Hidrogênio em foco

Biocombustíveis podem ser o offtaker que o hidrogênio precisa

O hidrogênio pode reduzir a pegada de carbono dos biocombustíveis, e estes podem garantir a parte da demanda para viabilizar projetos bilionários

Lançamento do programa Combustível do Futuro, em 2024. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Lançamento do programa Combustível do Futuro, em 2024. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A disputa entre hidrogênio e biocombustíveis, tema desta coluna duas edições atrás, voltou com força à COP30, em Belém (PA), ecoando debates que se repetem na aviação, na Organização Marítima Internacional e, mais recentemente, nas discussões sobre a eletrificação do transporte pesado. 

Por trás dela, há argumentos sobre clima, mas também sobre quem se beneficia das rotas tecnológicas escolhidas para a transição energética.

Nesta semana, porém, o destaque está em outro ponto, como o setor de biocombustíveis do Brasil pode se tornar o grande offtake capaz de auxiliar na viabilização do hidrogênio de baixo carbono no país, em especial com a expectativa de aumento da participação da bioenergia na economia brasileira prevista no Combustível do Futuro.

O tema foi objeto de análise da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), na Nota Técnica Hidrogênio e Biomassa, publicada em junho. 

Um setor que já consome hidrogênio e vai consumir mais

Hoje, o hidrogênio é usado principalmente no refino de petróleo, que responde por mais de 70% do consumo nacional, acima da média mundial.

No restante, o insumo é voltado à produção de fertilizantes e outros usos industriais. O consumo total do país está estabilizado em 500 mil toneladas/ano desde 2014.

Mas a expansão de biocombustíveis avançados pode mudar esse quadro. Segundo projeções citadas pela EPE, apenas o setor de bioenergia poderá demandar, até 2034, mais que o dobro da produção atual de hidrogênio do Brasil.

O SAF (combustível sustentável de aviação) e diesel verde (HVO) dependem de hidrogênio em suas rotas industriais, sobretudo a rota HEFA, que utiliza óleos vegetais ou gorduras animais.

A rota AtJ (Alcohol-to-Jet), igualmente requer hidrogênio no seu processo. Ambas devem ganhar relevância à medida que as metas internacionais de descarbonização do transporte aéreo se tornarem mais exigentes.

Redução de carbono da lavoura ao refino 

Em um mercado internacional cada vez mais exigente, em que o Brasil pretende ser um player importante com biocombustíveis avançados, o hidrogênio pode aumentar a competitividade dos produtos brasileiros, reduzindo a pegada de carbono, da lavoura ao refino, com um custo viável.

O uso de um hidrogênio de baixo carbono, seja para o processo de refino, seja, para produzir uma amônia de baixo carbono, seria capaz de derrubar a intensidade de emissões dos biocombustíveis, e abrir mercados para eles.

Os biocombustíveis marítimos e para aviação com conteúdo de hidrogênio de baixo carbono podem ter emissões menores se comparadas a outros combustíveis sustentáveis no mundo. 

O mesmo vale para biocombustíveis de primeira geração, como etanol e biodiesel, para descarbonização do trasporte rodoviário e, em pequenas parcelas, no transporte marítimo, que ainda enfrentam certa resistência de aceitação internacional, em razão  de metodologias de contabilidade de carbono que rebaixam seu potencial descarbonizante.

A agricultura, base de toda a bioenergia nacional, é intensiva em insumos — especialmente fertilizantes nitrogenados, cuja cadeia passa obrigatoriamente pelo hidrogênio e pela amônia. 

Como o Brasil importa grande parte desses produtos, há uma demanda latente por hidrogênio de baixo carbono que pode substituir rotas fósseis, reduzindo emissões.

Melhorar a pegada de carbono desses combustíveis também poderia a geração de mais CBIOs no RenovaBio.

Substituindo importações de metanol 

O biodiesel produzido no Brasil depende de metanol. Em 2024, o país importou cerca de 851,9 mil toneladas, essencialmente de Trinidad e Tobago, Venezuela e Estados Unidos.

Como o metanol global é majoritariamente produzido via gás natural ou carvão, trata-se de um insumo com altas emissões.

A produção nacional de biometanol ou e-metanol, a partir de rotas que utilizam hidrogênio de baixa emissão, poderia não apenas reduzir a dependência externa, mas também diminuir a pegada de carbono do biodiesel, especialmente relevante diante do aumento da mistura obrigatória (hoje em B15).

Além, disso, o próprio e-metanol é uma das grandes apostas de combustível para descarbonização do setor marítimo, ao lado da amônia.

Hidrogênio para biocombustíveis e biomassa para hidrogênio

As rotas industriais dos biocombustíveis avançados já criam demanda para hidrogênio. Mas a relação também opera no sentido inverso, em que a biomassa pode produzir hidrogênio de baixo carbono.

A gaseificação de resíduos agrícolas, a reforma de biogás e a integração com captura e armazenamento de carbono (CCS) permitem a produção de hidrogênio renovável e, potencialmente, com emissões negativas. 

Trata-se de uma rota com grande potencial no Brasil, pela abundância de recursos agroindustriais.

O etanol, por sua vez, pode ser tanto matéria-prima como funcionar como “carreador de hidrogênio”, utilizando a infraestrutura logística já existente para transporte e distribuição.

Essa demanda combinada pode criar um mercado interno, um passo crítico para viabilizar projetos de hidrogênio no Brasil, que hoje esbarram na ausência de offtakers com contratos de longo prazo.

O hidrogênio pode reduzir a pegada de carbono dos biocombustíveis, e o setor de bioenergia pode, por sua vez, ser o principal consumidor dos volumes iniciais de hidrogênio de baixa emissão.

Essa complementaridade oferece ao país a possibilidade de estruturar, de forma simultânea, dois mercados estratégicos para a transição energética, ambos baseados em recursos abundantes, conhecimento tecnológico acumulado e cadeias produtivas já consolidadas.

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