NESTA EDIÇÃO. Descomissionamento de usinas a carvão quadruplicou na União Europeia em 2024 e Reino Unido concluiu a eliminação gradual da fonte.
No sentido contrário, China e Índia ampliam adições de capacidade fóssil.
EUA segue em marcha lenta em direção à saída do carvão.
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Levantamento do Global Energy Monitor (.pdf) publicado na quinta (3/4) mostra que o descomissionamento de usinas a carvão na Europa avançou em 2024, com 24 dos 27 países membros da União Europeia projetando o fim da dependência do combustível fóssil até 2033.
No ano passado, as aposentadorias no bloco quadruplicaram em relação a 2023, num total de 11 GW – sendo 6,7 GW apenas na Alemanha. Já Irlanda e Espanha devem encerrar a geração de eletricidade a carvão em 2025.
Enquanto isso, fora da UE, o Reino Unido concluiu a eliminação gradual da fonte fóssil na sua matriz.
Mas em outros lugares, a transição está mais lenta. Nos Estados Unidos, as aposentadorias caíram para 4,7 GW – o menor total anual do país desde 2014, em uma desaceleração que começou em 2021.
O estudo observa, no entanto, que a saída dos EUA do carvão tende a ganhar ritmo nos próximos anos, independente do apoio do governo Trump à fonte.
“Mais carvão foi aposentado durante o primeiro mandato de Trump do que sob Obama ou Biden — uma tendência que deve continuar”, diz o relatório.
A China, maior consumidora global, estabeleceu no plano quinquenal 2021-2015 a meta de descomissionar 30 GW de termelétricas a carvão. O país, no entanto, está ampliando sua capacidade: em 2024, foram adicionados 30,5 GW — 70% do total global — e 94,5 GW começaram a ser construídos.
Isso contribuiu para que a capacidade global de carvão aumentasse para 2.175 GW – 259 GW a mais desde que o Acordo de Paris foi assinado em 2015.
A Índia também registrou seu maior nível de novas propostas de carvão, totalizando 38,4 GW. Aliás, China e a Índia sozinhas são responsáveis por 87% da capacidade de energia a carvão em desenvolvimento no mundo, calcula o monitor.
No Brasil, o dilema da transição justa do Sul
Combustível fóssil com a maior pegada de carbono e a pior taxa de eficiência energética, o carvão mineral responde por cerca de 4% da geração de eletricidade no Brasil, mas foi o grande responsável pelo aumento das emissões por GWh na geração termelétrica em 2023.
As usinas carboníferas brasileiras – concentradas na região Sul – enfrentam agora o dilema da transição energética. Elas tentam encontrar uma forma de dar longevidade aos ativos, ao mesmo tempo em que organizações ambientais apontam a insustentabilidade econômica de manter essas térmicas em operação.
“No período de 2020 a 2024, o governo brasileiro gastou uma média de R$ 1,07 bilhão anualmente em subsídios para a geração de eletricidade a carvão. Os subsídios governamentais para combustíveis fósseis também continuam a superar aqueles para energias renováveis, apesar de estas atraírem mais investimentos estrangeiros”, aponta a Arayara, ONG que contribuiu com o capítulo sobre Brasil no estudo do Global Energy Monitor.
Em fevereiro, a discussão sobre recontratação das usinas termelétricas a carvão no Brasil chegou ao governo federal com o pedido do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), ao Ministério de Minas e Energia pela edição de uma medida provisória para a recontratação da usina de Candiota.
Comprada em 2023 da Eletrobras pela Âmbar Energia, a UTE Candiota teve o fim do contrato em dezembro do ano passado.
A expectativa era que a situação fosse equacionada no marco legal das eólicas offshore, que previa a extensão dos contratos das termelétricas a carvão até 2050. O trecho foi vetado pelo presidente Lula (PT) da versão final do texto, que aguarda confirmação pelo Congresso.
Cobrimos por aqui
Curtas
De volta para o petróleo. A BP decidiu dissolver sua equipe destinada a desenvolver projetos de mobilidade com hidrogênio, gás natural liquefeito (GNL) e elétrica, principalmente para caminhões, como parte da estratégia anunciada em fevereiro para aumentar investimentos em óleo e gás, informou o Financial Times na quinta-feira (3/4).
Leilão das térmicas 1. Contratação mais aguardada do ano pelo setor de energia elétrica brasileiro em 2025, o leilão de reserva de capacidade será cancelado pelo Ministério de Minas e Energia, com a revogação da portaria que instituiu a contratação nesta sexta-feira (4/4). O ministério pretende abrir consulta pública com diretrizes para um novo leilão.
Leilão das térmicas 2. A Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia (Abrage) lamentou o cancelamento do leilão e afirmou que as geradoras hidrelétricas podem até mesmo antecipar a entrada em operação de projetos para disponibilizar potência adicional ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Fiscalização de combustíveis. MME e Ministério da Gestão e Inovação definiram na quinta (3/4) os procedimentos para doação de equipamentos à ANP que permitirão verificar in loco a mistura de biodiesel em postos de combustíveis. A medida busca combater fraudes no setor.
Abertura do mercado livre. Oferecer um assessor energético que identifica de forma personalizada as oportunidades de eficiência e redução de custos com energia de uma empresa, é a proposta da Neoenergia para captar clientes no concorrido mercado de comercialização brasileiro. Essa, em meio à abertura do ambiente livre a todos os consumidores de média e alta tensão a partir de 2024, a companhia investe no auxílio ao cliente na migração.
Sustentabilidade adiada. A União Europeia adiou a aplicação de regras de ‘due diligence’ e relatórios de sustentabilidade para empresas do bloco. A medida faz parte de um esforço para que as regulamentações ESG europeias sejam adiadas ou simplificadas. (Reset)
Artigos da semana
Transição justa do carvão, uma política social Consumidor está arcando com R$ 40 bilhões por ano em subsídios e uma “transição” que não resolve estruturalmente o problema social, avalia Mariana Amim
Governo precisa “vender” hidrogênio brasileiro Embora o governo brasileiro demonstre grande preocupação em desenvolver mercado doméstico, notadamente, o mercado internacional se desenvolverá mais rapidamente, escreve Gabriel Chiappini
Desafios e tendências da transição energética na Era Trump No curto prazo, certeza de que haverá inflação, escreve Mauro Andrade
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Gestão sustentável de resíduos e os desafios da recuperação energética Avanços legislativos sobre logística reversa não garantem destinação adequada de resíduos no Brasil, escrevem Luciana Gil e Thais Monteiro