NESTA EDIÇÃO. Acelen inaugura centro de tecnologia em Minas Gerais para escalar macaúba.
Companhia planeja produção de 1 bilhão de litros de SAF e diesel verde na Bahia a partir de 2028.
EDIÇÃO APRESENTADA POR
O presidente Lula (PT) participou nesta sexta (29) da inauguração oficial do Centro de Tecnologia e Inovação Agroindustrial da Acelen Renováveis, em Montes Claros, norte de Minas Gerais, onde se espera viabilizar economicamente o uso da macaúba na produção de combustíveis renováveis.
Com investimentos de R$ R$ 314 milhões, Agripark contou com R$ 258 milhões financiados pelo BNDES.
O plano da companhia é produzir, anualmente, 1 bilhão de litros de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, em inglês) e diesel verde a partir de 2028. Começando com óleo de soja e UCO (óleo de cozinha usado), já disponíveis no mercado.
Já o óleo de macaúba deve ser introduzido gradualmente, conforme os projetos de florestas plantadas em terras degradadas, em Minas Gerais e na Bahia, mostrem resultados.
A aposta não é casual: a palmeira nativa do Brasil tem alto poder energético, sendo de 7 a 10 vezes mais produtiva por hectare plantado em comparação com a soja — sua principal concorrente na produção de biocombustíveis a partir de óleos vegetais.
No entanto, a extração desse óleo em escala renovável ainda dá os primeiros passos.
Escala é um fator determinante para o sucesso de uma fonte em setores energéticos. O caso da mamona, há mais de 20 anos, quando o Brasil lançou seu programa de biodiesel é um lembrete de que oferta abundante e escala comercial não necessariamente andam juntas.
A ideia de tornar a mamona um vetor de desenvolvimento da agricultura familiar no semiárido fracassou diante da baixa eficiência no cultivo, desafios logísticos e a concorrência com a soja. O episódio foi lembrado por Lula nesta sexta.
A própria macaúba já viveu essa história, no início da década, quando o município mineiro de Juiz de Fora lançou a Plataforma de Bioquerosene e Renováveis da Zona da Mata.
No projeto de biorrefino da Acelen, a palmeira está ganhando uma nova chance. A meta é chegar a 20% do fornecimento de macaúba em parceria com a agricultura familiar.
Enquanto a missão do Agripark inaugurado hoje com a presença de Lula e os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia) é tornar o óleo economicamente viável.
Em fevereiro deste ano, a equipe do Agripark anunciou a primeira extração de óleo em fluxo contínuo em escala industrial da macaúba, algo que até então só tinha ocorrido em ambientes laboratoriais.
80% vendido
O óleo de macaúba terá como destino a biorrefinaria que a Acelen está construindo na Bahia, com investimentos estimados em US$ 3 bilhões.
O projeto foi incluído no novo PAC do Governo Federal e na Plataforma de Investimentos em Transformação Climática e Ecológica do Brasil (BIP). Também foi selecionado pelo Acelerador de Transição Industrial (ITA), iniciativa lançada na COP28 para apoiar projetos de descarbonização.
Globalmente, a demanda por SAF está aquecida e a previsão é de um salto, já a partir de 2027, quando começa a fase obrigatória do Corsia, um acordo internacional da aviação civil com metas para neutralidade climática até 2050.
Além disso, países na Europa, Ásia e até mesmo os EUA já possuem ou estão implementando mercados cativos para o combustível renovável.
Por aqui, para cumprir a lei do Combustível do Futuro, companhias aéreas precisarão substituir cerca de 1% do querosene convencional para cumprir o mandato de descarbonização das operações a partir de 2027.
É neste cenário que o projeto da Acelen vai ganhando impulso: a companhia afirma que já tem 80% da sua produção futura de SAF vendida.
“Já temos os contratos de off-take para 80% do volume, 20% a gente vai deixar no mercado spot porque nos dá oportunidade de arbitrar. A planta é flexível, SAF e diesel renovável (HVO), isso dá um preço mínimo aceitável também”, disse o CEO da Acelen, Luiz de Mendonça, durante um evento no Rio há duas semanas. Leia na agência eixos
Cobrimos por aqui
Curtas
R$ 9,7 bi para mobilidade. O presidente Lula também anunciou nesta sexta-feira (29/8) que projetos incluídos no Novo PAC Seleções 2025 somam R$ 9,7 bilhões em investimentos no transporte público em diversos estados. O pacote inclui obras de infraestrutura em grandes e médias cidades e a renovação da frota de ônibus e trens, para veículos menos poluentes.
Carvão no LRCAP. A participação de Candiota III no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026 é “economicamente inviável”, pelos parâmetros de flexibilidade exigidos pelo MME, informou a Âmbar Energia. A empresa do grupo J&F opera a usina desde 2024, após comprá-la da Eletrobras.
- A companhia respondeu às críticas de entidades ligadas aos consumidores de energia, que questionaram a inclusão das usinas a carvão no LRCAP e a adoção de critérios técnicos de flexibilidade menos restritivos para a fonte.
- O MME, por sua vez, justifica que a inclusão da fonte fóssil busca ampliar a concorrência, garantindo melhores preços ao consumidor.
Separação de térmicas. O secretário nacional de Transição Energética, Gustavo Ataide, também defendeu que separar as térmicas a gás natural conectadas da malha de gasodutos das usinas desconectadas do sistema de transporte no LRACP busca distensionar a disputa na concorrência marcada para 2026.
Reciprocidade. O governo brasileiro acionou a Camex para início da aplicação da Lei de Reciprocidade econômica contra os Estados Unidos, em resposta ao tarifaço de 50% aplicado pelos EUA contra produtos brasileiros. Segundo o vice-presidente e ministro, Geraldo Alckmin (PSB), a intenção é avançar com negociações.
- O presidente Lula (PT) disse que não há pressa: “Nós temos que dizer para os Estados Unidos que nós temos coisas para fazer contra os Estados Unidos. Mas eu não tenho pressa, porque eu quero negociar”, afirmou à Rádio Itatiaia.
Carbono oculto. O senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB/PB), presidente da frente parlamentar da energia no Congresso Nacional, apresentou uma emenda nesta quinta (28/8) na proposta de regulamentação da reforma tributária para combater as fraudes nas importações de nafta e outros insumos utilizados na elaboração de gasolina.
Clima extremo. As mudanças climáticas fizeram com que os incêndios florestais na Turquia, Grécia e Chipre neste verão queimassem com muito mais intensidade. Estudo da World Weather Attribution mostra que incêndios forçaram 80 mil pessoas a abandonarem suas casas.
Consumo de eletricidade no Brasil somou 45.177 GWh em julho de 2025, alta de 0,6% em relação ao mesmo mês de 2024, informou a EPE. O resultado interrompe três meses consecutivos de retração na demanda, puxado pelas residências.
Artigos da semana
Hidrogênio e o Sul Global: colonialismo ou desenvolvimento? Região precisa se questionar se seus recursos energéticos e minerais serão vetor de industrialização e inclusão social, ou servirão apenas para perpetuar assimetrias históricas, analisa Gabriel Chiappini
Rumo ao carbono negativo: o potencial brasileiro para liderar o mercado global de CCS País combina experiência em reservatórios, biomassa e indústria diversificada, mas enfrenta lacunas regulatórias e desafios econômicos para consolidar CCS, escrevem Luiz Gustavo Bezerra e Gedham Gomes