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Os vários Brasis na corrida contra a crise climática

Anuário Estadual de Mudanças Climáticas alerta para ritmo lento de planos de ações frente ao aumento dos eventos extremos

Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas em Juiz de Fora(MG) com deslizamentos, desmoronamentos e desalojados, em 1º de março de 2026 (Foto Tânia Rego/Agência Brasil)
Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas em Juiz de Fora (MG) com deslizamentos, desmoronamentos e desalojados (Foto Tânia Rego/Agência Brasil)

NESTA EDIÇÃO. Anuário mostra fragmentação na resposta dos estados às mudanças climáticas.

Falta coordenação e integração entre planos de mitigação e adaptação, além de orçamento.


EDIÇÃO APRESENTADA POR:

Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piauí e São Paulo são as únicas unidades da federação com planos concretos para reduzir emissões de gases de efeito estufa, mostra a 2ª edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas.
 
Capital do petróleo, o Rio de Janeiro está elaborando o seu. Assim como, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Sul e Sergipe. 
 
O documento lançado esta semana pelo Centro Brasil no Clima (CBC) e Instituto Clima e Sociedade (iCS) identifica um contraste entre avanço institucional e intensificação dos desastres.
 
E alerta que o ritmo da execução das políticas climáticas precisa superar o dos impactos, que em 2024 custou cerca de R$ 38 bilhões aos cofres públicos.
 
O mapeamento mostra que, embora 18 estados brasileiros possuam estratégias para lidar com as mudanças climáticas — planos de ação ou diretrizes para orientar a gestão climática estadual — o cenário é de “profunda assimetria” entre as unidades da federação.
 
Por exemplo, apenas quatro possuem planos de ação climática (PLACs) que integram, de forma conjunta, os temas de mitigação e adaptação: Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Piauí. 
 
Realizada no Brasil, em novembro de 2025, a COP30 injetou energia nos governos da Bahia, Alagoas, Rio Grande do Sul, Sergipe e Ceará, que aproveitaram a mobilização em torno dessa agenda para iniciar a elaboração dos seus PLACs. 
 
Ainda assim, o desafio persiste para 21 unidades federativas que ainda não apresentam planos climáticos completos, aponta o documento.



No tema de adaptação, a adesão também é baixa. Apenas quatro UFs concluíram planos específicos: Distrito Federal, Rondônia, São Paulo e Rio de Janeiro (este em atualização). 
 
Enquanto Espírito Santo, Pernambuco, Ceará, Tocantins e Piauí estão elaborando os seus.
 
“Os estados que mais precisam de planejamento climático são exatamente os que menos têm capacidade institucional de elaborá-lo”, alertam as organizações.
 
gestão de riscos é o que mais mobiliza os governos subnacionais: dezoito unidades da federação estabeleceram planos de contingência voltados ao enfrentamento de eventos climáticos extremos, como estiagens, enchentes e inundações.
 
São eles: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Roraima, São Paulo, Sergipe e Tocantins.

Quase todo mundo tem uma política climática. Apenas Acre, Minas Gerais e Rio Grande do Norte aparecem no relatório com o marcador “previsto”, e Goiás “em revisão”.
 
Mas o grande destaque do anuário é a inserção do orçamento climático na gestão pública.
 
Estados como Acre, Espírito Santo e Rio Grande do Norte já passaram a integrar metas ambientais diretamente ao planejamento financeiro. 
 
Ao mesmo tempo, unidades da federação com déficit orçamentário ou recursos concentrados em funções obrigatórias (educação, saúde, previdência) enfrentam barreiras para conseguir vincular o orçamento a ações climáticas.
 
É o caso de Alagoas, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Piauí e Rio de Janeiro, aponta.
 
Nesse cenário, a resposta vem de mecanismos como REDD+, mercados de carbono e o fomento à bioeconomia ou parcerias público-privadas (PPP).
 
“O orçamento climático emerge como uma das inovações mais relevantes do período. Estados que começaram a identificar e rastrear despesas associadas à mitigação e adaptação dão um passo qualitativo na governança pública”, destaca o relatório. 
 
“A vinculação entre planejamento orçamentário e metas ambientais sinaliza maturidade institucional e melhora a capacidade de atrair financiamento climático”, completa.
 
Oito estados possuem instrumentos financeiros dedicados à mitigação e adaptação: 

  • Amazonas: apesar de enfrentar dificuldades com dotação orçamentária, o Fundo Estadual de Mudanças Climáticas do Amazonas (FEMUCS-AM) busca parceria com BNDES e Fundo Amazônia para execução de projetos de bioeconomia;
  • Espírito Santo: o Fundo Cidades-Adaptação utiliza blended finance e royalties para adaptação municipal; 
  • Mato Grosso do Sul: Fundo Estadual de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (PROCLIMA-MS) prioriza a neutralidade de carbono via linhas de crédito subsidiadas para agropecuária sustentável;
  • Piauí: o Fundo Clima Piauí Verde (FunClima-PI) centraliza recursos da venda de créditos de carbono e destina-os exclusivamente a ações de mitigação e adaptação, combate à pobreza e educação socioambiental, sob gestão do Conselho Gestor de REDD+ do Piauí;
  • Rondônia: Fundo de Governança Climática e Serviços Ambientais (FunClima-RO) estruturado para governança de ativos ambientais e créditos de carbono;
  • Santa Catarina: o Fundo Estadual de Mudanças Climáticas (FMUC-SC) é voltado à mitigação e adaptação costeira;
  • São Paulo: o Finaclima-SP foca na eletrificação do transporte e resiliência urbana; 
  • Tocantins: em estruturação, o Fundo Estadual de Mudanças Climáticas do Tocantins (FunClima-TO) também será dedicado à gestão de créditos de carbono.

Reserva de combustíveis. O presidente Lula (PT) defendeu, nesta sexta (20/3), a necessidade de o país criar uma reserva estratégica de combustíveis, para regular preços e garantir abastecimento em caso de instabilidade internacional.

  • “Eu falei para a Magda [Chambriard, presidente da Petrobras]: isso não é uma coisa rápida, é uma coisa que leva tempo, mas é uma coisa estratégica que a Petrobras e o governo têm que pensar”, disse, em evento de anúncio de investimentos da empresa em Minas Gerais.

Minerais críticos. Na quinta (19), em São Bernardo do Campo, o presidente também defendeu que as terras raras e os minerais críticos existentes no Brasil são “a forma de recuperarmos a cidadania da América do Sul”. A fala de Lula foi uma resposta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem demonstrando interesse em explorar esses minérios do Brasil.
 
Hidrogênio no Mover. O MDIC publicou nesta sexta (20/3) a portaria que detalha as soluções consideradas estratégicas no programa de incentivos Mobilidade Verde. A lista vai desde baterias para veículos híbridos ou elétricos até sistemas de armazenamento para eletropostos, passando por soluções a hidrogênio, estas com o maior peso no índice de complexidade tecnológica.
 
Leilão das térmicas. O 3º LRCAP, realizado nesta sexta (20/3), contratou, 501,321 MW de potência disponível, com um deságio de 50,14%. A energia será gerada por termelétricas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel.
 
Renovação de concessões. O MME abriu, nesta sexta, uma consulta pública sobre a AIR das diretrizes e regras para a contratação e atuação de Verificador Independente nas concessões e permissões de distribuição de energia elétrica. Prazo para envio de contribuições vai até 6 de abril.

O Brasil já tem uma matriz limpa, o desafio agora é outro Substituição de hidrelétricas por fontes renováveis intermitentes resulta em modelo que penaliza quem sustenta a confiabilidade do sistema, escreve Marisete Pereira
 
Potência comprada, tecnologia importada: os limites do LRCAP 2026 para fortalecer a indústria brasileira de baterias Ausência de cláusulas industriais na minuta do LRCAP de armazenamento tende a favorecer a cadeia global já dominada por poucos fornecedores estrangeiros, escreve André Tokarski
 
A carta das biossoluções no baralho da transição Proposta da Coalizão pelos Biocombustíveis para o mapa da transição brasileira traz maturidade ao debate, mas biossoluções não podem ser única saída, avalia Pedro Guedes

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