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Com guerra no pano de fundo, produtores correm para destravar mistura de biodiesel

Produtores de biodiesel querem acelerar testes com mituras superiores a B15 para avançar com cronograma de aumentos

Produtores correm para destravar mistura de biodiesel. Foto: Cadu Gomes/VPR
08-04-2026-André Nassar (Abiove) e Jerônimo Goergen (Aprobio) recebem o vice-presidente Geraldo Alckmin durante lançamento da AliançaBiodiesel. Foto: Cadu Gomes/VPR

NESTA EDIÇÃO. Lançada em Brasília, AliançaBiodiesel pressiona para realização, ainda este ano, de estudos para aumentar participação no diesel.

Testes são técnicos e vão avaliar questões como desempenho em motores e impactos logísticos. Avançar com a mistura, por outro lado, depende de apoio político.


EDIÇÃO APRESENTADA POR:

Produtores de biodiesel estão pressionando o governo para a realização, em até cinco meses, dos testes de validação do uso do combustível renovável em proporções superiores aos 15% adotados atualmente no país.
 
Na quarta (8/4), em Brasília, Aprobio (biodiesel) e Abiove (óleos vegetais) lançaram oficialmente a AliançaBiodiesel, uma fusão entre as demandas das duas associações para o curto e médio prazo.
 
Reunindo 16 fabricantes de biodiesel que operam 33 plantas, o grupo responde por 63,7% da capacidade de produção de biodiesel do Brasil. E o primeiro foco está nos testes para aumento da mistura.
 
Sancionada em outubro de 2024, a lei do Combustível do Futuro trouxe cronogramas de aumentos de 1 ponto percentual ao ano na adição ao diesel fóssil, o que criou a expectativa no setor de avançar para 16% (B16) este ano.
 
Mas esse cronograma está condicionado a testes de validação que ainda não ocorreram e é justamente este ponto que a dupla quer atacar.
 
Neste meio tempo, a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã conturbou o mercado global de energia, com os preços do petróleo disparando e, consequentemente, pressionando as importações de diesel.
 
Um cenário que fez o agronegócio brasileiro abraçar a pauta de aumento de mistura de biodiesel, com organizações defendendo, inclusive, um salto para B17 — o que foi descartado pelo governo por questões logísticas e necessidade dos testes.
 
“Nosso pleito principal é aproveitar o momento de escalada das tensões no Oriente Médio e alta do petróleo para fazer os testes o mais rápido possível, em quatro ou cinco meses”, resumiu na cerimônia de lançamento da aliança o presidente da Abiove, André Nassar.
 
Segundo Nassar, a proposta de testes — que devem avaliar desempenho em motores, estabilidade da mistura e impactos logísticos — está posta, mas chegou atrasada devido à dificuldade de organizar todos os agentes do setor.



A pressão para acelerar os testes — e aumentar a mistura obrigatória — ocorre em meio a um contexto de tensões geopolíticas que tem dado ao setor de energias renováveis mais um argumento a seu favor e contra a dependência de combustíveis fósseis.
 
Mas apesar de o governo brasileiro reconhecer que os biocombustíveis reduzem a exposição do mercado doméstico à volatilidade do petróleo, por enquanto, não há perspectiva de ampliar a mistura.
 
“Eu acho que as chances de termos o aumento ainda em 2026 são baixas, mas nosso objetivo é ter os testes ainda este ano”, disse o presidente da Abiove na quarta. 
 
“É uma questão técnica, não é uma questão política. Não há razão para não fazer [os testes]”, completou.
 
Em março, durante o anúncio do primeiro pacote voltado a reduzir o preço do diesel, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT/BA) explicou que, além da questão dos testes,  limites na oferta do renovável levantam dúvidas sobre o real efeito de percentuais superiores na redução de preços.
 
Ao mesmo tempo em que produtores de biodiesel apontam que têm capacidade ociosa para atender uma demanda maior do que a atual, próxima a 10 bilhões de litros/ano, a alta concentração das usinas no Sul e Centro-Oeste do país encarece a logística de distribuição para o Norte e Nordeste — já que o mandato é nacional.
 
“A Lei do Combustível do Futuro sinaliza tanto ao mercado de biodiesel quanto de etanol o crescimento da sua participação. Mas esse crescimento tem que acompanhar a curva de oferta desses produtos, senão gera aumento de preços”, justificou Costa, na época.
 
De lá para cá, coube ao biodiesel lutar pela equiparação ao diesel nos benefícios fiscais concedidos ao derivado de petróleo, o que rendeu um desconto de dois centavos
 
Anunciado na segunda (6) pelo Ministério da Fazenda dentro do pacote para conter a alta dos combustíveis, o decreto que zera as alíquotas de PIS e Cofins sobre o biodiesel foi recebido pelo setor como um sinal favorável para a expansão do renovável.
 
“Ao zerar os tributos sobre o biodiesel, o governo passa a tratar de forma mais justa a parcela renovável da mistura, reconhecendo seu papel estratégico”, comemorou o presidente da Aprobio, Jerônimo Goergen.
 
Para a associação, a medida abre uma oportunidade para avançar no aumento da mistura obrigatória, já que o biodiesel passa a ser “potencialmente mais barato” do que o diesel fóssil.
 
“Não faz sentido, portanto, direcionar recursos públicos para subsidiar a importação de combustíveis, quando o Brasil já possui capacidade industrial instalada para atender misturas de até 22% de biodiesel com produção nacional”, defende Goergen.


Mapa do caminho. Os mais de sete mil indígenas que participam, nesta semana, do Acampamento Terra Livre, em Brasília, entregaram ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, suas propostas para o mapa do caminho para afastamento dos combustíveis fósseis. Entre elas, a exclusão de exploração de petróleo e gás em territórios indígenas. (Agência Brasil)
 
Petróleo fecha em alta. Ainda impulsionado por prêmios de risco diante das tensões elevadas no Oriente Médio, o Brent para junho avançou 1,23% (US$ 1,17), a US$ 95,92 o barril, nesta quinta-feira (9/4). Já o petróleo WTI para maio fechou em alta de 3,66% (US$ 3,46), a US$ 97,87 o barril.
 
Reembolso do leilão de GLP. A Petrobras informou nesta quinta (9/4) que vai devolver parte dos valores pagos por distribuidores de gás de cozinha nas compras realizadas por meio do leilão de 31 de março, quando o combustível foi vendido, em algumas regiões, por mais que o dobro do preço. A decisão foi tomada após o presidente Lula determinar publicamente o cancelamento do leilão.
 
Operação Vem de Diesel. A Polícia Federal deflagrou a segunda etapa da operação que fiscaliza distribuidores e revendedores de gás de botijão — gás liquefeito de petróleo (GLP). As ações de fiscalização abrangeram 24 cidades em 15 estados e no Distrito Federal. 
 
Liminar com IA? A decisão liminar concedida por pela 1ª Vara Federal do Rio de Janeiro, determinando a derrubada do imposto de exportação de 12% sobre o petróleo, transcreve trechos e foi fundamentada em parágrafos da lei que não existem. A decisão foi tomada na quarta (8/4), em mandado de segurança a pedido de petroleiras internacionais.
 
Etanol a bordo. A Vale anunciou nesta quinta (9/4) um acordo com a Shandong Shipping Corporation para afretamento de dois navios movidos a etanol. As embarcações serão entregues a partir de 2029. O acordo marca a introdução do biocombustível no frete transoceânico de minério de ferro.
 
Transição justa. A EDP abre hoje as candidaturas à 8ª edição do Fundo A2E (Access to Energy), para apoiar projetos de energia renovável em comunidades rurais remotas e desfavorecidas em cinco países: Brasil, Moçambique, Quênia, Maláui e Nigéria. Com investimento global de 1 milhão de euros, o fundo procura projetos em áreas relacionadas a educação, saúde, água, comunidade e negócios. 
 
Trainee na Eneva. A operadora de gás natural está com inscrições abertas para o seu Programa de Trainee 2026. A iniciativa é voltada a profissionais que tenham concluído a graduação entre julho de 2023 e dezembro de 2025. As inscrições vão até o dia 30 de abril.

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