CERAWeek 2026

Guerra no Oriente Médio ofusca IA e transição e domina a CERAWeek 2026

Em balanço do maior evento de energia do mundo, equipe da agência eixos destaca: segurança energética virou o tema central, Venezuela foi a surpresa da América Latina e a Equinor revelou avanços em Bacalhau e Raia

A guerra no Oriente Médio sequestrou a pauta da CERAWeek 2026 e transformou o que seria um evento dominado por debates sobre inteligência artificial e data centers em um encontro de crise, com líderes globais tentando calcular os impactos de um conflito cujas consequências ainda estão sendo digeridas. O balanço foi feito pela equipe da agência eixos — os editores André Ramalho e Gabriela Ruddy —, que encerraram a cobertura do evento em Houston, no Texas, no último dia 27 de março.

A CERAWeek 2026, organizada pela S&P Global entre 23 e 27 de março, reuniu CEOs, ministros e reguladores de energia de todo o mundo sob o tema “Convergência e Competição: Energia, Tecnologia e Geopolítica”.

O bloqueio de Ormuz no centro do evento

O quase fechamento do estreito por onde passa cerca de 20% da oferta global de petróleo impôs sua marca desde o primeiro dia do evento. O CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, cancelou sua participação presencial para permanecer na Arábia Saudita e gerenciar a crise. O CEO da ADNOC (Abu Dhabi National Oil Company), Sultan Al Jaber, também não compareceu pessoalmente: discursou por vídeo e viajou a Washington para reuniões sobre o Estreito de Ormuz.

No primeiro dia, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, convocou as petroleiras a “perfurar mais e produzir mais”, argumentando que o aumento dos preços em meio à guerra é um sinal de mercado para ampliar a oferta. No mesmo dia, Nasser havia chamado de “terrorismo econômico” o bloqueio ao trânsito de cargas pela região, alertando que os impactos sobre os mercados globais seriam “catastróficos” quanto mais se prolongasse a interrupção.

IA e data centers: tema ficou em segundo plano

A edição de 2026 tinha na programação uma forte predisposição ao debate sobre inteligência artificial, data centers e a explosão da demanda energética desse setor nos Estados Unidos. O acordo anunciado no primeiro dia entre o governo americano e a TotalEnergies — que redirecionou quase US$ 1 bilhão de um projeto de eólica offshore para geração a gás e energia no Texas — deu o tom da nova prioridade da administração Trump.

Ainda assim, o tema não sumiu dos painéis. A necessidade crescente de energia para alimentar infraestruturas digitais reforçou a narrativa de que o mundo precisa de mais energia de todas as fontes — e isso abriu espaço para dois temas que ganharam força na semana: gás natural e energia nuclear.

Ucrânia: a guerra esquecida e suas lições

Em seu quinto ano, a guerra entre Rússia e Ucrânia entrou na CERAWeek 2026 na sombra do conflito do Oriente Médio — mas deixou mensagens relevantes. Representantes do governo ucraniano e do setor de energia do país compartilharam lições aprendidas com a destruição sistemática de infraestrutura energética por ataques russos.

O principal aprendizado foi a necessidade de descentralização da geração de energia — para tornar o sistema menos vulnerável a ataques — e de constituição de reservas estratégicas: não apenas de recursos naturais, como gás natural armazenado em cavernas subterrâneas (prática em que a Ucrânia é referência na Europa), mas também de equipamentos essenciais, como transformadores e compressores de gás. A mensagem ressoa diretamente no debate global sobre segurança energética reaberto pelo conflito no Golfo Pérsico.

América Latina: porto seguro, com Venezuela como destaque

A América Latina tentou capitalizar o momento para se posicionar como fornecedora confiável de energia em uma região fora de conflitos. Brasil, Argentina e Guiana participaram de painéis específicos sobre upstream e gás na região.

A grande surpresa foi a Venezuela. A líder da oposição, Maria Corina Machado — Prêmio Nobel da Paz —, foi aplaudida de pé pela plateia de executivos ao prometer um setor de óleo e gás totalmente privado, com contratos estáveis, menor participação governamental do Hemisfério e criação de um regulador autônomo para o setor. Daniel Yergin, presidente da CERAWeek e vice-presidente da S&P Global, disse, no entanto, que não vê o grande capital chegando à Venezuela antes de eleições concretas. A Shell sinalizou avaliação de investimentos no país, e a ExxonMobil enviou uma equipe para reconhecimento in loco durante a semana.

Equinor, Bacalhau, Raia e a Margem Equatorial

O pré-sal brasileiro marcou presença nos painéis, com projetos em maturação. A Equinor destacou seus dois principais investimentos no país: o campo de Bacalhau, no pré-sal da Bacia de Santos, que entrou em produção em outubro de 2025, e o projeto Raia, no pré-sal da Bacia de Campos, cujo início de perfuração foi anunciado justamente durante a semana da CERAWeek, em 24 de março. O Raia é o maior investimento internacional da Equinor, com cerca de US$ 9 bilhões, e tem previsão de primeiro óleo em 2028.

A diretora da Petrobras Silvia Anjos e o diretor da ANP Pietro Mendes mencionaram a necessidade de reposição de reservas e ampliação da oferta de blocos na Margem Equatorial, mas o tema não ganhou protagonismo nos painéis. A ausência da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e do diretor-geral da ANP foi notada — ambos permaneceram no Brasil, às voltas com a crise de abastecimento e as discussões sobre o preço do diesel.

Argentina e o GNL como oportunidade de guerra

A Argentina se destacou como o outro grande apostador da semana. Com a Tecpetrol e a presença do ministro da Economia, o país se apresentou como futuro fornecedor global de GNL — exatamente o produto mais escasso com os ataques às instalações do Catar, que tiraram do ar cerca de 19% da produção global de GNL. Para os argentinos, a guerra no Oriente Médio pode acelerar a aprovação de investimentos nos projetos de liquefação de gás do país, aproveitando a janela de preços elevados e a busca global por diversificação de suprimento.

EUA ampliam domínio no GNL global; Europa aposta nas renováveis

Os Estados Unidos consolidaram sua posição como maior exportador de GNL do mundo e sinalizaram que querem ir além: novos projetos de infraestrutura estão sendo articulados ao redor do globo para escoar o gás americano, incluindo o chamado “corredor vertical” no Mediterrâneo — obras de infraestrutura para levar GNL americano dos terminais de GNL na Grécia para o interior da Europa Central e ao Leste Europeu.

Do outro lado, representantes europeus — incluindo a secretária do Conselho Europeu de Energia, que participou de painel ao lado do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30 — reafirmaram que, para a Europa, investir em renováveis é uma questão de segurança energética, pois reduz a dependência de importações. Um representante do Departamento de Estado americano, por sua vez, foi direto ao recado para os países da América Latina presentes: os Estados Unidos não querem que a região se torne “quintal de adversários” e prometeram competir “dólar a dólar” com os investimentos chineses na região.

Inscreva-se em nossas newsletters

Fique bem-informado sobre energia todos os dias