RIO — Os principais desenvolvedores de projetos de eólicas offshore nos Estados Unidos intensificaram, nas últimas semanas, o embate judicial contra o governo americano após a suspensão, em 22 de dezembro, dos arrendamentos de cinco projetos de grande escala que já estavam em construção no país.
A medida, anunciada pelo Departamento do Interior por meio do Bureau of Ocean Energy Management (BOEM), foi justificada por “riscos à segurança nacional” apontados em relatórios classificados do Departamento de Guerra.
Até agora, desenvolvedores de quatro dos cinco projetos afetados já recorreram à Justiça.
Na última semana, Equinor e Ørsted deram entrada em três ações judiciais no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia.
Não foram encontradas informações sobre eventual ação movida pela Iberdrola/Avangrid, responsável pelo projeto Vineyard Wind 1. Procurada pela agência eixos, a empresa não enviou comentários até o fechamento desta reportagem.
Suspensão inédita
No comunicado divulgado em 22 de dezembro, o BOEM afirmou que o Departamento do Interior decidiu “suspender — com efeito imediato — os arrendamentos de todos os projetos de grande escala de energia eólica offshore em construção nos Estados Unidos”.
O objetivo, segundo o comunicado, seria garantir tempo para avaliar, junto ao Departamento de Guerra e outras agências, “a possibilidade de mitigar os riscos à segurança nacional apresentados por esses projetos”.
“O dever primordial do governo dos Estados Unidos é proteger o povo americano”, declarou o secretário do Interior, Doug Burgum.
Segundo ele, a decisão leva em conta “riscos emergentes à segurança nacional, incluindo a rápida evolução das tecnologias de adversários relevantes e as vulnerabilidades criadas por projetos de grande escala de energia eólica offshore localizados próximos aos centros populacionais da nossa Costa Leste”.
Foram suspensos os arrendamentos dos projetos Vineyard Wind 1, Revolution Wind, Coastal Virginia Offshore Wind (CVOW), Sunrise Wind e Empire Wind 1.
O governo argumenta que turbinas eólicas de grande porte podem interferir em sistemas de radar, criando o chamado clutter — ruído que obscurece alvos reais e gera falsos alvos.
Um relatório do Departamento de Energia de 2024, citado no comunicado, reconhece que ajustes nos radares podem reduzir parte desse ruído, mas alerta que isso também pode levar à perda de detecção de alvos legítimos.
Equinor questiona legalidade
A Equinor informou que sua subsidiária Empire Offshore Wind LLC entrou, na sexta (2/1), com uma ação civil contra a ordem que suspendeu o projeto Empire Wind.
A empresa também pretende pedir uma liminar preliminar para permitir a continuidade das obras enquanto o processo tramita.
Na avaliação da companhia, a ordem é “ilegal e ameaça o andamento dos trabalhos em curso, com implicações significativas para o projeto”, que já está mais de 60% concluído.
O Empire Wind é desenvolvido em contrato com o estado de Nova York e, quando concluído, deverá fornecer energia suficiente para eletrificar cerca de 500 mil residências.
Segundo a empresa, mais de US$ 4 bilhões já foram investidos no projeto, que empregou quase 4 mil pessoas apenas na fase de construção.
“A Empire tem se coordenado de perto com inúmeros funcionários federais em revisões de segurança nacional desde que assinou o arrendamento do projeto em 2017, inclusive com o Departamento de Guerra, e tem cumprido os requisitos relevantes relacionados à segurança nacional”, afirmou a Equinor em comunicado.
Ørsted entra com duas ações
A Ørsted também decidiu recorrer ao Judiciário. Na terça (6/1), a A Sunrise Wind LLC, subsidiária da empresa, anunciou que irá contestar a ordem de suspensão do arrendamento emitida pelo BOEM, também com pedido de liminar preliminar.
“A empresa acredita que a ordem de suspensão do arrendamento viola a legislação aplicável”, disse a Ørsted, destacando que o projeto obteve todas as licenças locais, estaduais e federais exigidas após anos de análises e consultas com o Departamento de Defesa dos EUA.
O Sunrise Wind está quase 45% concluído e, antes da suspensão, tinha previsão de começar a gerar energia em outubro de 2026, atendendo cerca de 600 mil residências em Nova York.
Na quinta (01/1), a Revolution Wind LLC — joint venture entre a Ørsted e a Skyborn Renewables — também apresentou uma queixa suplementar contra a mesma decisão do governo.
O projeto, com cerca de 87% das obras concluídas, deveria iniciar a geração de energia em janeiro de 2026 e atender mais de 350 mil residências em Connecticut e Rhode Island.
“A Revolution Wind gastou e comprometeu bilhões de dólares com base em um processo de análise minucioso, além de ter atendido às exigências desse processo”, disse a Ørsted, em comunicado.
Outros processos e reação do setor
Segundo reportagem da Associated Press, publicada em 26 de dezembro de 2025, a Dominion Energy Virginia também acionou a Justiça para tentar bloquear a suspensão do projeto Coastal Virginia Offshore Wind.
A empresa classificou a decisão do governo como “arbitrária e caprichosa” e afirmou que o atraso custa mais de US$ 5 milhões por dia apenas com a manutenção de navios de construção.
Para a Dominion, trata-se de “mais uma de uma série de ações irracionais de agências governamentais que atacam a energia eólica offshore”.
Críticas de Trump à energia eólica
A ofensiva contra os projetos ocorre em um contexto de críticas antigas de Donald Trump à energia eólica.
Desde a campanha presidencial, o republicano tem atacado duramente a tecnologia.
Em janeiro, dias após tomar posse, Trump assinou um decreto suspendendo a emissão de novas licenças para projetos de energia eólica onshore e offshore em terras e águas federais.
“Não vamos fazer a coisa do vento. Grandes e feios moinhos de vento. Eles arruínam sua vizinhança. Eles são a forma de energia mais cara que você pode ter, de longe. Eles matam seus pássaros e arruínam suas belas paisagens”, afirmou o presidente na ocasião.
