Entrevista

Abihv defende modelo de leilão com compras públicas de hidrogênio verde e derivados

Entidade propõe adoção de critérios técnicos, financeiros e de maturidade dos projetos, evitando a o foco “do menor preço”

Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde, Fernanda Delgado (Foto Divulgação Brazil Wind Power)
Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde, Fernanda Delgado (Foto Divulgação Brazil Wind Power)

RIO — A Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (Abihv) defende que o Brasil adote um modelo de leilões para o hidrogênio que evite o foco no “menor preço”, acompanhado de programas de compras públicas de hidrogênio verde e derivados.

Para a entidade, o desenho do processo concorrencial será decisivo para transformar o potencial do país em projetos que cheguem à decisão final de investimento (FID) e à operação, especialmente no contexto do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC), que prevê R$ 18,3 bilhões em subsídios.

Em entrevista à agência eixos, a presidente da Abihv, Fernanda Delgado, afirmou que o setor aguarda com expectativa a regulamentação do marco legal. A previsão é que o decreto regulamentando as duas leis seja publicado nos próximos quinze dias. 

Segundo Delgado, também “há esperanças” de que as regras para o primeiro leilão de hidrogênio do PHBC sejam publicadas ainda neste primeiro semestre. 

“O modelo de leilão para os recursos do PHBC vão ser extremamente importantes para moldar o mercado nacional futuro”, disse. 

Critérios para leilão

O setor aguarda a publicação do decreto que regulamenta o marco legal do hidrogênio no Brasil (Leis nº 14.948 e 14.990). 

A última promessa do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), era de publicação ainda em novembro do ano passado. O texto já está pronto.

O decreto não deve detalhar o modelo concorrencial, mas indicar diretrizes para o acesso aos subsídios do PHBC.

A Abihv propôs, em fact sheet publicado esta semana, que os leilões conectem produção e demanda, que também incluam exigências de licenciamento, estudos de viabilidade técnico-financeira consolidados, e critérios financeiros, como comprovação de equity comprometido. 

A ideia, segundo a entidade, é que o leilão priorize setores industriais âncoras, como aço verde, fertilizantes de baixo carbono e combustíveis sustentáveis para o transporte marítimo e a aviação, evitando um foco exclusivo na “molécula para exportação”.

Além do desenho concorrencial, a associação defende a estruturação de programas de compras públicas de hidrogênio verde e derivados como instrumentos de criação de demanda e redução de riscos por meio de garantias de offtake, o que tende a baixar o custo de financiamento.

E também comprovações de demonstração comercial, que podem incluir tratativas com compradores (MoUs, HoAs e pré-contratos). 

Além disso, propõe garantias compatíveis com o porte do projeto, a exemplo de bid bonds, que são garantias financeiras exigidas em licitações para assegurar que a empresa vencedora assinará o contrato nas condições propostas, protegendo o contratante (público ou privado) contra desistência, evitando fraudes. 

“Não podemos pensar apenas no critério de menor preço. É preciso levar em conta a maturidade do projeto, as garantias que as companhias devem aportar, critérios técnicos, adensamento da cadeia produtiva e o critério da menor emissão, que é o objetivo maior dessa agenda verde do governo”, disse Delgado. 

Desafios para a concretização dos projetos

Nesse arranjo, a Abihv sugere fortalecer o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como catalisador de bancos e investidores, com produtos financeiros específicos para o setor, além da disponibilização de instrumentos de blended finance e garantias de crédito.

A análise da associação indica que os projetos que avançam até o FID compartilham três pilares: demanda firme com contratos de offtake, marcos regulatórios claros e estruturas de financiamento consistentes. 

Já as interrupções e revisões recentes de projetos pelo mundo decorrem, sobretudo, de entraves regulatórios e de licenciamento, incertezas políticas e de mercado, custos elevados, dificuldades de financiamento e ausência de demanda contratada. 

Esse ambiente tem levado grandes empresas globais a adotar a estratégia do “Fill, Hold and Fold”, priorizando projetos mais competitivos, mantendo outros em espera até maior clareza regulatória e cancelando iniciativas incompatíveis com o contexto econômico, o que, para a Abihv, reforça a necessidade de critérios de maturidade.

“Estamos em uma curva de aprendizado, como ocorreu com as indústrias eólica, solar e de GNL”, compara Delgado.

Após uma fase de euforia, o mercado de hidrogênio limpo entra em um estágio mais racional e seletivo. Levantamento da entidade, com base em dados internacionais, aponta mais de 500 projetos em FID, construção ou operação no mundo, somando cerca de US$ 110 bilhões em investimentos. 

Aproximadamente 52 projetos foram cancelados ou revistos recentemente — um processo de depuração natural do mercado, no qual iniciativas menos maduras ou desalinhadas com custos, financiamento e regulação ficam pelo caminho. 

No Brasil, o estudo destaca uma oportunidade relevante no Nordeste, região que combina alto potencial renovável, localização estratégica e infraestrutura portuária

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