A recente escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã recoloca no centro do debate um tema recorrente, mas frequentemente negligenciado: energia é geopolítica.
Conflitos no Oriente Médio raramente permanecem restritos à região. Sempre que há instabilidade em áreas estratégicas para a produção ou o escoamento de petróleo, o mercado global reage rapidamente.
O aumento recente de quase 10% no preço do barril, superando os US$ 82, é reflexo direto da incorporação de risco geopolítico aos preços.
Para países estruturalmente dependentes de importação de derivados, como o Brasil no caso do diesel, esse movimento não é apenas estatístico. É um fator de vulnerabilidade econômica.
Apesar de sermos grandes produtores de petróleo, ainda importamos cerca de 25% do diesel consumido internamente. Só em 2025, importamos 17 bilhões de litros.
Isso significa que parte relevante do abastecimento nacional está sujeita a choques externos: sejam eles de preço, câmbio, logística ou, em cenários mais extremos, de disponibilidade física.
O diesel é um insumo transversal. Ele move o transporte rodoviário, sustenta a competitividade do agronegócio, abastece a indústria e influencia diretamente o custo dos alimentos. Qualquer oscilação significativa nesse mercado se propaga rapidamente pela economia.
Em contextos de maior tensão internacional, o risco não se limita à inflação. A depender da gravidade da crise, podem surgir restrições logísticas, encarecimento de fretes marítimos, redução de oferta ou redirecionamento de cargas para mercados considerados prioritários.
É nesse ponto que a discussão sobre segurança energética ganha densidade estratégica.
A política de mistura de biodiesel, muitas vezes debatida sob a ótica ambiental, social ou setorial, também deve ser compreendida como instrumento de mitigação de risco geopolítico.
A cada ponto percentual adicional na mistura reduz a necessidade de aproximadamente 800 milhões de litros de diesel importado por ano. Trata-se de redução objetiva de exposição externa.
Além disso, o Brasil dispõe de capacidade instalada suficiente para atender misturas mais elevadas, como B20 (20% de biodiesel), dentro de critérios técnicos já estudados.
O avanço gradual da mistura, como a implementação do B16, integra um planejamento regulatório estruturado e previsível.
Não se trata de reação conjuntural a um evento específico, mas de construção de resiliência energética.
Em um ambiente internacional cada vez mais volátil, políticas que reduzem dependências externas estratégicas não devem ser vistas apenas como agendas ambientais ou industriais, mas como decisões de Estado.
O mundo continuará sujeito a ciclos de instabilidade geopolítica. A questão central para o Brasil é se desejamos permanecer expostos a esses choques ou fortalecer, de forma planejada, nossa capacidade de resposta.
Segurança energética não é um tema abstrato. É uma variável concreta de estabilidade econômica e soberania nacional.
André Lavor é CEO e cofundador da Binatural. Ele é administrador de empresas com especialização na Columbia University, Stanford University, FGV e Fundação Dom Cabral. Possui um histórico comprovado de 25 anos liderando empresas de agronegócio e energia no país, sendo considerado um dos mais jovens empresários e empreendedores nesta área de atuação. Liderou projetos ousados, apoiando a indústria brasileira de biodiesel em seus estágios iniciais, desenvolvendo ações de preservação do meio ambiente e fortalecimento da Agricultura Familiar em nosso país, apoiando a transformação da matriz energética brasileira.
