Foco na eficiência

Indústria é contra teto para produção de petróleo em mapa do caminho dos fósseis

Em entrevista à eixos, presidente da SB COP defende foco em eficiência, especialmente em cenários de guerra e incertezas

Ricardo Mussa, chair da SB COP, participa do evento da CNI “Pós-COP30: O Papel da Indústria na Agenda de Clima”, em Brasília (DF), em 4 de março de 2026 (Foto Michelle Fioravanti/CNI)
Ricardo Mussa, chair da SB COP, participa do evento da CNI “Pós-COP30: O Papel da Indústria na Agenda de Clima” (Foto Michelle Fioravanti/CNI)

A indústria brasileira defende que o mapa do caminho para a transição dos combustíveis fósseis, em elaboração pela presidência da COP30, deve ser agnóstico em relação à tecnologia e focar na eficiência.

Em entrevista à agência eixos, o presidente da Sustainable Business COP30 (SB COP), Ricardo Mussa, critica a ideia de um teto para produção de óleo e gás e avalia que o cenário de guerra pode mudar um pouco as prioridades, mas a adoção de renováveis deve seguir em expansão.

A SB COP é uma iniciativa liderada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) para o setor privado que busca influenciar as discussões das cúpulas do clima. A atuação do grupo começou em 2025, quando o Brasil sediou a COP30

“Não entendemos que é correto ter um caminho que vai limitar uma coisa ou outra. Não acho que vamos chegar num ponto de colocar um teto na produção [de petróleo]. O que a gente vai defender é: olhar o que tem mais impacto, o menor investimento e que consiga fazer a ponte para chegar lá”, explica Mussa. 

A ideia de um limite para produção de combustíveis fósseis é defendida por ambientalistas, que pedem cronograma para o fim de leilões de petróleo e abertura de novas reservas, por exemplo.

O executivo é cético quanto à capacidade de promover mudanças na matriz a partir de limitações na oferta de combustíveis fósseis, especialmente em cenários de escassez de energia e guerras comerciais e armadas.

E analisa que a demanda está conectada a eficiência, isto é, à capacidade de tornar uma solução menos poluente tão produtiva quanto aquela que polui mais. 

“Vamos fazer isso com tecnologia, com investimento e com pragmatismo”

diz Mussa.

A presidência da COP30 está colhendo contribuições para os mapas do caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento. 

As consultas vão até 31 de março e ocorrem em um momento turbulento para os mercados de energia, agravado pela escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Mussa conta que planeja entregar um documento à presidência da COP30, em outubro, com propostas embasadas em casos concretos. 

A SB COP está reunindo exemplos de iniciativas já desenvolvidas ao redor do mundo e que garantem resultados relevantes de descarbonização industrial e transição justa

“O mais importante para nós é redução de emissões. Como a gente vai chegar lá? A gente tem que deixar o que é mais produtivo, o que gera mais receita, o que tem mais eficiência”, defende.

É onde entram as políticas públicas e os governos precisam atuar para ajudar a resolver essa lacuna, seja com impostos ou incentivos, para acelerar tecnologias que ainda não são comercialmente viáveis, explica.

Guerra muda prioridades

O cenário de guerra tende a mudar prioridades, com governos direcionando mais recursos para áreas de defesa, o que significa um orçamento menor para outras áreas.

“Talvez reduza o apetite dos países e dos governos em ir atrás dessa temática [transição energética]. Vai ficando mais difícil e fica mais importante ainda que a gente seja muito eficiente nas nossas escolhas”, comenta o presidente da SB COP.

“Quando tem menos dinheiro sobrando, é preciso ser mais cuidadoso e escolher melhor as apostas que cada país vai fazer. Não adianta ficar sonhando com coisas que são para daqui a 20 anos”, diz.

Por outro lado, o executivo enxerga que a alta do petróleo pode favorecer a competitividade de tecnologias renováveis.

O conflito no Oriente Médio levou o barril de petróleo tipo Brent a ultrapassar novamente a barreira dos US$ 85 na quinta-feira (5/3).

Nas negociações para maio, o Brent encerrou o dia em alta de 4,93% (US$ 4,01), a US$ 85,41 o barril. 

O aumento reflete não apenas a escalada militar, mas também a alta nos custos do frete marítimo e os desafios que o mercado enxerga para o suprimento global à frente.

Para Mussa, no Brasil, biocombustíveis, energia solar e eólica são exemplos de que a adoção de combustíveis renováveis pode ocorrer de forma competitiva. A grande questão é a velocidade, que acaba influenciada por fatores geopolíticos.

“A eficiência está vindo. Eu não tenho dúvida que a gente vai conseguir chegar em algum momento no net zero. Mas será na velocidade ideal que a gente precisa chegar lá?” 

questiona.

Mapa brasileiro

Em dezembro de 2025, o presidente Lula (PT) encomendou aos ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente e Casa Civil diretrizes para o mapa do caminho para a transição brasileira, aproveitando o embalo das discussões que começaram em Belém (PA).

O prazo para as diretrizes era fevereiro deste ano, mas elas ainda não foram divulgadas. Segundo o MMA, a proposta virá a público após aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), mas não há uma data definida.

A SB COP também está trabalhando em contribuições e planeja fechar um documento em junho. 

O grupo também entregou contribuições à consulta aberta pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), na Comissão Especial de Transição Energética.

Segundo Mussa, a intenção foi mostrar os exemplos de outros países que podem ser replicados no Brasil, indicando, por exemplo, condições comerciais que viabilizaram o desenvolvimento de determinadas indústrias.

A consulta aberta por Jardim no final de fevereiro teve como documento central a proposta da Coalizão pelos Biocombustíveis, liderada pelo deputado, para o mapa do caminho que o governo brasileiro tem a missão de desenhar.

O foco, nesta proposta, é a bioenergia. O movimento organizado por frentes parlamentares do agro e produtores de biocombustíveis propõe atacar a demanda de diesel e outros derivados de petróleo com ampliação do consumo de biodiesel, biometano, etanol e combustível sustentável de aviação (SAF).

Para o presidente da SB COP, que também já foi CEO da Raízen, a bioenergia deve ser encarada como uma forma de otimizar o sistema energético, viabilizando tanto a eletrificação quanto a exportação da renovabilidade brasileira.

“Em 27 kg de etanol há o equivalente de energia em 600 kg de bateria. O combustível líquido renovável é uma forma do país exportar uma energia para outro país. É difícil o Brasil exportar a energia solar e eólica equiparada. O biocombustível é uma forma da gente levar essa energia para outros lugares”, completa.

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