulgação)

Prejuízos recentes de grandes grupos automotivos globais têm chamado a atenção do mercado. Trata-se de um movimento relevante, especialmente por reverter lucros expressivos registrados nos anos anteriores.

O impacto decorre principalmente de um movimento estrutural que começa a ganhar força na indústria: a necessidade de adaptação a um novo paradigma econômico.

Grande parte das perdas está associada a revisões contábeis ligadas a investimentos em eletrificação e à reavaliação do ritmo da transição energética.

Esse cenário expõe a dificuldade de calibrar investimentos bilionários quando a demanda e o ambiente regulatório mudam mais rápido do que o previsto.

É nesse contexto que ganha relevância um movimento paralelo conduzido pela própria indústria: o avanço de sua estratégia de economia circular, especialmente no Brasil.

Uma alternativa de avanço na economia circular

Nos últimos anos, empresas do setor têm estruturado globalmente divisões voltadas à remanufatura, reparo, reutilização e reciclagem de componentes automotivos.

O objetivo é ampliar o ciclo de vida dos produtos, reduzir a dependência de matérias-primas virgens e gerar novas receitas a partir do pós-uso.

Diferentemente da percepção comum, na prática, trata-se de buscar margem em etapas menos intensivas em capital do que a produção de veículos novos.

A remanufatura de componentes pode consumir até 80% menos matéria-prima em comparação com a produção original, além de reduzir emissões e permitir preços mais competitivos ao consumidor final.

Isso significa menor exposição a insumos importados e maior previsibilidade no pós-venda. Ao mesmo tempo, cria um modelo industrial menos dependente de ciclos de demanda por produtos novos e mais orientado à captura de valor ao longo do tempo.

O Brasil surge como território estratégico nesse processo. A combinação de uma grande frota em circulação, mercado de reposição robusto e tradição em manutenção automotiva cria condições favoráveis para modelos circulares.

Iniciativas recentes no país, como centros de desmontagem veicular voltados à recuperação de peças e reinserção de componentes na cadeia produtiva, indicam que esse movimento já está em curso.

O futuro da indústria depende da circularidade

Historicamente, o crescimento da indústria esteve associado ao aumento do consumo de recursos naturais. Porém, no século XXI, esse modelo começa a enfrentar limites econômicos e regulatórios mais claros.

Em tempos de relativa escassez de capital natural e abundância de capital humano, modelos de negócios circulares serão os novos unicórnios do mundo.

Ou seja, quando matérias-primas encarecem e a logística internacional perde previsibilidade, eficiência no uso de recursos impacta diretamente a margem.

A economia circular se insere exatamente nessa fronteira. Ela transforma resíduos em ativos, prolonga ciclos de uso, reduz dependência de matérias-primas críticas e cria receitas recorrentes a partir de produtos já existentes no sistema econômico.

Trata-se de uma mudança comparável, em impacto, à digitalização observada nas últimas décadas.

Os prejuízos registrados na indústria automotiva podem ser entendidos dentro desse contexto. A transição energética continua em curso, mas o ritmo e o retorno financeiro não são lineares.

Empresas que compreenderem antecipadamente essa transição terão vantagem competitiva relevante, enquanto aquelas que permanecerem presas a modelos lineares poderão enfrentar maior volatilidade econômica.

Para o Brasil, o movimento representa uma oportunidade estratégica. Países com base industrial relevante, mercado interno expressivo e cadeias de reciclagem estruturadas possuem condições de assumir protagonismo global na economia circular.

A presença de projetos industriais desse tipo no território nacional indica que essa transformação já está em curso. A questão não é se a economia circular será uma tendência econômica relevante, mas quais empresas conseguirão percebê-la a tempo.


Marcelo Souza é presidente do Instituto Nacional de Economia Circular (Inec), CEO da Indústria Fox e autor dos livros Reciclagem de A a Z — Circularidade de recursos para um futuro sustentável e Economia Circular: o mundo rumo à quinta revolução industrial.

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