Cooperação estratégica

Brasil e Arábia Saudita avançam na aliança em minerais críticos com criação de grupo de trabalho

Ministros acertam criação de grupo bilateral e discutem investimentos em cobre, terras raras e mapeamento geológico

Alexandre Silveira se reúne com o ministro saudita da Indústria e Recursos Minerais, Bandar Al-Khorayef, durante agenda oficial na Arábia Saudita, em Riad, em 12 de janeiro de 2026 (Foto MME)
Alexandre Silveira (PSD) se reúne com o ministro saudita da Indústria e Recursos Minerais, Bandar Al-Khorayef, durante agenda oficial em Riad, em 12 de janeiro de 2026 (Foto MME)

JUIZ DE FORA — O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), se reuniu nesta segunda-feira (12/1), em Riad, com o ministro da Indústria e Recursos Minerais da Arábia Saudita, Bandar Al-Khorayef, para avançar na cooperação estratégica entre os países no setor mineral.

Brasil e Arábia Saudita concordaram em criar um grupo de trabalho bilateral, com reuniões regulares, inclusive virtuais, para aprofundar estudos e estruturar iniciativas minerais conjuntas.

Segundo o MME, o encontro teve como foco “aprofundar o diálogo bilateral e ampliar a cooperação estratégica no setor mineral”, com a identificação de oportunidades de investimentos conjuntos em minerais considerados estratégicos para a economia e a transição energética.

Durante a reunião, Silveira apresentou mudanças recentes na governança do setor mineral brasileiro, destacando a atuação do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), órgão que reúne 18 ministérios e assessora diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na formulação da política do setor .

De acordo com o ministro, o conselho tem contribuído para acelerar processos de licenciamento, reduzir entraves burocráticos e melhorar a coordenação entre órgãos federais, o que, segundo ele, aumenta a previsibilidade para investimentos de longo prazo .

“Mesmo sendo uma federação, o Brasil tem avançado na unificação da linguagem regulatória e institucional, preservando a estabilidade legal, regulatória e política, além da segurança jurídica necessária para investimentos de longo prazo”, afirmou Silveira, em nota.

Na agenda de investimentos, Silveira destacou o interesse do governo em “destravar projetos estratégicos de minério de ferro de alta redução e de cobre, com foco nos estados do Pará e de Minas Gerais, ampliando a competitividade do país no mercado internacional”.

O ministro ressaltou ainda o potencial geológico do país, lembrando que apenas cerca de 30% do subsolo brasileiro foi mapeado até agora.

Mesmo com esse nível limitado de mapeamento, o Brasil já figura como a segunda maior reserva mundial de terras raras e a sétima de urânio, o que, segundo a pasta, abre espaço para novas descobertas e parcerias internacionais.

Silveira pediu apoio do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) para projetos de mapeamento geológico no Brasil, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre o potencial mineral do país e criar bases para novos investimentos estruturantes.

Transformação mineral

O ministro também defendeu que investidores sauditas avancem além da extração e apostem na cadeia de transformação mineral no Brasil, de modo a agregar valor à produção.

Silveira afirmou que “os minerais críticos se consolidam como o novo petróleo”.

“A integração entre mineração, indústria e energia torna-se estratégica”, avaliou.

Durante o encontro, Silveira manifestou interesse em receber representantes da Manara Minerals no Brasil para avaliar oportunidades de investimento.

O fundo saudita é sócio da Vale na Vale Base Metals, unidade focada na produção de cobre e níquel — minerais considerados estratégicos para a transição energética.

Histórico da parceria

O avanço na agenda mineral ocorre após os dois países terem iniciado, em agosto do ano passado, os trabalhos para implementar um acordo de cooperação em energia.

Na ocasião, Brasil e Arábia Saudita começaram a detalhar projetos conjuntos em petróleo, gás, eletricidade, renováveis e hidrogênio, com a criação de grupos técnicos para transformar o plano em iniciativas concretas.

O movimento deu sequência a um memorando de entendimento assinado em novembro de 2023, também em Riad, que ampliou o escopo da parceria energética bilateral.

O acordo abrangeu, segundo o MME, desde a produção e o uso de energia até ações em eficiência energética, economia circular de carbono, tecnologias de redução de emissões e cooperação entre empresas, universidades e centros de pesquisa.

Em janeiro de 2025, Silveira anunciou a perspectiva de investimentos sauditas de até R$ 8 bilhões no Brasil e a abertura, em São Paulo, de um escritório da Ma’aden — braço de mineração do PIF — voltado ao mapeamento geológico, à pesquisa e ao aproveitamento mineral no país.

A mineradora estatal, porém, negou a versão apresentada pelo ministro. Segundo apuração da Folha junto a uma fonte da própria Ma’aden, a atuação no Brasil se limitará à abertura do pequeno escritório em SP, dedicado apenas à negociação de fosfato — importante na produção de fertilizantes. Questionada sobre os investimentos anunciados por Silveira, a fonte foi categórica: “Não há nada vindo da gente”.

Posteriormente, o MME explicou, sem detalhar prazos ou alocação dos recursos, que o ministro foi informado durante “reuniões com representantes do governo e de empresas sauditas” sobre a “intenção de investimentos da Arábia Saudita de até R$ 8 bilhões no Brasil, e não especificamente da Ma’aden”.

Um ano antes, durante o Fórum Econômico Mundial de 2024, em Davos, Silveira se reuniu bilateralmente com o ministro saudita para discutir oportunidades de investimento em mineração sustentável no Brasil.

Em novembro passado, a estratégia da Arábia Saudita para minerais estratégicos ganhou novo capítulo com a parceria entre a estatal Maaden, a MP Materials e o governo dos EUA para desenvolver uma refinaria de terras raras no país árabe.

O projeto busca fortalecer cadeias globais de suprimento e reduzir a dependência de poucos fornecedores, com foco nos setores industrial e de defesa.


Atualizado para incluir o posicionamento da Ma’aden e do MME sobre anúncio.

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