Crise na Venezuela

Refinarias independentes na China são destino de 430 mil barris/dia de óleo venezuelano

EUA são o segundo maior destino do petróleo produzido na Venezuela; Chevron continua operando no país e é única importadora nos EUA

Refinarias independentes na China são destino de 430 mil barris/dia de óleo venezuelano

BRASÍLIA — A invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro torna incerto o destino de 430 mil barris de petróleo que o país sulamericano exportava diariamente para a China. As estimativas são da Argus, baseadas em dados de rastreamento e informações de participantes do mercado.

Segundo o responsável por precificação de petróleo nas Américas da Argus, Gustavo Vasquez, a Venezuela não está totalmente integrada aos mercados globais devido às sanções dos EUA.

Deste modo, refinarias independentes na China vinham absorvendo a maior parte das exportações da commodity, embora o volume represente menos de 20% do processamento das pequenas refinarias do país asiático em 2025.

Vasquez pontua que, apesar do amplo desconto oferecido devido às sanções internacionais — de US$ 11 a 12 por barril —, estatais chinesas não importam petróleo venezuelano. O volume era absorvido sobretudo por refinarias pequenas.

A China expressou forte indignação com a prisão de Maduro, em parte porque empresas chinesas têm investimentos significativos na indústria upstream da Venezuela, incluindo um acordo assinado em agosto, e porque a Venezuela ainda deve cerca de US$ 12 bilhões à China em esquemas históricos de empréstimos atrelados a petróleo.

“Não há escassez de petróleo no mercado global, portanto um impacto nos preços mundiais é improvável. No entanto, há escassez do tipo específico de petróleo venezuelano Merey-16, pesado e com alto teor de enxofre, que tem alto teor de betume para pavimentação, destinado principalmente à província de Shandong”, pontuou Vasquez.

De acordo com a Argus, qualquer interrupção nas importações do produto venezuelano significaria redução da produção de betume a partir de março ou compra de petróleo mais barato.

Infraestrutura de O&G na Venezuela

A análise da Argus estima que restaurar a infraestrutura de petróleo do país vizinho a algo próximo da antiga capacidade — de aproximadamente 3 milhões de barris por dia — consumiria centenas de bilhões de dólares.

Vasquez cita como exemplos trechos de gasodutos não utilizados que foram totalmente roubados e o fracasso em tentar retomar o funcionamento de um gasoduto para enviar gás venezuelano à Colômbia, apesar do apoio político dos respectivos presidentes.

Quanto às refinarias, a avaliação é de que seria algo ainda mais complexo. A refinaria de Cardón sofreu mais um grande apagão no ano passado, mesmo após a produção ter caído a uma fração da capacidade nominal.

Soma-se a todos os problemas citados uma “fuga de cérebros” sofrida pela Venezuela desde a década de 1990, quando funcionários da estatal petrolífera foram afastados por razões políticas e deixaram o país em busca de melhores condições.

Frete naval

A intervenção norte-americana também deve trazer impactos sobre a logística do petróleo. Segundo a Argus, as exportações de petróleo venezuelano têm sido transportadas principalmente pela chamada “frota sombra” ou navios envolvidos em comércio ilícito desde a imposição de sanções pelos EUA.

Esses navios operam fora do mercado convencional de petroleiros que transportam petróleo do Brasil, Guiana, Argentina e Colômbia.

Excluindo o mercado venezuelano, o afretamento de navios petroleiros de grande porte (VLCC) está estável após o ataque dos EUA no fim de semana. A taxa para VLCC na rota Brasil–China está no menor nível em cinco meses, cerca de US$ 2,90 por barril, sem sinais de mudança na segunda (5/1).

A Argus prevê que qualquer interrupção nos embarques de nafta da Rússia para a Venezuela (para uso na mistura do petróleo pesado venezuelano) poderia afetar os fretes nessa rota. A taxa para uma viagem de produtos refinados limpos do Báltico russo ao Caribe está em US$ 69,17 por tonelada, o maior nível em 20 meses.

Inscreva-se em nossas newsletters

Fique bem-informado sobre energia todos os dias