A recuperação da indústria de petróleo da Venezuela passa, antes de qualquer mudança regulatória ou abertura ao investimento estrangeiro, pela reconstrução da estatal PDVSA. Segundo David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), “a primeira coisa é ter uma PDVSA forte”, capaz de operar e servir de referência em um eventual novo modelo para o setor.
Em entrevista ao estúdio eixos, nesta segunda-feira (5/1), Zylbersztajn afirma que qualquer redesenho do setor venezuelano exigirá, além de uma PDVSA fortalecida, um ambiente regulatório estável e instituições sólidas — condições que, segundo ele, ainda não existem no país.
Confira a entrevista na íntegra.
“Hoje, com a PDVSA do jeito que está, é impossível. Você tem que ter um ambiente regulatório que a Venezuela não tem”, diz, ao avaliar que o futuro do setor dependerá de uma governança ainda incerta.
Segundo ele, a experiência brasileira mostra que a abertura só funcionou porque havia uma empresa nacional estruturada.
“Se a Petrobras não fosse apta a concorrer no mercado, do mercado ela pereceria”, afirma, ao comparar o processo no Brasil com o cenário venezuelano. Para Zylbersztajn, tentar repetir o modelo brasileiro sem uma estatal funcional seria inviável.
O ex-diretor da ANP aponta que a estatal perdeu seu principal ativo ao longo dos anos: a capacidade técnica. “A Venezuela perdeu o principal ativo operacional, que são as cabeças”, diz, referindo-se à saída de quadros qualificados durante o período do chavismo.
Ainda assim, avalia que, em um prazo menor do que o necessário para novos projetos exploratórios, o país poderia voltar a ofertar petróleo ao mercado.
A eventual retomada da produção venezuelana, no entanto, pode ter efeitos que vão além do país. Zylbersztajn alerta que a entrada de volumes adicionais de petróleo no mercado global tende a pressionar preços e pode atrasar a transição energética.
“O petróleo mais barato vai atrasar e vai prejudicar a entrada de fontes diferentes de combustíveis fósseis”, diz, destacando que decisões de investimento em tecnologias limpas dependem diretamente do preço dos combustíveis fósseis.
Na avaliação do ex-diretor da ANP, o petróleo continua sendo um elemento central no atual rearranjo geopolítico envolvendo a Venezuela, mas não mais por necessidade energética dos Estados Unidos.
Ele afirma que, com o avanço do shale oil e do shale gas, o país deixou de ser dependente de importações. “O petróleo, na realidade, é um pivô nesse processo, mas hoje não é uma necessidade dos Estados Unidos”, avalia.
Zylbersztajn vê a movimentação americana muito mais ligada a uma estratégia geopolítica do que energética, especialmente pelo papel da Venezuela na articulação com países como China, Rússia, Irã e Cuba.
Ele observa que, embora o petróleo venezuelano represente apenas cerca de 3% a 4% da demanda chinesa, responde por algo próximo de 80% das exportações do país sul-americano, quase integralmente concentradas em óleo.
No curto prazo, o impacto da Venezuela sobre o mercado global tende a ser limitado, segundo ele, porque a recuperação da produção não é imediata.
Outros pontos tratados pelo ex-diretor da ANP
- Crise venezuelana com características atípicas e alta incerteza sobre desdobramentos e governança.
- Petróleo como pivô geopolítico, mais relevante como ativo estratégico do que como dependência energética dos EUA.
- Disputa de influência internacional, com presença de Cuba, Rússia, Irã e China na estrutura de poder da Venezuela.
- Reorientação da política externa americana, com foco estratégico renovado na América do Sul.
- Relação Venezuela–China é pouco relevante para a demanda chinesa, mas crucial para as exportações venezuelanas de petróleo.
- Mercado global sobreofertado, com impacto limitado no curto prazo, mas risco de nova queda nos preços do petróleo.
- Petróleo estruturalmente barato, abaixo dos níveis reais da década passada, pressionando a viabilidade de projetos.
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