A Venezuela precisa de, no mínimo, US$ 120 bilhões em investimentos ao longo de dez anos para começar a recuperar a produção de petróleo, disse, nesta segunda-feira (5/1), o diretor da MA2 Energy, Marcelo de Assis, em entrevista ao estúdio eixos.
Confira a entrevista na íntegra.
“Para recuperar os níveis de produção de 3 a 4 milhões de barris por dia, seria em torno de 10 bilhões durante uns dez, 12 anos. Então a gente está falando de US$ 120 bilhões de investimento e durante uma escala de tempo de 10 anos”, afirmou.
Questionado sobre a legitimidade da operação que resultou na captura de Nicolas Maduro, Assis cita precedentes de operações semelhantes dos EUA em outros países que são produtores de petróleo e tiveram atração de investimentos.
“Essa pressão [sobre a legitimidade] não conta muito. Geralmente, é retórica, já tivemos exemplos com a Líbia. No final, é dinheiro, é commodity que todo mundo precisa. Então, tendo um ambiente minimamente estável, as coisas começam a acontecer em investimentos. Vários amigos meus estão trabalhando no Iraque com colete à prova de balas, caindo morteiros no campo e o pessoal tá lá trabalhando”, disse.
Na década de 1970, a produção venezuelana chegou a mais de 3 milhões de barris por dia e representava 8% da exportação mundial de petróleo; nos últimos anos, ela se manteve em torno de 400 a 500 mil barris por dia, contou o diretor — representando 1% das exportações mundiais.
Segundo Assis, a Venezuela enfrenta desafios como campos maduros no final da vida útil; áreas novas, na faixa do Orinoco, que demandam muito investimento por se tratar de óleo extra pesado; perda de capacidade técnica após a greve da estatal petrolífera PDVSA há mais de 20 anos; e ineficiência dos portos para carregar navios com celeridade.
Demanda dos EUA de óleo extra pesado
Apesar dos desafios na produção, há demanda do mercado para óleo extra pesado, que está em redução de produção nas Américas.
“Todas as refinarias do Golfo do México já são adaptadas para esse blend de óleo extra pesado e com enxofre venezuelano. Então, para os Estados Unidos voltarem a ter acesso a esse óleo é importante e facilita a vida, tanto logisticamente quanto da rentabilidade dessas refinarias”, afirmou.
Além da possibilidade de aumentar a exploração das reservas conhecidas, o país pode ter, ainda, reservas em águas profundas não descobertas, assim como a Guiana, país fronteiriço.
“Os campos (da Guiana) estão quase na fronteira com a Venezuela. Há uns anos atrás, a Exxon tentou fazer uma pesquisa sísmica, já chegando até a fronteira da Venezuela marítima, mas não foi permitido, eles pararam por ali”, disse o diretor.
“A Venezuela, como sempre teve uma produção mais no onshore e águas rasas no Lago de Maracaibo, a parte de águas profundas nunca foi realmente testada, então agora pode-se abrir toda uma nova área”, completou.
Produção da Venezuela é quatro vezes mais poluente que brasileira
Na comparação com o barril do petróleo brasileiro, o venezuelano emite quatro vezes mais CO2 para ser produzido. Isso porque a Venezuela é um dos poucos países que ainda queima o gás associado ao petróleo, ao invés de utilizá-lo para outro fim.
Mesmo em meio às discussões globais sobre transição energética, Assis considera que quantidade de emissões é de pouca importância, já que o Acordo de Paris é cada vez mais desconsiderado e a COP30 teve “pouca repercussão”.
Outros pontos tratados pelo diretor da MA2 Energy
- Histórico da relação diplomática entre Estados Unidos e Venezuela;
- Trump escolheu o momento certo para atacar;
- Possíveis sucessores de Nicolás Maduro na presidência;
- Ausência de impacto a curto prazo da crise política venezuelana no mercado de petróleo;
- Impacto do bloqueio de petróleo no Irã;
- Baixo risco técnico para petroleiras estadunidenses entrarem no país;
- Relações diplomáticas entre Venezuela e Cuba;
- Aumento da produção venezuelana pode deslocar produção dos petróleos mais caros, como o estadunidense.
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