A autonomia nacional em 2026 está fundamentada na conversão de nossa riqueza geológica em influência geopolítica concreta, pois o domínio sobre a extração e o refino de minerais críticos determina quem lidera a corrida da inteligência artificial (IA) e quem permanece como mero espectador tecnológico.
Esse avanço exige que o Brasil rompa com o papel de depósito global e assuma uma postura soberana diante da pressão de grandes potências, visto que o mercado global de minerais críticos abandonou as dinâmicas clássicas de livre comércio para se tornar um instrumento de segurança estatal pura.
Nessa disputa, os Estados Unidos (EUA) buscam garantir o acesso a reservas seguras por meio do programa Projeto Cofre (Project Vault) e de novos investimentos bilionários, redesenhando as cadeias globais de suprimentos.
Ao dominar aproximadamente 85% do refino mundial de terras raras e quase toda a cadeia de produção de ímãs permanentes, Pequim transforma essa vantagem industrial em um mecanismo de influência diplomática, colocando o Brasil no centro dessa guerra dos chips por deter o quase monopólio mundial do nióbio e reservas significativas de lítio e cobre.
O faturamento mineral brasileiro atingiu R$ 298,8 bilhões em 2025, evidenciando o peso do setor na balança comercial nacional segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Contudo, a riqueza de dados e a transição energética exigem que o valor agregado permaneça no território brasileiro por meio do refino doméstico.
Não existe IA sem mineração bruta, pois cada consulta algorítmica consome miligramas de silício e cobre extraídos do solo. A infraestrutura física da nuvem depende de concreto, energia e grandes volumes de água, gerando pressões locais severas em diversas regiões.
No início de 2026, o Ministério de Minas e Energia (MME) deu um passo relevante ao consolidar as diretrizes do Plano Decenal de Recursos Minerais (PlanGEO) 2026–2035, ampliando o mapeamento e o conhecimento geológico do país.
Trata-se de uma decisão acertada, pois conecta planejamento estatal e visão de longo prazo em um setor historicamente marcado pela improvisação.
Sob a coordenação do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), a pasta avançou na regulamentação do processamento de minerais críticos, conectando a política mineral à soberania tecnológica e às exigências da transição energética.
A proposta de implantação das Zonas de Processamento de Transformação Mineral (ZPTMs) sinaliza uma mudança estrutural ao buscar manter o valor agregado dos recursos naturais em território nacional por meio de incentivos fiscais e industriais, evitando que o país repita o modelo primário-exportador que limita sua autonomia econômica.
A estratégia nacional volta-se à redução de riscos de suprimento com o fortalecimento da produção interna de terras raras e insumos essenciais à segurança nacional e à economia digital, transformando a segurança mineral em um tema de soberania.
Nesse contexto, a atuação do MME aponta para a construção de um ambiente de negócios mais estável, capaz de conciliar responsabilidade socioambiental, transparência e previsibilidade em toda a cadeia mineral.
O desafio central será transformar diretrizes em execução, evitando que a política mineral fique restrita ao papel e ao discurso institucional, o que exige uma coordenação fina entre o governo, a indústria e as comunidades locais para garantir que os benefícios sejam distribuídos de forma justa e que os impactos sejam mitigados com rigor técnico e responsabilidade social.
No Vale do Jequitinhonha, recomendações do Ministério Público Federal (MPF) levaram à suspensão de alvarás, em 2025, com o objetivo de proteger o ecossistema e garantir a consulta prévia às comunidades afetadas.
Paralelamente, a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, no Mandado de Injunção (MI) nº 7.516, encerrou um silêncio constitucional de 37 anos sobre terras indígenas.
O STF estabeleceu balizas que podem limitar a lavra a uma estimativa técnica de até 1% do território demarcado sob controle direto das comunidades, assegurando que os povos originários deixem de ser apenas vizinhos da riqueza para participarem ativamente do desenvolvimento, equilibrando o progresso nacional com a proteção dos direitos fundamentais e a segurança jurídica.
O Brasil não pode ser o pulmão do mundo e ser tratado simultaneamente como o depósito de matérias-primas do Norte Global, pois exportar o concentrado de lítio para importar a bateria é assinar um atestado de subdesenvolvimento permanente.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e uma gigante da mineração agem corretamente ao financiar as empresas iniciantes (junior companies), visto que o risco geológico separa uma economia de produtos básicos de uma de inovação.
Com um fundo de R$ 3 bilhões previstos, sinalizam o caminho para atrair capital, mas o desafio reside no refino e na aplicação do nióbio em supercondutores e baterias avançadas, como demonstram iniciativas da líder mundial na tecnologia do nióbio que provam ser o valor agregado a chave para a competitividade.
Enquanto o níquel indonésio enfrenta barreiras tarifárias por sua pegada de carbono, o mineral brasileiro processado com energia limpa atrai mercados de alto valor, sendo que o Passaporte de Bateria da União Europeia (UE) transforma nosso selo de minério verde em uma reserva de mercado estratégica.
A mineração de 2040 será obrigatoriamente circular ou enfrentará a exaustão de modelos lineares insustentáveis, tornando o lixo eletrônico das cidades a mina de ouro mais estratégica para a recuperação de metais raros essenciais para a defesa.
As terras raras formam a infraestrutura de poder do século 21 e garantem soberania digital, exigindo uma governança que priorize o interesse público e a dignidade humana acima de lucros corporativos imediatos, pois o destino nacional depende da coragem política para governar a transição tecnológica.
Régis de Oliveira Júnior é jornalista formado pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), especialista em Inteligência Artificial pela ESPM Tech e vencedor de 16 premiações nacionais de jornalismo. Atuou em gestão pública como secretário de Saúde e de Comunicação, interventor em hospitais públicos e consultor no Ministério de Minas e Energia no DF, na Assembleia Legislativa e em prefeituras do RS e de MG. O artigo representa suas opiniões pessoais.
