Os preços do barril de petróleo iniciaram a quarta-feira (8/4) em queda, após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas na guerra dos Estados e Israel contra o Irã, mas analistas indicam que as cotações ainda devem seguir mais altas do que antes do conflito e que os sinais para uma queda sustentável são frágeis.
O contrato do Brent com vencimento em junho de 2026 operava com queda de 14,7%, cotado a US$ 93 na manhã de quarta (8).
O principal fator que vai influenciar a trajetória dos preços nos próximos dias é a abertura efetiva do Estreito de Ormuz para o trânsito de navios petroleiros, um dos pontos previstos no acordo de interrupção do conflito.
Segundo agências internacionais, dois navios chegaram a passar pelo estreito na quarta (8), mas a passagem foi novamente interrompida após ataques de Israel no Líbano.
“Ainda precisamos ver navios efetivamente passando pelo canal e ter alguma confiança de que não voltaremos a grandes ameaças e ataques em duas semanas”, diz o analista de pesquisa da Janus Henderson Investors, Noah Barrett.
Na visão de Barrett, o acordo é um “primeiro passo importante”, mas os preços do petróleo devem seguir elevados em relação aos níveis pré-conflito, devido às interrupções em infraestruturas importantes e ao prêmio de risco elevado no mercado internacional.
Para o pesquisador da FGV Energia, João Victor Marques, a volatilidade nos preços seguirá pelo menos até o final deste ano.
Ele concorda que as incertezas geopolíticas permanecem e que o uso do bloqueio ao Estreito de Ormuz como ferramenta de guerra continuará impactando o mercado.
“É um acordo frágil, a gente ainda não tem clareza dos próximos passos. Vai depender do que estiver sendo negociado e se durante essa negociação vão ocorrer ataques”, diz.
Alívio na logística?
No curto prazo, há uma expectativa de que o cessar-fogo, mesmo que temporário, ajude a destravar a logística na região. Ao todo, cerca de 800 navios seguem travados no Golfo Pérsico.
Entretanto, as companhias de navegação devem testar a rota com cautela, com percursos limitados ou experimentais, mantendo os prêmios de risco elevados, segundo a analista de petróleo da Argus, Sarah Raffoul.
“Neste contexto, uma normalização significativa ou mesmo parcial dentro da janela de cessar-fogo de duas semanas parece improvável”, afirma.
A Argus calcula que a entrega de petróleo aos mercados asiáticos demora de duas a quatro semanas, dependendo do destino. Por isso, a chegada física de maiores volumes ao mercado, de fato, só voltaria a ocorrer em maio.
Além disso, uma eventual reabertura completa da passagem deve ocorrer com a cobrança de pedágios e taxas de tráfego, conforme o acordo anunciado entre Irã e Omã.
Com isso, a passagem pela região será mais cara do que antes da guerra, o que também terá impactos sobre os preços do barril.
“Apesar da consolidação do cessar-fogo, existe ainda uma ampla divergência em relação à diversos pontos demandados para o fim da guerra, o que deve dificultar um acordo de paz definitivo”, diz o especialista de Inteligência de Mercado da StoneX, Bruno Cordeiro.
O mais provável é que a janela do cessar-fogo abra espaço para compras oportunistas pelas refinarias, na visão do vice-presidente de Mercados de Petróleo da Rystad Energy, Janiv Shah.
“Contudo, ajustes nos contratos futuros não se traduzem em um retorno imediato às condições pré-conflito, o que vai depender da força do mercado físico”, diz Shah.
Após o anúncio do cessar-fogo, a consultoria atualizou as projeções da média do Brent em 2026 de US$ 97 para US$ 87 por barril.
