Acesso a recursos

Indústria brasileira tem dificuldade para financiar descarbonização, diz estudo

Estudo lançado pela WayCarbon e pelo WRI Brasil identifica gargalos para financiamento climático

Foto: Fábrica de aço em Piracicaba, São Paulo. Foto: ArcelorMittal/Divulgação
Foto: Fábrica de aço em Piracicaba, São Paulo. Foto: ArcelorMittal/Divulgação

Apesar de contar com uma matriz elétrica majoritariamente limpa, e crescente interesse de atores internacionais, a indústria brasileira ainda enfrenta entraves para acessar recursos capazes de financiar a descarbonização em larga escala.

É o que mostra o Mapeamento do Ecossistema de Descarbonização Industrial no Brasil (.pdf), estudo lançado pela WayCarbon e pelo WRI Brasil, que identifica os principais gargalos para financiamento climático, especialmente nos segmentos de difícil abatimento, como aço, cimento, química, alumínio, vidro e papel e celulose.

“Notamos que tratar o financiamento apenas com aumento de recursos não vai ser suficiente”, disse Marina Garcia, analista de investimentos em descarbonização da indústria do WRI, em entrevista à agência eixos

“Existe uma série de desafios que impedem o investimento em tecnologias de baixo carbono aqui no Brasil, com diferentes naturezas: regulatória, política, financeira, e também em relação ao custo dessas tecnologias”, completou.

Segundo o documento, um dos principais “nós” está no atual ecossistema, fortemente ancorado em bancos públicos de desenvolvimento, em especial o BNDES.

A conclusão é que há um descompasso entre a elevada demanda da indústria por recursos e a oferta disponível. 

Além disso, os entrevistados pelo estudo “relataram dificuldades no acesso a fundos nacionais e escassez de oportunidades nos recursos não reembolsáveis oferecidos”.

No caso do financiamento misto, o documento aponta que “ainda há falta de acesso e instrumentos que apoiem a mobilização de capital privado especificamente para o setor industrial”.

No entanto, reconhece que iniciativas importantes estão sendo implementadas pelo governo, como Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) o Eco Invest

Quando o assunto é o financiamento privado, o estudo indica uma resistência em relação aos altos custos das tecnologias sustentáveis, ausência de garantias, riscos de crédito e incertezas quanto à demanda e ao retorno dos investimentos.

Falta de foco estratégico 

Apesar de identificar uma demanda por parte das indústrias, o estudo destaca a concentração setorial do financiamento climático no Brasil, historicamente voltado ao agronegócio, e uma falta de foco na descarbonização dos setores de difícil abatimento mais alinhados às demandas internas e às exigências internacionais. 

“A descarbonização da indústria se tornou parte da agenda de competitividade  e essa sinalização é fundamental”, afirmou Nathalia Pereira, coordenadora de finanças sustentáveis da WayCarbon. 

“Precisamos sinalizar para o mercado externo que tem condições de suprir uma demanda por produtos industriais verdes e que temos a intenção de absorver esse investimento pela indústria brasileira”, acrescentou Pereira.

Contudo, o levantamento aponta para o papel essencial do Fundo Clima e do BNDES como indutores do capital privado, seja por meio da estruturação de projetos, da oferta de garantias ou do efeito demonstração ao longo da cadeia.

“A gente pode mobilizar mais o capital privado e utilizar esse poder que o BNDES tem de reduzir os riscos de muitos projetos”, explicou Garcia.

Para ela, avançar exige uma combinação de políticas públicas, regulação e instrumentos financeiros, com destaque para o mercado de carbono e para o aperfeiçoamento da taxonomia, que seja capaz de definir o que é, por exemplo, um aço ou um cimento de baixo carbono.

Tecnologias drop-in versus tecnologias em fase de amadurecimento 

As responsáveis pelo estudo também apontaram que muitas tecnologias-chave para a descarbonização industrial, como o hidrogênio verde, ainda apresentam baixa maturidade técnica e custos elevados, o que dificulta sua bancabilidade. 

Além disso, a ausência de mercados consolidados para produtos industriais de baixo carbono aumenta a percepção de risco.

Diante desse cenário, o documento reforça a necessidade de estimular simultaneamente a oferta e a demanda por produtos de baixo carbono

“Muitas vezes eles não têm um mercado cativo”, explicou Garcia. 

“Você tem um risco muito alto num projeto, o que o financiador faz? Ele aumenta o custo do financiamento ou não viabiliza o financiamento.”

Apesar das dificuldades, o levantamento também identificou soluções emergentes.

Diante dos altos custos e riscos, empresas têm recorrido a modelos de joint ventures e ao chamado acoplamento setorial, que integra consumidores intensivos de energia, como a indústria, a produtores de energia renovável. 

Nesse contexto, contratos de longo prazo, como os PPAs (Power Purchase Agreements), e acordos de fornecimento (offtake) ajudam a dar previsibilidade, reduzir riscos e viabilizar investimentos.

Pereira ressaltou que, apesar dos entraves, o país já dispõe de um amplo leque de soluções técnicas. 

“A gente mapeou mais de 160 tecnologias de descarbonização, só para os processos industriais de aço e de cimento”, afirmou. 

Segundo ela, há desde alternativas mais simples, do tipo drop-in (de implementação imediata), até soluções mais complexas, o que demonstra que o problema não é apenas tecnológico, mas sobretudo financeiro, regulatório e de coordenação.

Nesse contexto, instrumentos como a taxonomia sustentável brasileira ganham relevância ao criar uma linguagem comum e ajudar a demonstrar, inclusive ao mercado internacional, a eficácia de tecnologias adaptadas à realidade nacional, como o uso de carvão vegetal e biocombustíveis. 

“Os biocombustíveis apareceram muito como substituição de combustível para frotas. E, para os processos industriais, existe um desejo de usar biocombustíveis tanto em substituição parcial ou total do gás natural”, disse Pereira.

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