12ª carta da COP30

Presidente da COP30 apela a multilateralismo “voluntário” para avançar com agenda climática brasileira

Apelo de André Corrêa do Lago vem uma semana após reunião de Davos expor fissuras na ordem global construída no pós-Segunda Guerra

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Uma semana após o Fórum Econômico Mundial de Davos expor fissuras na ordem global construída no pós-Segunda Guerra, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgou nesta terça (27/1) uma nova carta à comunidade internacional defendendo a “evolução” do multilateralismo climático. 

Diante do avanço das tensões geopolíticas e do enfraquecimento no discurso global pela eliminação dos combustíveis fósseis, como visto na COP30 em Belém, o embaixador brasileiro propôs um “multilateralismo em dois níveis”.

“Embora a Presidência da COP30 tenha antecipado a evolução do multilateralismo como uma prioridade, jamais imaginei que desafios geopolíticos e socioeconômicos tornariam essa agenda tão urgente, em tão curto espaço de tempo”, observa na carta.

Na avaliação de Corrêa do Lago, o sistema multilateral atravessa um momento crítico, pressionado por choques geopolíticos e socioeconômicos. 

“É por isso que o multilateralismo climático pode agora ser aprimorado para operar em duas velocidades complementares”, escreveu.

“Uma primeira velocidade institucional deve permanecer ancorada no consenso. (…) Uma segunda velocidade institucional deve concentrar-se na implementação”.

A carta reforça o compromisso da presidência brasileira da COP30 em desenvolver mapas do caminho tanto para a transição dos combustíveis fósseis quanto para interromper o desmatamento, além de mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático.

Para o diplomata, trata-se menos de moralizar o debate climático e mais de garantir previsibilidade e estabilidade “de modo que mercados, instituições e sociedades possam se ajustar sem rupturas”.

“São instrumentos para orientar transições inevitáveis nos setores de energia, uso da terra e finanças de forma justa, ordenada e equitativa”. 

Crise da ordem mundial em Davos

O apelo por um multilateralismo mais ágil ocorre em um contexto internacional adverso, explicitado no último Forum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, na semana passada. 

Por lá, líderes políticos e empresariais reconheceram abertamente o esgotamento do modelo de negociações de acordos que vigorou nas últimas oito décadas. 

O encontro foi marcado pela ausência quase total de discursos em defesa do fim dos combustíveis fósseis, substituídos por debates sobre adaptação, resiliência e gestão de riscos climáticos. 

A mudança foi interpretada como reflexo direto da sensibilidade política do tema, especialmente diante da postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Desde o retorno de Trump à presidência, os ataques à governança global têm se intensificado, com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o boicote a decisões multilaterais para a descarbonização do transporte marítimo da IMO, e as reiteradas críticas à OTAN.

Mais recentemente, as ameaças do republicano de impor tarifas a países europeus e anexar a Groenlândia — território semiautônomo da Dinamarca — colocaram em xeque décadas de alianças com a Europa.

Em Davos, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deu o tom da reação do continente. 

“A nostalgia não trará de volta a velha ordem”, afirmou. 

“Se essa mudança é permanente, então a Europa deve mudar permanentemente também. É hora de aproveitar esta oportunidade e construir uma nova Europa independente”, declarou.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, foi ainda mais direto ao falar de uma “ruptura” do sistema baseado em regras e sugeriu que as “potências médias” se unam para moldar uma nova ordem mundial.

Já o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, afirmou que a Europa precisa deixar de estar “perdida” e construir capacidade militar independente de Washington.

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