NESTA EDIÇÃO. Enquanto EUA ampliam a aposta em fósseis, Ásia e Europa reforçam visão de renováveis como segurança energética no longo prazo.
Primeiro leilão de transmissão de 2026 tem todos os lotes arrematados e deságio acima de 50%.
Aneel define bandeira tarifária verde para abril.
Mineração vai precisar de mais tecnologia para enfrentar alta na demanda por minerais críticos e evitar lacunas no suprimento.
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Guerra no Oriente Médio completa um mês e redefine estratégias para óleo, gás e renováveis
Após um mês do início da guerra no Oriente Médio, completado no sábado (28/3), começam a ficar mais claros os rumos traçados pelos países para lidar com a crise no setor de energia depois da maior interrupção nos fluxos globais de petróleo e gás em cinco décadas.
Enquanto os Estados Unidos buscam reforçar o papel dos combustíveis fósseis e impulsionar a energia nuclear, países da Ásia e da Europa enxergam um papel um protagonismo ainda maior para as energias renováveis na garantia da segurança energética, indicaram representantes dessas regiões durante participação na CERAWeek 20026 na semana passada, em Houston, no Texas.
A Ásia é a região mais afetada pela interrupção das exportações pelo Estreito de Ormuz, com impactos mais severos sobre países em desenvolvimento, como Paquistão, Índia e Taiwan.
- A diversificação de fontes se fortaleceu no discurso das regiões que são grandes importadoras da Rússia e do Oriente Médio, em busca de maior segurança.
- Esse processo já começou: nos últimos dias, Taiwan anunciou que vai reabrir usinas nucleares, por exemplo. (Valor/Nikkei Asia)
A Índia, que tem desafios similares aos do Brasil para reduzir a pobreza energética, também segue em busca de um mix energético mais plural: quer ampliar o uso de baterias para uma melhor integração da solar e eólica ao sistema elétrico e avalia, em paralelo, iniciativas para a injeção de biometano na rede de gás.
- Ao mesmo tempo, está se preparando para realizar em maio o primeiro leilão offshore para áreas de exploração e produção de óleo e gás, em busca de parcerias para descobrir o potencial desse segmento.
- “Há muito espaço para parcerias nessa área, especialmente porque ampliar a produção nacional de gás é muito importante”, disse em Houston o diretor geral de Hidrocarbonetos do Ministério de Petróleo e Gás da Índia, Srikant Nagulapalli.
No caso da China, eólica, solar e baterias são também uma oportunidade de negócios, já que o país é o principal fornecedor global de componentes para essas fontes — e vê uma competição mais acirrada com os EUA nessa cadeia, devido às tarifas.
- “As energias renováveis continuam a ter um papel central não apenas para a segurança, mas também para a equidade da transição, para a geração de empregos e para a sociedade”, disse o vice-presidente global da empresa chinesa de tecnologia solar LONGi Green Energy Technology, Eric Luo.
- “Dado o que está acontecendo hoje, a renovável tem um custo menor do que os combustíveis fósseis”, acrescentou, se referindo ao contexto asiático em meio à alta no preço do petróleo.
- Na visão de Luo, a tendência não é de que ocorra uma desaceleração na adoção das renováveis, mas sim uma reorganização das cadeias de suprimentos.
Mas, mesmo depois de quatro semanas do conflito, permanecem as incertezas sobre a reação do setor financeiro e a disponibilidade de capital para investimentos nas renováveis de agora em diante.
- Executivos da indústria reconhecem que o risco político é, de longe, a maior barreira para viabilizar os investimentos.
A diretora-geral de Energia da Comissão Europeia, Ditte Jørgensen, reconheceu que o custo da transição é alto, mas lembrou que o resultado será uma menor dependência das importações de combustíveis fósseis.
- “A transição é o nosso caminho para a segurança, para a competitividade, para a sustentabilidade, mas ao mesmo tempo, que chegar lá é complexo”, disse.
Leia também: Para onde vai o mercado global de GNL?
Enquanto isso, no Brasil… O principal impacto da crise até o momento é a alta no preço do diesel. A resposta do governo foi o pacote que inclui a isenção de impostos federais, a criação de uma taxa de exportação e uma subvenção.
- A ANP aprovou a proposta de regulamentação do pagamento de subvenção na sexta-feira (27/3), com a criação de um piso para atualização dos preços de referência que amplia a cobertura das vendas da Petrobras.
Fiscalização nos combustíveis. A Polícia Federal deflagrou, na sexta-feira (27), a Operação Vem Diesel para fiscalizar postos de combustíveis nas capitais de 11 estados e no Distrito Federal. O objetivo é identificar possíveis práticas irregulares de aumento de preços nas bombas em meio à guerra no Oriente Médio.
Preço do barril. Os contratos futuros do petróleo fecharam novamente em alta na sexta-feira (27), com sinalizações conflitantes sobre um diálogo entre os EUA e o Irã para um cessar-fogo, ainda que o presidente norte-americano, Donald Trump, tenha pausado os ataques à infraestrutura energética iraniana até 6 de abril.
- O Brent para junho subiu 3,37% (US$ 3,43), a US$ 105,32 o barril. Na semana, recuou 6,12%.
Judicialização. A Shell Brasil avalia com “grande chance” recorrer ao Judiciário contra o imposto de exportação de 12% sobre petróleo criado pelo governo federal em 12 de março.
- A afirmação foi feita por Flávio Ofugi Rodrigues, vice-presidente de Relações Corporativas e Sustentabilidade da Shell Brasil, em entrevista aos estúdios eixos, na CERAWeek 2026.
Papel do gás. A guerra no Irã criou um choque de segurança energética global sem precedentes desde 2022, mas o Brasil reúne condições para sair na frente — com reservas, demanda reprimida e capital disponível. A avaliação é de Demétrio Magalhães, CEO da Edge, empresa do grupo Cosan focada no mercado livre de gás natural, em entrevista ao estúdio eixos gravada diretamente da CERAWeek 2026, em Houston.
R$ 3 bi em transmissão. O primeiro leilão de transmissão de energia de 2026, realizado na sexta (27), terminou com todos os cinco lotes arrematados e um deságio médio de 50,68% sobre a Receita Anual Permitida (RAP) máxima estabelecida pela Aneel — o maior percentual registrado para desde 2020.
Opinião. O Brasil acertou ao colocar a transmissão de volta no centro da agenda. Agora, precisa aprofundar esse movimento com uma agenda de Estado: mais integração regional acompanhada de governança robusta, e melhor eficiência institucional na passagem do planejamento para a obra, escreve a vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina, Marcela Souza.
Sem custo adicional. A Aneel definiu que a bandeira tarifária verde será mantida em abril. Com isso, os consumidores brasileiros não irão arcar com custos adicionais nas contas de energia.
- De acordo com a agência, o volume de chuvas de março resultou em um nível satisfatório nos reservatórios das usinas hidrelétricas.
Capital verde. O BNDES anunciou R$ 10 bilhões em linhas de crédito para financiar a difusão de máquinas e equipamentos da indústria 4.0 e para bens de capital voltados a projetos da economia verde. Os recursos serão disponibilizados em duas linhas de crédito do programa BNDES Mais Inovação.
Hub de biometano na Sulgás. A distribuidora de gás canalizado do Rio Grande do Sul lançou, na sexta (27), o projeto do primeiro hub de biometano do estado, o Sulgás BioHub. A expectativa é de que as operações iniciem em 2027.
Biodiesel para reduzir emissões da soja. A COFCO International lançou um projeto piloto que busca reduzir cerca de 94% das emissões do transporte de soja pelo estado do Mato Grosso, usando biodiesel puro no abastecimento dos caminhões. Desenvolvida com a Transpanorama e JF Andrade, a iniciativa conta com investimento de R$ 4,5 milhões.
Salvaguardas. O MDIC abriu uma tomada de subsídios para definir as regras das salvaguardas bilaterais no Brasil em acordos comerciais. O instrumento é utilizado para proteger a indústria nacional em caso de surto de importações que cause ou ameace causar dano.
O aumento no consumo global de minerais críticos devido à eletrificação vai exigir a adoção de novas tecnologias e a intensificação da reciclagem para evitar problemas na oferta, apontaram executivas do setor.
- A diretora de Cobre da mineradora Rio Tinto, Katie Jackson, lembrou que já há sinais de uma lacuna de oferta no mercado de cobre em meados da próxima década, o que indica que há espaço para projetos novos, assim como a extensão da vida útil de projetos existentes.
Opinião. Quando decisões bilionárias avançam mais rápido que os instrumentos que organizam o sistema, cria-se um desalinhamento que compromete a confiança dos agentes econômicos, escreve o presidente do Instituto Nacional de Energia Limpa (INEL), Heber Galarce.

