PIPELINE. Petrobras triplica número de clientes em 2025 e reassume liderança no mercado livre de gás natural. Estatal diversifica base e passa a buscar consumidores com volumes menores.
Abegás leva discussão sobre classificação de gasodutos ao STF. Eduardo Braga na relatoria da MP 1304. LRCAP 2026 tenta pacificar disputa sobre térmicas a gás. Brava anuncia estação de gás na Bahia e mais. Confira:
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A Petrobras entrou de vez no mercado livre de gás natural e reassumiu, este ano, a liderança no segmento – que nasceu ancorado em contratos da estatal em 2021, mas que só começou a ganhar tração em 2024 a partir da chegada dos comercializadores privados.
Ao todo, a estatal triplicou a sua base de clientes livres no primeiro semestre deste ano e se tornou a empresa com maior número de consumidores nesse ambiente de contratação.
Levantamento da agência eixos, com base em dados públicos da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), mostra que a Petrobras captou 12 novos clientes industriais no primeiro semestre.
Segundo a própria Petrobras, o volume contratado pela companhia na modalidade alcançou os 6 milhões de m³/dia no segundo trimestre – o que equivale a cerca de 14% do gás vendido pela empresa no período.
A investida da estatal no mercado livre se intensificou, sobretudo, após o seu reposicionamento comercial em 2024, para fazer frente à concorrência.
E após a entrada em operação da unidade de processamento do Complexo Boaventura (RJ), que ampliou em 21 milhões de m³/dia a capacidade de processamento de gás nacional. Na semana passada, a estatal ultrapassou os 50 milhões m³/dia de gás processado em suas UPGNs. Um marco.
“A gente empreendeu um esforço muito grande para melhorar essa logística, para botar mais gás em terra, para melhorar os contratos, para atender mais o mercado da forma que nós achamos que ele merece”, afirmou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, em entrevista ao episódio de estreia da edição 2025 do energy talks. Assista a entrevista na íntegra
A seguir, a gas week traça um raio-x do avanço da Petrobras no mercado livre.
E por falar em abertura do mercado… As perspectivas de importação de gás argentino, na janela do verão, foi assunto do episódio #005 do videocast gas week, com Pablo Campana, gerente da unidade Brasil da Pluspetrol; e Gabriela Aguilar, vice-presidente da Excelerate Energy para a América do Sul. Assista
Petrobras reduz preços e amplia flexibilidade
Magda afirmou em suas redes sociais, na semana passada, que a empresa tem conseguido entregar o seu gás, hoje, no mercado livre, a um preço de US$ 6 a US$ 7 o milhão de BTU, nos contratos mais flexíveis.
Um ganho de competitividade inegável em relação aos valores praticados há um ano atrás – de US$ 9 a US$ 11 o milhão de BTU, nos contratos com as distribuidoras – mas que reflete aspectos conjunturais.
A queda (gradual) dos preços da companhia é uma combinação entre a oferta de contratos com melhores condições comerciais no mercado livre; e a desvalorização recente dos preços internacionais do petróleo – parte importante da indexação dos contratos e que ajudou a puxar o preço do gás para baixo nos últimos meses.
E não é só preço. No mercado livre, o consumidor tem acesso também a condições mais flexíveis de suprimento, em relação ao mercado cativo.
A Petrobras ampliou o cardápio de prazos, pontos de entrega e indexadores disponíveis. Em outubro de 2024, a companhia lançou, por exemplo, um pacote com 48 combinações comerciais possíveis. Parte do reposicionamento da petroleira, de olho no avanço de concorrentes.
Afinal, a chegada de novos concorrentes desconcentrou o mercado – ainda que não o suficiente para mudar estruturalmente o setor e ameaçar a posição de agente dominante da estatal.
Bruno Resende, gerente de Gestão de Gás da NewGas (consultoria criada em 2024 por ex-membros da Comerc), cita que o reposicionamento comercial da Petrobras vem mexendo com a dinâmica concorrencial.
“Quando o mercado livre começou a dar seus primeiros passos, o preço estava, numa ordem de grandeza, acima de 11% do Brent. Desde o segundo semestre de 2024, principalmente agora, com a entrada da Petrobras em 2025, e com outros players, a gente já tem observado que essa precificação está abaixo da casa dos 11%”, comenta.
Petrobras mira consumidores menores
A ofensiva da Petrobras no mercado livre passa pela diversificação de sua atuação no segmento.
Até então concentrada no setor siderúrgico, com consumos maiores, a estatal passou a explorar este ano novos nichos industriais – e que trabalham com volumes menores que aqueles nos quais a petroleira focava inicialmente.
Foi nesse movimento que a companhia colocou o pé na indústria ceramista, ao fechar um contrato de comercialização de gás com a Portobello – principal consumidor industrial de gás de Santa Catarina.
A indústria ceramista é o segmento que reúne o maior número de consumidores livres no Brasil e vinha, até então, sendo um dos principais nichos de mercado de comercializadores concorrentes (Edge, MGás e Galp).
Na sequência, a petroleira avançou sobre outros segmentos, como as indústrias de vidro e química.
Resende, da NewGas, conta que a Petrobras, até então, atendia grandes consumidores, numa faixa acima de 300 mil m³/dia, mas que a companhia vem “descendo a escadinha” e atende, hoje, usuários acima de 50 mil m³/dia.
A lógica está em vender volumes menores para mais consumidores. Resende cita que um forno, na indústria ceramista, demanda cerca de 20 mil m³/dia, mas que o Polo Cerâmico de Santa Gertrudes (SP) possui mais 20 indústrias que somam uma capacidade de consumo de 2,2 milhões a 2,3 milhões de m3/dia.
A primeira indústria do polo a fechar com a Petrobras foi o Grupo Rocha, que se prepara, em 2026, para ampliar o seu consumo de gás em cerca de 20%. A partir do ano que vem, a companhia vai introduzir o processo de produção de “via úmida” – adição de água na mistura das matérias-primas, o que aumenta a qualidade e homogeneização da massa, mas por outro lado amplia os custos de produção.
O novo processo produtivo aumenta a necessidade de se buscar ganhos de eficiência no gás – responsável por cerca de 30% dos custos de uma indústria ceramista. E também pede mais flexibilidade.
“O consumo de um atomizador [que faz a secagem do processo] não é fixo, ele pode ser intermitente. É diferente dos fornos que nós temos pela via seca, que tem uma demanda flat. Então a gente vai precisar mais de flexibilidade”, disse o gerente de controladoria do Grupo Rocha, Alan Mattos.
Petrobras lidera ranking do mercado livre
Ao todo, a Petrobras tinha, ao fim do primeiro semestre, contratos com 18 clientes livres diferentes, sendo que 12 deles foram captados em 2025.
Veja a lista completa de clientes da petroleira:
- Gerdau (siderurgia) 2021
- Refinaria de Mataripe (refino) 2021
- Proquigel (química) 2021
- CSN (siderurgia) 2024
- Arcelor Mittal (siderurgia) 2024
- Ternium (siderurgia) 2024
- Suzano (papel e celulose) 2025
- Dexco (ceramista) 2025
- Usiminas (siderurgia) 2025
- Peróxidos do Brasil (química) 2025
- Aperam Inox América do Sul (siderurgia) 2025
- PBG – Portobello (ceramista) 2025
- Nadir Figueiredo (vidro) 2025
- Mohawk Revestimentos Cocal do Sul (ceramista) 2025
- Grupo Rocha (ceramista) 2025
- Araucária Nitrogenados (fertilizantes) 2025
- Vallourec (soluções tubulares) 2025
- Guardian do Brasil (vidros) 2025
Com isso, a Petrobras reassumiu, este ano, a liderança do mercado livre, em número de consumidores.
Veja a seguir o número de clientes livres por fornecedor:
- Petrobras (18 consumidores)
- Galp (17)
- Edge (10)
- Shell (8)
- MGás (7)
- Eneva (4)
- BTG Pactual Commodities (2)
Origem Energia (2) - Brava Energia (1)
MTX (1)
Voqen (1)
Celba (1)
*O levantamento considera o número de clientes livres industriais com contratos ativos, segundo os dados mais atualizados da ANP.
** Contratos de gás spot não são contabilizados
*** Plantas diferentes do mesmo grupo econômico são contabilizadas como um único consumidor
GÁS NA SEMANA
Judicialização. Abegás ajuíza ADI para derrubar trechos da Lei do Gás de 2021 que atribuem à ANP a competência para definir os critérios técnicos para classificação de gasodutos de transporte.
- O conflito federativo em torno do assunto foi tema do episódio do energy talks de quarta (27/8). Assista na íntegra
- Na sexta (29/8), conversamos com a CEO da MSGás, Cristiane Schimdt, sobre o tema; e também sobre a renovação da concessão. Confira
Eduardo Braga assume MP 1304. O senador do MDB/AM assumiu, na quarta-feira (27/8), a relatoria da MP dos Vetos. Caberá ao ex-ministro de Minas e Energia decidir sobre a disputa em torno do leilão do gás da União; e sobre os artigos do governo federal para regular o escoamento e processamento.
ANP renovada. O presidente Lula (PT) assinou a nomeação de Artur Watt e Pietro Mendes como novos diretores da agência.
LRCAP. O secretário nacional de Transição Energética, Gustavo Ataide, defendeu que separar as térmicas conectadas à malha de gasodutos das usinas desconectadas visa distensionar a disputa em torno do leilão.
- As novas diretrizes do Leilão de Reserva de Capacidade e seus desdobramentos sobre o mercado de gás foram temas do episódio de terça (26/8) do energy talks. Confira
Gás na Bahia. A Brava Energia vai instalar uma estação de compressão e carregamento de gás em carretas em São Francisco do Conde (BA), com capacidade de 115 mil m³/dia. O início do fornecimento está previsto para junho de 2026.
Data centers. O gás natural poderá garantir a confiabilidade no fornecimento de energia diante da demanda de novos data centers no Brasil, defende a vice-presidente da Equinor no país, Claudia Brun.
Certificados de biometano. A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil) prorrogou para 8/9 o prazo da consulta pública sobre a criação do certificado de garantia de origem do biometano paulista.
Em Santa Catarina, a Aresc prorrogou até 23/9 o prazo para envio das contribuições à Política Estadual do Biogás e do Biometano.