O Brasil voltou a figurar com força no radar global de óleo e gás. A combinação entre geologia privilegiada, escala de reservas e uma operação de pré-sal que virou referência mundial recolocou o país na disputa pelo capital mais disputado da indústria. As novas descobertas reforçam essa tendência.
O achado de Bumerangue, na Bacia de Santos, classificado pela BP como sua maior descoberta em 25 anos, reacendeu a percepção de que ainda há muito valor escondido sob as águas brasileiras.
Ao lado disso, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) prevê cerca de R$ 609 bilhões em investimentos na fase de produção até 2029, patamar que coloca o Brasil entre os maiores polos de Capex upstream do mundo e confirma o apetite estrangeiro pelos ativos locais.
A história, porém, não é só de entusiasmo. Entre investidores internacionais, o país ainda carrega o rótulo de excelente geologia, mas institucionalidade irregular.
O peso político da Petrobras e sua capacidade de irradiar efeitos sobre toda a cadeia sempre que muda estratégia, Capex ou política de dividendos seguem sendo componentes monitorados com lupa.
Sinais de interferência ou reorientação política elevam o prêmio de risco e afetam a leitura sobre o setor como um todo.
A insegurança contratual e fiscal também permanece viva na memória da indústria.
Revisões de regras, disputas tributárias e mudanças regulatórias no meio do caminho são vistas como um fantasma recorrente, especialmente em projetos de longo prazo, com payback dilatado.
A reação negativa do setor a propostas recentes de aumento de encargos mostra que a confiança ainda é frágil. Não basta a regra ser boa, é preciso que pareça duradoura.
Hoje, o ponto mais sensível é o da previsibilidade administrativa. A Margem Equatorial virou um caso emblemático.
Trata-se de uma fronteira geologicamente promissora, comparável a Guiana e Suriname, mas submetida a um processo de licenciamento que alternou negativas, reavaliações, pressões políticas e idas e vindas técnicas.
O episódio projetou ao mercado a sensação de que o tempo da burocracia nem sempre acompanha o tempo do investimento e de que decisões podem oscilar conforme a conjuntura.
Não é que o Brasil esteja afastando capital. Ele apenas o recebe com um desconto institucional embutido.
No campo regulatório, a ANP continua desempenhando papel central, com impacto direto na estratégia corporativa.
Suas decisões moldam cronogramas de perfuração, custos operacionais, compromissos exploratórios, planos de desenvolvimento e até a repartição de reservas em casos de unitização.
Mudanças em conteúdo local, royalties ou segurança operacional reverberam imediatamente nos portfólios das empresas, que precisam readequar prioridades e recalibrar expectativas.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), por sua vez, amplia o alcance estratégico das decisões estatais.
A orientação para ofertar blocos além das 200 milhas náuticas, sob regime de partilha, abre nova fronteira exploratória e, com ela, novas incertezas jurídicas.
Ao mesmo tempo, ganha peso a pauta de descarbonização no upstream, que altera exigências tecnológicas, modelos de financiamento e metas de emissões.
A política energética, no Brasil, não é pano de fundo. Ela integra a dinâmica do setor.
Esse mosaico envolve outros atores decisivos. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e os órgãos ambientais estaduais definem, na prática, o ritmo de execução por meio do licenciamento.
O Ministério da Fazenda e o Congresso influenciam a rentabilidade estrutural com impostos e mudanças fiscais.
O Conselho Administrativo de Defesa econômica (Cade) afeta movimentos de M&A e estratégias de integração no gás e no refino.
Cada camada adiciona um grau de incerteza ou estabilidade, e é essa soma final que os investidores avaliam.
Nos contratos do setor, o Brasil oferece um núcleo de previsibilidade comparável ao de boas jurisdições internacionais.
Concessão, partilha e unitização contam com modelos maduros, cláusulas consolidadas e previsão de arbitragem.
O STJ e o STF reconhecem a validade das cláusulas arbitrais e a possibilidade de seu uso pela administração pública em disputas patrimoniais, o que fortalece a confiança no enforcement. No papel, o desenho institucional é moderno.
Na prática, porém, há ruídos. A arbitragem com o Estado ainda enfrenta contestação em temas sensíveis de direito público, o que abre espaço para judicializações preliminares que atrasam decisões.
No licenciamento ambiental, a complexidade multilateral, envolvendo Ibama, Ministério Público Federal, estados e ritos distintos, cria um ecossistema em que os conflitos raramente encontram solução rápida.
A Margem Equatorial ilustra isso com clareza. Mais de um ano de impasse representou custo real para projetos exploratórios.
No mercado global, onde o capital é móvel e disciplinado, a incerteza regulatória pesa. A Agência Internacional de Energia (IEA) mostra que o dinheiro flui para onde a relação risco-retorno é clara e, no upstream, as empresas escolhem poucos destinos prioritários.
O Brasil segue competitivo. O pré-sal, com produtividade e custo imbatíveis, continua atraindo majors e viabilizando decisões finais de investimento. Ainda assim, a margem competitiva pode ser corroída, não por falta de recurso, mas por ruído institucional.
É isso que leva investidores a priorizarem o pré-sal e a postergarem fronteiras de maior risco, como a Margem Equatorial.
No fim, o dilema brasileiro é menos sobre geologia e mais sobre previsibilidade. O país oferece segurança jurídica suficiente para manter investimentos robustos, mas ainda aquém das jurisdições consideradas de primeira linha em estabilidade regulatória.
O apetite estrangeiro existe, mas vem acompanhado de prudência e de uma exigência de retorno maior.
A oportunidade está posta: alinhar qualidade do recurso com qualidade da previsibilidade. Quando isso acontece, o capital deixa de ser oportunista e passa a ser estrutural.
Julia Borges da Mota é advogada e sócia-fundadora do escritório Murayama, Affonso Ferreira e Mota Advogados, especialista no setor de petróleo e gás.
Thiago Bandeira é advogado no escritório Murayama, Affonso Ferreira e Mota Advogados.
