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Qual é o real volume das reservas de petróleo na Venezuela?

Dados da Rystad contestam os números oficiais do governo local, que fala em cerca 300 bilhões de barris

Nicolas Maduro fala das eleições presidenciais na Venezuela, em Caracas, em 29 de abril de 2024 (Foto Fotos Públicas)
Nicolas Maduro fala das eleições presidenciais na Venezuela, em Caracas, em 29 de abril de 2024 (Foto Fotos Públicas)

JUIZ DE FORA — Apesar de Caracas repetir há anos que o país detém as maiores reservas provadas (1P) de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 300 bilhões de barris, dados independentes colocam o volume em outra escala. 

Levantamento da consultoria Rystad Energy mostra que o volume efetivamente comprovado é muito menor.

O petróleo aparece no centro do discursos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a captura de Nicolás Maduro no sábado (3/1).

A agência eixos detalha a seguir o que está em jogo.

A Venezuela tem mesmo 300 bilhões de barris de petróleo?

Não há confirmação independente para esse número. A estimativa de cerca de 300 bilhões de barris é divulgada pelo próprio governo venezuelano, que afirma que o volume se concentra majoritariamente na Faixa do Orinoco, composta sobretudo por óleo pesado.

Com base em critérios técnicos e econômicos, a Rystad estima volumes muito menores: “4 bilhões de barris de reservas provadas e 23 bilhões de barris de reservas descobertas“.

Ainda assim, o volume é significativo e historicamente tem sido capaz de atrair investimentos significativos de vários países, como China, Rússia, Irã e EUA.

Qual é a produção atual da Venezuela?

Atualmente, o país produz cerca de 1,1 milhão de barris/dia, volume relativamente pequeno no comércio global, mas relevante pela qualidade: mais de 67% da produção é de petróleo pesado, essencial para refinarias na Ásia e historicamente importante também para a Costa do Golfo dos Estados Unidos.

A escalada das tensões entre EUA e Venezuela pode afetar o mercado internacional, sobretudo por causa do perfil da produção venezuelana.

Em 2024, foram 975 mil barris/dia produzidos, dos quais 657 mil barris/dia eram de óleo pesado, o que representou cerca de 1% da oferta global de óleo, mas 4,5% da oferta mundial de óleo pesado, segundo a consultoria.

A produção venezuelana enfrenta desafios como campos maduros no final da vida útil; áreas novas, na faixa do Orinoco, que demandam muito investimento por se tratar de óleo extra pesado; perda de capacidade técnica; e ineficiência dos portos.

Contudo, o diretor da MA2 Energy, Marcelo de Assis, afirma que há demanda do mercado para óleo extra pesado, que está em redução de produção nas Américas. 

“Todas as refinarias do Golfo do México já são adaptadas para esse blend de óleo extra pesado e com enxofre venezuelano. Então, para os Estados Unidos voltarem a ter acesso a esse óleo é importante e facilita a vida, tanto logisticamente quanto da rentabilidade dessas refinarias”, disse ao estúdio eixos em entrevista nesta segunda (5/1).

Comparação com o Brasil

O Brasil declarou 16,84 bilhões de barris em reservas provadas (1P) em 2024, segundo o Boletim Anual de Recursos e Reservas da ANP (veja na íntegra, em .pdf), número mais de quatro vezes superior às reservas provadas estimadas para a Venezuela pela Rystad. Os dados de 2025 ainda não foram atualizados.

Considerando reservas provadas, prováveis e possíveis (3P), o volume brasileiro chega a 29,18 bilhões de barris, superando inclusive as 23 bilhões de reservas descobertas venezuelanas estimadas pela consultoria.

Como são categorizadas as reservas de óleo e gás?  

As reservas de óleo e gás são classificadas conforme o grau de certeza de comercialização: provadas (1P), com probabilidade mínima de 90%; provadas + prováveis (2P), com pelo menos 50%; e provadas + prováveis + possíveis (3P), com chance mínima de 10%; as reservas 3P correspondem às reservas totais.

As estimativas resultam de estudos técnicos, econômicos e regulatórios sobre o volume economicamente recuperável ao longo da vida do reservatório e são periodicamente revisadas, sendo fundamentais para o planejamento de investimentos no setor.

10 bi de barris recuperáveis somente na Margem Equatorial

As 23 bilhões de reservas estimadas pela Rystad são inferiores também às expectativas para a Margem Equatorial brasileira, que pode concentrar cerca de 30 bilhões de barris de óleo equivalente, segundo dados da ANP e da Petrobras.

Apenas a bacia da Foz do Amazonas teria 10 bilhões de barris recuperáveis, conforme estimativas da EPE, o que reforça o peso estratégico da região no debate energético brasileiro. Vale lembrar, no entanto, que esses volumes são estimativas, dado que a exploração na região foi iniciada recentemente e ainda está em curso.

Volumes venezuelanos frente aos EUA

Os Estados Unidos encerraram 2023 com 46,4 bilhões de barris em reservas provadas, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), após uma queda anual de 3,9%.

A queda nas reservas reflete o aumento produção norte-americana, que em 2023 cresceu 7,8% em relação a 2022, enquanto o preço médio do WTI recuou 17,4%, para US$ 78,05 o barril.

Ainda assim, o volume supera em mais de dez vezes as reservas venezuelanas estimadas pela Rystad.

Óleo é central no discurso dos EUA

Donald Trump explicitou o foco econômico da ofensiva contra a Venezuela ao anunciar, no sábado (3/1), a captura de Nicolás Maduro.

Em coletiva, afirmou que sucessivos governos venezuelanos  “roubaram” petróleo dos EUA e, a partir de agora, “grandes empresas americanas” investirão “bilhões de dólares” na estrutura do país para explorar as gigantes reservas de petróleo da Venezuela “e começar a ganhar dinheiro”.

Segundo o líder norte-americano, a estrutura petrolífera construída pelos EUA “foi roubada” pela Venezuela, referindo-se a nacionalizações de companhias durante administrações anteriores, sob governos de orientação socialista.

“Construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, empenho e habilidade americanos, e o regime socialista a roubou de nós durante as administrações anteriores”, declarou. Trump classificou o episódio como “um dos maiores roubos de propriedade americana na história”.

A fala reforça seu discurso histórico sobre nacionalizações na América Latina e ajuda a entender por que a commodity aparece como eixo central da nova estratégia dos EUA para a Venezuela.

Perfil das reservas ajuda a explicar interesse

Embora as reservas venezuelanas sejam relevantes, o interesse está ligado sobretudo ao perfil do óleo pesado, estratégico para refinarias configuradas para esse tipo de óleo e para a reorganização geopolítica do mercado energético.

Nos Estados Unidos, as refinarias da Costa do Golfo são projetadas para processar petróleo pesado em até 30% de sua carga, com algumas capazes de operar com mais de 75%.

Nesse contexto, a Rystad avalia que a “perda desse suprimento apertaria o balanço do petróleo pesado”.

Embora os EUA hoje quase não importem o energético da Venezuela, a consultoria alerta que um “aperto geral do mercado global de pesado fortaleceria os preços dos graus dos quais os EUA dependem”.

Segundo a Rystad, a retirada do óleo venezuelano do mercado tende a pressionar os preços dos óleos pesados e a elevar os ágios no mercado asiático, especialmente na China e na Índia.

“A perda dos volumes venezuelanos provavelmente resultaria em preços mais fortes no mercado do Pacífico, com China e Índia dependentes do suprimento pesado. Os preços de Dubai devem desenvolver prêmios mais fortes em relação ao Brent, enquanto outros graus pesados se fortalecerão frente aos leves.”

Descobertas na Guiana reacendem disputas locais

Embora o levantamento da Rystad Energy trate de ativos petrolíferos onshore, a Venezuela pode ter, ainda, reservas não descobertas em águas profundas, assim como a Guiana, país fronteiriço.

E o avanço das disputas territoriais locais reforça que o interesse energético na região vai além do território venezuelano.

As grandes descobertas offshore no litoral guianense, lideradas pela ExxonMobil desde 2015, reacenderam tensões históricas e colocaram o petróleo no centro da disputa geopolítica entre os países vizinhos.

O episódio mais recente ocorreu em abril de 2024, quando Maduro promulgou uma lei que anexa o território de Essequibo, transformando a área em um novo estado venezuelano. A medida foi classificada pela Guiana como um “ato ilícito”, aprofundando um conflito que se arrasta desde o século 19.

A disputa ganhou novo peso com a consolidação do petróleo como ativo estratégico. Embora Essequibo seja uma região continental, o conflito se estende ao mar.

A Guiana tem usado sua zona econômica exclusiva para avançar na exploração offshore, onde as descobertas já somam mais de 11 bilhões de barris, segundo dados citados no texto-base.

Esse movimento levou a Venezuela a contestar a legalidade do primeiro leilão de blocos exploratórios da Guiana, em setembro de 2023, classificado por Caracas como ilegal por envolver áreas marítimas “pendentes de delimitação”.

O tema está sob análise da Corte Internacional de Justiça (CIJ), mas os desdobramentos indicam que o petróleo se tornou o principal vetor de escalada da disputa.

Invasão pode impactar oferta global?

Os volumes de óleo disponíveis ao mercado devem demorar a reagir a eventuais impactos da invasão dos EUA à Venezuela e à sinalização de Trump de retorno das empresas norte-americanas à produção no país latino-americano.

Apesar de a extração venezuelana estar concentrada em terra e águas rasas — o que, em tese, facilitaria uma retomada — analistas veem pouco espaço para aumento relevante da oferta no curto prazo.

Especialistas apontam que a infraestrutura petrolífera no país se deteriorou ao longo de anos de subinvestimento e sanções, o que exigirá tempo e grandes aportes para recuperação.

A incerteza também envolve a disposição das petroleiras americanas em investir. As companhias tendem a exigir um ambiente político, jurídico e regulatório estável antes de comprometer capital.

Confira a live da agência eixos com análises de especialistas sobre o tema:

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