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Logística e validação em motores travam B17

Governo descarta aumento da mistura de biodiesel para B17. Falta de testes e capilaridade logística são entraves

12/03/2026 | Anúncio de medidas para reduzir o impacto da oscilação do preço internacional do petróleo. Foto: Henrique Raynal/Casa Civil
12/03/2026 | Anúncio de medidas para reduzir o impacto da oscilação do preço internacional do petróleo. Foto: Henrique Raynal/Casa Civil

NESTA EDIÇÃO. Governo avalia que limites de oferta e ausência de validação acima de B15 inviabilizam avanço da mistura de biodiesel.

Agro tentou emplacar 17% de biodiesel no diesel sob o argumento de redução de preços.


EDIÇÃO APRESENTADA POR:

O governo federal descartou nesta quinta (12/3) a antecipação do aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel para 17% (B17), como medida para mitigar os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços dos derivados de petróleo.
 
Apesar da pressão do agronegócio para acelerar o cronograma, o governo entende que a elevação de percentual depende de estudos técnicos e da evolução da oferta do biocombustível derivado de óleos vegetais e gorduras no mercado doméstico.
 
“Tem que ser feito sob estudos técnicos objetivos, com transparência e participação da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e das universidades”, disse a jornalistas o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD).
 
“Não pode ser feito para prejudicar os consumidores de óleo diesel”, completou durante coletiva de imprensa para anúncio de medidas para reduzir o preço do diesel nas refinarias.
 
Lei do Combustível do Futuro assegurou novos tetos, tanto para o biodiesel, que pode chegar a B25 (25% de mistura), quanto para o etanol (E35).
 
Mas a evolução dos percentuais depende de uma decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e condicionada a uma etapa de validação dos combustíveis nos motores.
 
A sinalização de Silveira no início desta tarde foi um banho de água fria no setor. A reunião do CNPE que deveria ocorrer hoje foi adiada para 19 de março, em meio a tentativas do agro de incluir o B17 na pauta, o que burlaria a demanda por testes caso aprovado.
 
Para alguns produtores de biodiesel, o fato de diferentes montadoras já terem garantias para o uso de B20 seria suficiente para validar o aumento, sem ter que esperar por análises que podem levar até 14 meses para ficar prontas.
 
Fontes consultadas pela eixos indicam que, se houver investimento em ampliação de bancadas, o prazo para conclusão de testes pode cair para quatro meses. Mesmo assim, não seria para efeito imediato do aumento, como quer o agro.



Embora o governo aponte que a atual adição de 15% de biodiesel ajude a mitigar a vulnerabilidade do mercado de diesel aos conflitos externos, limites na oferta do renovável levantam dúvidas sobre o real efeito de percentuais superiores na redução de preços.
 
“A Lei do Combustível do Futuro sinaliza tanto ao mercado de biodiesel quanto de etanol o crescimento da sua participação. Mas esse crescimento tem que acompanhar a curva de oferta desses produtos, senão gera aumento de preços”, explicou o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT/BA).
 
Ao mesmo tempo em que produtores de biodiesel apontam que têm capacidade ociosa para atender uma demanda maior do que a atual, próxima a 10 bilhões de litros/ano, a alta concentração das usinas no Sul e Centro-Oeste do país encarece a logística de distribuição para o Norte e Nordeste — já que o mandato é nacional.
 
“Antes dessa crise, o [preço do] biodiesel ainda era um pouco superior ao do diesel da Petrobras. Por que? Por questão de oferta e de capilaridade para fazer a mistura. Ele tem que ser levado de onde tá a produção para ser misturado”, aponta o ministro.
 
A visão do governo é que, a partir de uma previsão dada pelo Combustível do Futuro de aumento da demanda, novos investimentos em usinas irão ampliar a oferta, melhorando a relação custo-benefício dos avanços de mistura.
 
Mas, como o nome da lei diz, é algo para o futuro.
 
“Subir artificialmente, sem garantia da oferta, impacta em [aumento de] preço imediato para o consumidor”, completa.


Prioridade ao refino doméstico.  O governo federal anunciou, a partir de hoje (12/3), um imposto temporário sobre a exportação de petróleo bruto e de diesel, como parte de um pacote de medidas para evitar o aumento do preço do diesel nas bombas. A medida estabelece alíquotas de 12% e 50%.
 
Queda na oferta. A IEA reduziu drasticamente sua previsão de avanço da oferta de petróleo um dia após uma liberação histórica de estoques emergenciais, à medida que a guerra no Oriente Médio prejudica os fluxos através de uma das rotas de trânsito de petróleo mais críticas do mundo.
 
Choque do petróleo. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou, nesta quinta-feira (12/3), que a Rússia não deve receber alívio de sanções por parte de Washington, em meio às discussões sobre a segurança do abastecimento global de energia diante da guerra com o Irã. A declaração contrasta com comentários recentes de Donald Trump.
 
Geopolítica do gás. O aprofundamento da guerra no Oriente Médio poderá frear as aspirações de expansão das majors no Catar e nos Emirados Árabes e redirecionar investimentos em GNL para outras regiões do planeta. A Rystad Energy avalia que o bloqueio de Ormuz terá implicações para além do impacto imediato sobre os preços. 
 
Acordo Mercosul-UE. O vice-presidente e ministro, Geraldo Alckmin, afirmou, nesta quinta-feira (12/3), que o acordo Mercosul-União Europeia deve ser sancionado até a semana que vem e entrar em vigor em 60 dias.
 
Carbono do Cerrado. Estudo publicado nesta quinta-feira (12) na revista científica New Phytologist mostra que áreas úmidas do Cerrado podem armazenar cerca de 1,2 mil toneladas de carbono por hectare, até seis vezes mais do que a densidade média na Amazônia. É a primeira avaliação detalhada dos estoques de carbono presentes nos solos de veredas e campos úmidos. (Agência Brasil)
 
Renovação das distribuidoras. TCU deu aval para os processos de renovação de mais três distribuidoras de energia elétrica: Energisa Paraíba, Energisa Mato Grosso do Sul e RGE Sul. A palavra final sobre a renovação é do MME.

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