Dependentes de carvão

Carvão é desafio na transição energética do Brics

Apesar dos esforços para diversificar matriz energética, dependência de combustível fóssil ainda é uma realidade entre nações fundadoras do bloco

Usina termelétrica movida a carvão lançando grandes volumes de gases de efeito estufa na atmosfera (Foto Catazul/Pixabay)
Desde que o Acordo de Paris foi assinado, 21 países se comprometeram a eliminar a geração a carvão, muitos deles até 2030 (Foto Catazul/Pixabay)

RIO — O papel do carvão na matriz energética dos países do Brics é um dos principais desafios para a transição para fontes renováveis de energia. Apesar dos esforços para diversificação e descarbonização, a dependência desse combustível fóssil ainda é uma realidade entre nações fundadoras do bloco, como China, Índia e África do Sul. 

É o que mostra um levantamento do Brics Policy Center, com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), sobre as barreiras que o fórum de emergentes enfrenta para uma transição energética efetiva. 

China, maior emissora de CO2

A China, maior emissora global de CO₂, tem no carvão sua principal fonte de energia, representando 61% de sua matriz. 

Apesar disso, o país lidera a transição global para energias renováveis, com forte expansão da energia solar e eólica. 

“Essa transformação gera desafios socioeconômicos, particularmente nas regiões dependentes do carvão e das indústrias relacionadas a ele”, aponta o estudo.

O compromisso chinês é atingir o pico de emissões antes de 2030 e a neutralidade de carbono até 2060, mas a transição precisará lidar com os impactos sociais e econômicos da redução do uso do carvão.

Índia e os apagões 

A Índia é o segundo maior produtor de carvão do mundo e sua geração de eletricidade depende 70% dessa fonte. 

O setor energético é o principal responsável pelas emissões indianas, que cresceram 11,5% desde 2016. 

“Estima-se que, em 2030, 50% da eletricidade da Índia ainda venha do carvão”, afirma o estudo. 

Apesar do avanço nas renováveis, a transição é dificultada por problemas estruturais como apagões frequentes, dependência de importação de combustíveis e a falta de financiamento adequado para projetos de energia limpa.

África do Sul: monopólio do carvão e crise energética

A África do Sul lidera as emissões de CO₂ na África e tem no carvão 73,8% de sua matriz energética.

O país enfrenta crises de abastecimento elétrico devido à precariedade da estatal Eskom, que controla 95% da produção de energia.

“O sistema sul-africano de energia não foi capaz de prover 13,4% da demanda de energia, o que leva a apagões frequentes e em áreas cada vez mais extensas”, ressalta o estudo. 

Além disso, o país possui 800 minas de carvão abandonadas, criando impactos ambientais e sociais negativos.

Rússia com matriz dominada por hidrocarbonetos

Apesar de uma  matriz energética fortemente baseada em combustíveis fósseis, na Rússia, representa 15,3% da energia do país, atrás do petróleo (19,3%) e do gás natural (55%). 

O país é um dos maiores produtores e exportadores de gás natural, e inclui o energético como estratégia para sua transição energética. 

“Para o país, o gás natural é uma fonte alternativa de energia, considerada ambientalmente mais sustentável”, destaca a pesquisa. 

No entanto, a participação de fontes renováveis na matriz ainda é reduzida.

Brasil em vantagem 

Diferente dos demais países do Brics, o Brasil se destaca por possuir uma matriz energética significativamente mais limpa, com 49,1% de sua energia advinda de fontes renováveis, enquanto a média global é de apenas 14,7%. 

O país ocupa a terceira posição mundial em capacidade instalada de energias renováveis, impulsionado principalmente por hidrelétricas, biomassa e energia eólica. Além disso, é um dos líderes na produção e uso de biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, reduzindo sua dependência de combustíveis fósseis.

Apesar dessa vantagem, o país enfrenta contradições em sua política energética. Embora tenha implementado iniciativas ambiciosas, como a Política Nacional de Transição Energética (PNTE), o Novo PAC e programas voltados para biocombustíveis e hidrogênio de baixa emissão de carbono, o Brasil ainda mantém incentivos significativos aos combustíveis fósseis. 

O estudo lembra, que em 2021, por exemplo, a crise hídrica levou ao aumento da operação de usinas termelétricas, o que resultou em maior emissão de carbono relacionada à matriz. 

Outro fator que diferencia o Brasil dos demais países do Brics é a origem de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE). 

Enquanto China, Índia, Rússia e África do Sul têm a queima de combustíveis fósseis como principal fonte de emissões, no Brasil, a maior parte dos GEE vem do desmatamento e das mudanças no uso da terra. Em 2022, o país lançou 1,12 bilhão de toneladas brutas de CO₂ equivalente pela destruição de biomas, representando 48% das emissões totais.

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