NESTA EDIÇÃO. Mesmo com trilhões investidos globalmente em transição, América Latina ainda enfrenta desafios para garantir suprimento de energia.
Caso de Porto Rico evidencia como infraestrutura precária e alto custo de capital atrasam a descarbonização em economias de renda média e baixa.
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A apresentação do rapper porto-riquenho Bad Bunny no maior evento esportivo dos EUA no último fim de semana conquistou a internet com as referências que homenageiam a América Latina e Caribe.
Do chapéu de palha às cadeiras de plástico tão típicas de botecos e churrascos que conhecemos, o show foi carregado de alfinetadas sobre o momento político que os Estados Unidos vivem (CNN). Para quem é do setor de energia, outros símbolos também chamaram a atenção.
Já próximo do final, Bad Bunny e seus bailarinos dançam sobre explosivas linhas de transmissão, enquanto canta a música “El Apagón”.
O artista denuncia os apagões constantes que Porto Rico sofre desde o Furacão Maria, em 2017, com uma música que fala sobre negligência, deslocamento, e uma ilha tratada como colônia descartável. (Rolling Stone)
Porto Rico é um território não incorporado dos EUA que fica a 1,6 mil km (cerca de 2h30 de vôo) de Miami.
Mas a proximidade com o país que no ano passado investiu US$ 378 bilhões em transição energética (BloombergNEF) — apesar de uma redução significativa dos incentivos públicos da gestão de Donald Trump — só revela disparidades.
A atual crise na rede elétrica levou a ilha caribenha a revisar suas metas de transição energética, eliminando o objetivo de chegar a 40% de energia renovável até 2025 e 60% até 2040. (BNAmericas)
Além de permitir que a termelétrica a carvão de Guayama, de 450 MW, continue operando até 2032.
A meta de 100% de energia renovável até 2050 segue inalterada. A prioridade, contudo, é a estabilidade no fornecimento, hoje majoritariamente atendido por combustíveis fósseis.
Fazer a transição requer grandes investimentos em infraestrutura, o que esbarra no custo de capital.
Não é um caso isolado. Educação, infraestrutura e custo de capital são os três principais obstáculos para nações da América Latina e Caribe destravarem seu potencial e surfar a onda da economia de baixo carbono, a exemplo de mercados ricos, segundo o Banco Mundial.
Ao mesmo tempo em que a ALC é cobiçada pela Europa e Ásia por seus recursos minerais e energéticos — minerais críticos e hidrogênio são exemplos — parte de sua população ainda está à margem de serviços básicos.
Desafio para o mapa do caminho
Na COP30, em Belém, Brasil e Colômbia tomaram iniciativas para trazer a discussão sobre o afastamento dos combustíveis fósseis para a América Latina, em estratégias distintas que buscam, acima de tudo, garantir que as necessidades energéticas locais sejam levadas em conta nos acordos internacionais.
E abandonar os fósseis não é uma tarefa fácil ou simples.
Estimativas (.pdf) da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde) indicam que serão necessários cerca de 1.000 GW adicionais de capacidade de geração elétrica até 2050, para um cenário de emissões líquidas zero, combinado a 80 GW em bancos de baterias.
O custo é calculado em aproximadamente US$ 1,5 trilhão por ano, dos quais 90% corresponderiam à capacidade renovável.
Isso requer uma reorientação do capital global, hoje concentrado basicamente em três mercados.
Dos US$ 2,3 trilhões investidos em transição energética em 2025, mais de 70% ocorreu na China (US$ 800 bilhões), União Europeia (US$ 455 bilhões) e EUA (US$ 378 bilhões), mostra a BNEF.
Na ALC, o Brasil é o único que aparece entre os 10 com maior volume de investimentos em transição, com US$ 38 bilhões em 2025 — bem distante dos principais mercados.
Cobrimos por aqui
Curtas
Acordo Mercosul-UE. A análise pelo Congresso Nacional do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi interrompida, nesta terça-feira (10/2), após pedido de vista do deputado Renildo Calheiros (PCdoB/PE). A reunião da Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul deverá ser retomada no dia 24 de fevereiro, a partir das 10h.
Leilão das térmicas. A diretoria da Aneel aprovou nesta terça-feira (10/2) os editais dos leilões de reserva de capacidade (LRCAPs) e concluiu, assim, uma das últimas etapas formais para viabilizar a realização dos certames, previstos para março. A divulgação dos preços-teto da concorrência, no entanto, sacudiu os ânimos do mercado.
De olho nos reservatórios. As chuvas registradas nas últimas semanas melhoraram a situação dos reservatórios das hidrelétricas, confirmou o ONS. Ainda assim, o atraso no período úmido segue impactando as negociações de contratos, com aumentos nos preços.
Distribuição de gás. O governo do Estado do Rio de Janeiro decidiu que vai abrir uma licitação para as concessões de gás canalizado da CEG e CEG Rio, atualmente operadas pela Naturgy e cujos contratos vencem em julho de 2027. A Naturgy havia solicitado em 2024 a prorrogação dos contratos por mais 30 anos, o que deu início ao processo formal de avaliação da renovação.
Combustíveis puxam inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro ficou em 0,33%, exatamente a mesma variação registrada em dezembro de 2025. O grupo Transportes, com 0,6% de variação, foi o que teve maior impacto.

