Estratégia industrial

Modelo chinês pode mudar a indústria de hidrogênio e derrubar custos, diz Abihv

China pode repetir com o hidrogênio o que fez com a indústria solar e eólica, reduzindo preços com ganho de escala

Green Hydrogen Pilot Project, da Sinopec na China (Foto: Divulgação)
Green Hydrogen Pilot Project, da Sinopec na China (Foto: Divulgação)

A estratégia da China para o hidrogênio verde pode redefinir o padrão global de competitividade do setor, na avaliação da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (Abihv), que vê no chamado “modelo chinês” um potencial divisor de águas para a nova economia do hidrogênio.

Em documento publicado recentemente, a entidade descreve o avanço chinês como um caso emblemático de “capitalismo de Estado adaptativo”, com diretrizes estratégicas centralizadas, mas execução descentralizada, conduzida por províncias.

Para a Abihv, trata-se de uma estratégia de escala industrial que tende a reprecificar equipamentos e insumos, reduzir custos e redefinir o referencial de competitividade do setor globalmente.

“O que a China está fazendo com o hidrogênio verde não é apenas política doméstica. É uma estratégia de escala industrial que tende a reprecificar equipamentos, insumos e modelos de projeto no mercado internacional”, aponta o documento.

Escala doméstica como motor global

Na avaliação da presidente da Abihv, Fernanda Delgado, o diferencial chinês está na capacidade de organizar o próprio mercado interno como alavanca industrial.

“Eles (China) mesmos criam a própria demanda. E a demanda é o maior alavancador dessa indústria”, explica Delgado à agência eixos.

Segundo a ela, o próprio mercado interno chinês garante escala antes da inserção internacional.

“Essa política da China é alavancada pelo próprio mercado doméstico. Então, quando a China chega ao mercado internacional, ela já chega com uma indústria de alta produtividade e preços competitivos”. 

Para a executiva, esse é o ponto central do chamado “impulso chinês” no hidrogênio verde, na amônia e no metanol de baixo carbono.

Delgado faz um paralelo com a indústria solar e eólica, em que o ganho de escala doméstico foi determinante para a transformação do mercado global de renováveis.

“O ganho de escala que eles tiveram domesticamente com a energia solar e eólica derrubou os preços dos equipamentos, fez uma curva de aprendizagem extremamente acelerada, e alavancou o mercado internacional com painéis solares e componentes eólicos muito competitivos”, afirma.

Hoje, o hidrogênio verde ainda apresenta custo superior ao produzido a partir de carvão na China. 

No entanto, o acesso a eletricidade renovável muito barata e escala industrial massiva, com metas que incluem dezenas de gigawatts de capacidade de eletrólise, podem reduzir essa diferença até o fim da década.

Brasil à espera da regulamentação

No caso do Brasil, a executiva enxerga que a demanda europeia, no primeiro momento, será a responsável para alavancar a indústria de hidrogênio verde e seus derivados.

Contudo, Delgado cobra o avanço da regulamentação do marco legal do setor, com a publicação dos decretos prometidos pelo governo para o ano passado.

“Sem regulação não conseguimos avançar nessa agenda. É imperioso que tenhamos os decretos regulamentadores dessa agenda”, defende.

A entidade destaca que o Brasil pode se inspirar em alguns pontos da estratégia chinesa, como a incorporação do insumo às cadeias industriais existentes, como refino, amônia, fertilizantes e metanol.

A estratégia inicial consiste em substituir o hidrogênio cinza sem alterar o uso final, reduzindo barreiras de adoção e permitindo ganho de escala mais rápido. 

Como maior produtora mundial de aço, a China também testa rotas de ferro reduzido direto (DRI) com hidrogênio, antecipando pressões regulatórias internacionais.

A associação também destaca que, embora Pequim estabeleça diretrizes e metas nacionais, são os governos provinciais (equivalentes aos nossos estaduais) que estruturam planos próprios, muitas vezes superando o piso definido pelo governo central.

Levantamentos citados pela entidade indicam que os objetivos provinciais combinados de produção de hidrogênio renovável até 2025 superavam 1 milhão de toneladas por ano, o que representa de cinco a dez vezes o piso nacional inicialmente indicado.

“Eles distribuíram hubs de hidrogênio de grande escala por várias províncias do país”, explica Delgado.

Regiões como a Mongólia Interior já acumulam capacidade operacional e em construção que ultrapassa a meta central, ilustrando o modelo de “teste de estresse descentralizado”, em que o que funciona é replicado nacionalmente.

Outro diferencial apontado pela Abihv é a integração do hidrogênio ao sistema elétrico como carga flexível. 

Neste modelo, eletrolisadores operam absorvendo excedentes de energia eólica e solar, funcionando como instrumento de gestão da demanda e de estabilização da rede.

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