Petróleo

Atlanta e o prêmio maior

O OTC Achievement Award for Companies era virtualmente inalcançável para uma companhia do porte da Brava. Mas a sorte bafeja os bravos, escreve Décio Oddone

Atlanta e o prêmio maior

Em setembro de 2020, o campo de Atlanta produzia através de um projeto piloto, que precisava ser substituído. O grande desafio da Enauta era implementar o Sistema Definitivo de Produção, mas a pandemia tinha jogado o preço do petróleo para baixo e o sócio desistiu do projeto. Decidimos seguir sós.

O consórcio de majors que tinha descoberto a acumulação teve dificuldade para perfurar e completar os poços. Havia dúvidas quanto à capacidade do petróleo pesado fluir até a superfície em águas tão profundas. O sistema antecipado instalado em 2018 comprovou que essas operações poderiam ser executadas com sucesso, mas era preciso substituir o piloto por um sistema definitivo, com mais poços e um novo navio-plataforma.

Se tratava de um gigantesco desafio tecnológico, de execução e de financiamento. Menos de 2% dos megaprojetos (aqueles com investimento acima de US$ 500 milhões) são concluídos no prazo e no orçamento. Nesse caso, não havia espaço para problemas nem desvios.

Ao refletir sobre como conduzir o processo lembrei de um antigo colega, Carlos Mastrangelo. Fizemos parte da mesma turma no curso de engenharia de petróleo da Petrobras. Enquanto eu tinha iniciado minha carreira como engenheiro nas perfurações pioneiras que identificaram os primeiros campos gigantes em águas profundas na Bacia de Campos, ele fez parte da equipe que viabilizou o uso de FPSO (navio-plataforma capaz de produzir, armazenar e descarregar petróleo), fundamental para o crescimento da produção de petróleo no Brasil.

Um ano antes, justamente pelo papel no desenvolvimento do conceito do FPSO, Mastrangelo havia sido agraciado com o Offshore Technology Conference (OTC) Achievement Award for Individuals. Presente na cerimônia, me emocionei ao ver um colega ser reconhecido daquela forma.

Era o profissional adequado para conduzir o projeto. Fiz uma ligação e indaguei de quantos projetos de FPSO havia participado. Tinham sido 18. Convidei para que trabalhasse no 19º, perguntando se já tinha estado em um projeto com um grande grau de autonomia, sem ser submetido às regras das grandes companhias. Sabia a resposta: nenhum. E que esse era um ponto atraente. Falei que Atlanta seria o primeiro, pois a empresa era pequena e o processo decisório, ágil. Ainda fiz uma última provocação, em tom de brincadeira: vem trabalhar comigo e vamos ganhar o bicampeonato da OTC.

Ele acabara de receber o prêmio individual. Eu, no final dos anos 1980, tinha sugerido colocar uma planta de processo em uma sonda de perfuração que não estava sendo utilizada para instalar um sistema pré-piloto no campo de Marlim. Esse projeto acabou trazendo o primeiro prêmio da OTC para a Petrobras, em 1992, motivo de imenso orgulho para a companhia e para o Brasil. Não sem razão. Se tratava da maior honraria da indústria offshore, uma espécie de Oscar ou Nobel do setor. Guardo até hoje com carinho a cópia que recebi.

Achei que tinha sido convincente, mas não contava com o imponderável. Sua mãe, nonagenária, morava no Posto Seis, em Copacabana, o que pesou na decisão de Mastrangelo deixar a família em Houston e vir para o Brasil.

Começamos a desenhar o improvável. O sucesso na perfuração dos poços tinha levado a equipe liderada por Jacques Salies, que recebeu o OTC Brasil Distinguished Achievement Award for Individuals em 2023, a preparar, em 2019, um artigo intitulado “Drilling the Undrillable” (“Perfurando o Imperfurável”, em português), que tinha sido um sucesso. Passei a inibir o uso dessa expressão. Não queria que a percepção de que havia muitos desafios acabasse prejudicando. Preferi só vir a ressaltá-los se os superássemos.

Desenhamos um projeto simples, com o mínimo de inovações possível. Compramos, no risco, um FPSO de oportunidade, sem o qual o projeto não se viabilizaria, e optamos por usar ao máximo os equipamentos já existentes no navio e no sistema submarino.

Buscamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa ao longo da vida do empreendimento. Aprovamos o investimento em fevereiro de 2022. Congelamos a engenharia e proibimos alterações. Desenvolvemos um modelo de gestão ágil, com uma equipe pequena, mas dedicada e adequadamente incentivada, baseado na seriedade, na credibilidade e numa parceria com os principais fornecedores (Constellation, Baker Hughes, One Subsea, Sapura, Prysmian, Altera e Yinson) com quem mantínhamos reuniões regulares de comitê diretivo, no mais alto nível das organizações.

Desenvolvemos uma relação de respeito e transparência com os órgãos reguladores, ANP e Ibama. Atravessamos a pandemia, a crise na cadeia de suprimentos ocasionada pela invasão da Ucrânia e a fusão da Enauta com a 3R para criar a Brava. Atraímos um parceiro, a Westlawn.

Não foi fácil. Foi punk, como eu gosto de dizer. Em vários momentos estivemos a ponto de perder prazos, o que teria causado impacto nos custos, mas conseguimos. Em dezembro de 2024, tiramos o primeiro óleo. O orçamento foi cumprido. O nível de segurança foi elevado.

Apesar da alta exposição ao risco, com quase dez milhões de horas-homem trabalhadas, não ocorreram acidentes com afastamento de trabalhadores. Nada disso teria sido possível sem o suporte dos investidores, capitaneados por Antônio Augusto Queiroz Galvão, e de um conjunto de conselheiros que sempre deu apoio e liberdade à equipe.

Em abril de 2025, Carlos Travassos substituiu Mastrangelo e conduziu a conexão dos últimos dois poços. Ele também já tinha participação em um prêmio da OTC, o da revitalização de Marlim em 2024.

Com o fim do projeto de Atlanta, restava o sonho inatingível, o OTC Achievement Award for Companies, virtualmente inalcançável para uma companhia independente do porte da Brava. Mas a sorte bafeja os bravos. O documentário “Conquistando Atlanta” já tinha mais de 375 mil visualizações no YouTube. Estávamos preparados para concorrer. A provocação em tom de brincadeira virou desafio e a Brava ganhou o OTC Distinguished Achievement Award for Companies em 2026. O improvável tinha sido reconhecido.

Foi uma excitante jornada. Não só perfuramos o imperfurável e completamos o incompletável. Produzimos o improduzível. Executamos o inexecutável. Sonhamos o insonhável. E ganhamos o inganhável. Em inglês, soa melhor: “we have not only drilled the undrillable and completed the uncompletable. We have produced the unproducible, executed the unexecutable, dreamed the undreamable and won the unwinnable”.

O prêmio nos enche de orgulho e reafirma a maturidade da indústria brasileira de petróleo.


Décio Oddone foi o CEO da Enauta e da Brava Energia durante a concepção e implantação do Sistema Definitivo de Atlanta.

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