Hidrogênio em foco

Hidrogênio: dificuldades na Europa, sucesso na Índia e lições para o Brasil

Enquanto a Europa enfrenta desistências e incertezas, a Índia transforma seus leilões em “manuais de política industrial em tempo real”

Vista da usina de hidrogênio verde da Iberdrola no município de Puertollano (Espanha) para a produção industrial de amoníaco e fertilizantes livres de emissões (Foto: Reprodução Iberdrola)
Vista da usina de hidrogênio verde da Iberdrola no município de Puertollano (Espanha) para a produção industrial de amoníaco e fertilizantes livres de emissões | Foto: Reprodução Iberdrola

Os leilões promovidos pelo Banco Europeu do Hidrogênio (EHB) nasceram com a promessa de acelerar a transição energética, alavancar a produção de hidrogênio renovável e posicionar a União Europeia como líder global na nova economia de moléculas limpas. 

Mas a recente desistência de três projetos vencedores — Zeevonk, na Holanda; Lubmin, na Alemanha; e Catalina, na Espanha — expôs fragilidades do mercado europeu e levantou dúvidas sobre a efetividade da iniciativa.

Juntos, os projetos cancelados somavam quase 1,3 GW de capacidade de eletrólise, ou cerca de um terço do total concedido nos dois primeiros leilões. Sendo assim, mais da metade do orçamento do segundo leilão — € 1,2 bilhão — terá que ser realocado.

Algumas razões apontadas para as desistências dos projetos incluem incertezas regulatórias (como a lenta transposição da diretiva RED III para legislações nacionais), atrasos em infraestrutura essencial (como dutos de hidrogênio) e prazos considerados apertados para início da operação comercial. 

Jonas Moberg, CEO da Green Hydrogen Organisation, avalia que “a Europa precisa urgentemente voltar à estaca zero e encontrar melhores maneiras de impulsionar a indústria do hidrogênio verde”. 

A consultoria HySights, por sua vez, vê nesse movimento menos um fracasso e mais um processo de “filtragem” natural

Segundo sua análise, o mercado europeu de hidrogênio vive hoje uma transição do entusiasmo inicial — marcado por apostas especulativas e projetos pouco viáveis — para uma fase de consolidação, em que apenas iniciativas com fundamentos sólidos em custos, demanda e segurança regulatória sobreviverão. 

Como definiu um gestor de fundo ouvido pela consultoria: “a disposição de pagar por ações climáticas puras diminuiu — o foco está firmemente na paridade de custos e na segurança nacional”.

O contraste com a Índia

Se na Europa o momento é de incerteza e ajustes regulatórios, a Índia vive um cenário oposto. O país estruturou uma política industrial que alia clareza regulatória, estímulo à demanda interna e mecanismos competitivos de contratação, segundo agentes do setor.

O exemplo mais recente veio com o 9º Leilão de Amônia Verde, que marcou um recorde ao estabelecer a menor tarifa já registrada na Índia, de 49,75 rúpias/kg (cerca de US$ 0,57) para fornecimento de 100 mil toneladas anuais à produtora de fertilizantes IFFCO Paradeep, com a Acme Cleantech como vencedora.

A rodada confirma a tendência de queda nos custos, sinalizando um mercado que rapidamente alcança patamares internacionalmente competitivos.

A diferença fundamental é que a Índia não se limita a subsidiar projetos, ela vem criando demandas garantidas, começando pelos atuais consumidores de hidrogênio cinza e gás natural, como refinarias e indústrias de fertilizantes.

O modelo de leilão adotado pela Índia para a amônia verde segue o formato de leilão reverso eletrônico, conduzido pela SECI (Solar Energy Corporation of India), no qual diferentes produtores oferecem preços para fornecer amônia verde. Vence quem oferecer o menor preço.

A SECI atua como agregadora de demanda, assinando contratos de compra de 10 anos com os vencedores — o que dá segurança de mercado aos produtores. A companhia já atuou como agregadora da demanda junto a 13 fábricas de fertilizantes.

Trata-se de um setor que hoje responde por cerca de 5 milhões de toneladas/ano de hidrogênio fóssil no país. 

Isso prova a importância dos governos criarem plataformas capazes de dar “um match” entre produção e demanda — assunto de outra coluna — para que os projetos de hidrogênio saiam do dilema “o ovo ou a galinha”.

Esse arranjo garante previsibilidade de mercado, promove competitividade e assegura transparência na formação de preços.

Para atrair investidores e reduzir riscos, o governo indiano também estabeleceu dois principais mecanismos de garantia: os Incentivos Vinculados à Produção (PLI), que oferecem subsídios decrescentes nos três primeiros anos, e o Mecanismo de Segurança de Pagamento (PSM), criado para proteger fornecedores contra atrasos nos pagamentos.

“O modelo da Índia, baseado em compras garantidas, leilões reversos eletrônicos transparentes e forte segurança de pagamento, não é mais apenas uma estrutura, é um motor comprovado que impulsiona a confiança e o valor em todo o setor”, destaca a SECI.

Combinados, esses instrumentos fornecem tanto apoio financeiro inicial quanto segurança de liquidez, tornando o leilão mais atrativo e viável para acelerar a transição rumo a uma cadeia de fertilizantes de baixo carbono.

Além disso, o governo já sinalizou a intenção de criar mandatos de uso doméstico com cotas mínimas de hidrogênio de baixo carbono ou seus derivados.

Na sua estratégia nacional para o hidrogênio, o país traçou ainda como meta substituir importações de fertilizantes de amônia até 2035, e ser um grande exportador — com o objetivo de conquistar até 10% do mercado global de hidrogênio e amônia verde, estimado em mais de 100 milhões de toneladas por ano até 2030.

Esse duplo movimento — substituir importações e abrir espaço para exportações — cria escala suficiente para reduzir custos e desenvolver toda a cadeia doméstica, da fabricação de eletrolisadores à adaptação de portos.

Por aqui, o Plano Nacional do Hidrogênio (PNH2) é bem menos ambicioso.

Inspirações para o Brasil

A estratégia indiana evidencia que, sem uma política de demanda clara e sinalizações do governo, subsídios isolados podem se perder em projetos frágeis ou inconsistentes. 

Enquanto a Europa enfrenta desistências e incertezas, a Índia transforma seus leilões em “manuais de política industrial em tempo real”, como disse o presidente da associação europeia de hidrogênio Hydrogen Europe, Jorgo Chatzimarkakis, ao contar com contratos de longo prazo, offtake garantido, clareza regulatória e queda progressiva de preços.

O Brasil poderia se inspirar nesse modelo. Assim como a Índia, o país possui grandes consumidores de hidrogênio cinza — especialmente nas refinarias — além de importar mais de 80% da sua demanda doméstica de fertilizantes nitrogenados.

Estabelecer leilões atrelados a metas graduais e setoriais de substituição por hidrogênio de baixo carbono daria previsibilidade aos projetos nacionais e criaria demanda, trazendo mais sustentabilidade até mesmo a projetos que miram o mercado internacional. 

Isso reduziria riscos de financiamento e aceleraria a curva de aprendizado, tornando o hidrogênio brasileiro não apenas uma promessa de exportação, mas também um vetor real de soberania, segurança energética e industrialização limpa.

Recentemente, Brasil e Índia anunciaram a criação de um Grupo de Trabalho Conjunto para o intercâmbio de experiências e boas práticas entre os dois países, na área de energia, incluindo hidrogênio de baixo carbono. É uma oportunidade para o Brasil se inspirar no país asiático e fortalecer a cooperação entre países do Sul Global (tema da última coluna).

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