NESTA EDIÇÃO. Marina Silva defende plano para transição dos fósseis no Brics, mas deve enfrentar resistências sobre o tema.
Declaração conjunta de ministros de Meio Ambiente cita transição justa, mas evita mencionar combustíveis fósseis.
EDIÇÃO APRESENTADA POR
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva (Rede), defendeu nesta quinta (3/4) que os membros do Brics cooperem no desenvolvimento de um plano global para o fim da dependência dos combustíveis fósseis, considerando as diferenças entre os países, suas necessidades e dificuldades.
“Esse esforço urgente deve ser liderado pelos países desenvolvidos produtores e consumidores de energia, seguido pelos países em desenvolvimento”, discursou durante a abertura da 11ª Reunião de Ministros de Meio Ambiente do Brics.
“No caso dos combustíveis fósseis, fonte de cerca de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa, é inadiável desenvolvermos um plano internacional que nos leve, de maneira justa e ordenada, para o fim da dependência que o mundo ainda tem dessa fonte de geração de energia”, defendeu.
Presidente rotativo do Brics em 2025, o Brasil pretende usar o fórum de países do Sul Global para mobilizar acordos na COP30, em Belém (PA).
Na agenda dos combustíveis fósseis, o discurso dominante é o de que é preciso ir com calma – apesar da urgência ditada pelo clima –, respeitando o tempo dos países emergentes em desenvolvimento.
Isso porque, formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e, mais recentemente, Indonésia, o Brics responde por quase metade da produção mundial de petróleo e é composto por grandes consumidores de carvão.
“Nós precisamos fazer um esforço para ajudar uns aos outros para fazer essa transição para o fim de combustível fóssil e de desmatamento. As duas coisas ao mesmo tempo”, disse Silva a jornalistas após a reunião.
“Cada país é soberano para ter sua trajetória, mas o que eu particularmente tenho insistido é que a gente deve fazer uma mudança, um mapa do caminho, planejar esse mapa do caminho para que a gente possa mudar antes que a gente seja mudado”, completou.
Fósseis fora de declaração conjunta
Nesta quinta, ministros de Meio Ambiente do Brics também divulgaram uma declaração conjunta com plano de trabalho para dar sequência ao acordo de cooperação 2025-2027.
O tema “combustíveis fósseis” não é abordado explicitamente na declaração. Há, no entanto, três menções a transição justa, conceito que o Brasil tem defendido desde a presidência do G20, em 2024, e que tem como fundo o entendimento de que é preciso diferenciar as responsabilidades e o ritmo de substituição de petróleo, gás e carvão.
O documento também faz uma menção à declaração final da COP28, o que, já deixaria implícito esse compromisso, já que, exceto o Irã, todos os outros membros do Brics assinaram o documento de Dubai, onde se fala pela primeira vez na transição para longe dos combustíveis fósseis.
“Reconhecemos que temos grandes contribuições práticas que já estão sendo feitas e alguns de nós com alta tecnologia para transformação ecológica. E, obviamente, que temos o objetivo de implementar. Que a COP30 seja a COP da implementação, isso ninguém tem dúvida, e o que está decidido é que nós temos que triplicar renovável, duplicar a eficiência energética, fazer a transição justa e planejada para o fim dos combustíveis fósseis e que seja justa para todos”, disse a ministra.
Alemanha, China, EUA e Canadá primeiro
Um estudo apresentado oficialmente na quarta (2/4) pelo Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), em parceria com a consultoria Catavento, aponta que Alemanha, China, Estados Unidos e Canadá estão em melhor posição para liderar “a transição para longe dos combustíveis fósseis”, acordado na COP28.
O documento, que também conta com parceria do Instituto Clima e Sociedade (iCS), vai integrar a mensagem do IBP à COP30, em defesa da continuidade da exploração e produção de óleo no Brasil.
O país integra o grupo intermediário da análise em termos de posicionamento para transição dos fósseis – chamado movers (em movimento).
Assim como Rússia, Noruega e Emirados Árabes Unidos, o Brasil está entre as economias que possuem um papel significativo na indústria de O&G, mas estão investindo em energia limpa e possuem capacidades institucionais e sociais para avançar na transição.
Enquanto Índia, Arábia Saudita e Nigéria enfrentam desafios significativos devido à alta dependência dos combustíveis fósseis e às dificuldades econômicas e institucionais para viabilizar a transição.
Cobrimos por aqui
Curtas
CCS na Bahia. Petrobras e Braskem vão estudar oportunidades de projetos de captura e armazenamento de carbono (CCS, em inglês) na Bahia. Um memorando de entendimento assinado pelas duas companhias na semana passada prevê a análise de potenciais modelos de negócio mutuamente benéficos na economia de baixo carbono.
Gás para data centers. Distribuidoras de gás natural do Nordeste enviaram, na quarta (2/4), uma carta conjunta ao MME solicitando a inclusão do gás natural e do biometano em uma política para data centers. O grupo cita a edição de um decreto que estaria sendo desenhado para estimular a energias renováveis para abastecimento de data centers. Entretanto, a pasta não anunciou oficialmente a existência deste decreto.
Biodiesel para os EUA. A Be8 planeja fazer a primeira grande exportação de biodiesel para a Califórnia neste ano, afirmou à agência eixos o presidente da companhia, Erasmo Carlos Battistella. A produtora de biocombustíveis divulgou, nesta quinta-feira (3/4), que sua unidade de Passo Fundo (RS) se tornou a primeira empresa da América do Sul a receber a certificação da California Air Resources Board (Carb) para fazer a comercialização para o estado norte-americano.
De olho nos elétricos. Pesquisa da PwC aponta que 75% dos consumidores brasileiros estão interessados em adquirir veículos elétricos até 2029, maior intenção de compra da categoria entre países da América Latina. Além disso, nenhum dos proprietários de veículos elétricos entrevistados durante a pesquisa disse que voltaria a usar modelos com motor de combustão interna.
Sem energia. Os brasileiros ficaram, em média, 10,24 horas sem energia no ano passado, redução de 1,7% em relação a 2023. Já o fornecimento de energia foi interrompido, em média, 4,89 vezes por consumidor, queda de 5%. Os dados fazem parte do relatório de desempenho das distribuidoras na continuidade do fornecimento de energia elétrica em 2024 divulgado pela Aneel.