A escalada das aplicações de inteligência artificial tem redefinido dramaticamente o consumo energético dos data centers globalmente.
Em 2024, esses centros já consumiam cerca de 415 TWh elétricos — o equivalente a 1,5 % do consumo energético total mundial — e cresciam a uma taxa anual de 12 % nos últimos cinco anos.
Projeta-se que, até 2030, esse consumo quase dobre, alcançando aproximadamente 945 TWh, maior do que todo o consumo atual do Japão, impulsionado sobretudo por aplicações de IA generativa[1].
Com esse crescimento exponencial, o Brasil assume uma posição estratégica para atrair grandes empreendimentos em data centers.
Com capacidade instalada de 740 MW em 2024, o país projeta expandir esse número para 1.210 MW até 2029, atrelado a um expressivo crescimento anual composto de 10,3%.
Apesar das vantagens naturais como disponibilidade de terras e de recursos hídricos, estudos destacam a importância da disponibilidade de energia para o sucesso dos projetos[2].
Nesse cenário, não deveria haver dúvida sobre a conveniência do uso do gás natural como fonte de energia primária ou complementar para a infraestrutura de data centers no Brasil.
Afinal, data centers requerem, dentre outras coisas, alta disponibilidade, segurança e confiabilidade de fornecimento de energia.
Falhas no fornecimento de energia podem gerar impactos enormes para o setor: perda de milhões em receita e danos reputacionais aos empreendedores.
O gás natural se apresenta como uma alternativa confiável para garantir o funcionamento contínuo dos data centers, adicionando elemento de segurança contra instabilidades e eventos climáticos extremos.
Uma excelente alternativa para essa indústria, o uso do gás natural pode estar alinhado com metas mais amplas de sustentabilidade.
Como combustível de transição energética, ele emite menos gases poluentes do que outras fontes fósseis, como óleo e carvão, e pode ser combinado com a geração a partir de fontes renováveis para garantir maior estabilidade no fornecimento de energia e apoiar a descarbonização possível da matriz energética.
Adicionalmente, o desenvolvimento do mercado de gás também ajuda a promover o biometano — molécula renovável que é intercambiável com o gás natural — permitindo maiores níveis de descarbonização.
Além disso, soluções modernas de captura de carbono podem ser integradas a projetos de geração a gás, especialmente aqueles voltados para data centers.
Essa combinação contribui para reduzir a pegada ambiental e tornar a operação mais benéfica à preservação do meio ambiente.
Finalmente, o uso de soluções a gás pode ser particularmente vantajoso em regiões onde a rede elétrica é excessivamente demandada, como grandes centros urbanos.
Nesses casos, evita-se a competição por recursos de infraestrutura limitados, garantindo maior eficiência e segurança energética.
Desafio técnico e regulatório complexo
Contudo, isso não significa que a criação de data centers movidos a gás natural esteja livre de desafios, muitos dos quais estão ligados ao atraso do arcabouço jurídico e regulatório em acompanhar o ritmo de desenvolvimento da infraestrutura digital.
Nesse contexto, embora a legislação setorial já previsse diretrizes relevantes, pouco foi feito para transformá-las em realidade. A lei nº 9.478/1997, por exemplo, determinava o incremento, em bases econômicas, da utilização do gás natural.
De forma semelhante, a Resolução CNPE nº 03/2022 estabeleceu como orientação estratégica a integração entre os setores de gás e energia elétrica, com uma alocação equilibrada de riscos.
Esse cenário de fragmentação institucional e falta de governança integrada, no qual a cooperação entre as agências setoriais (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ainda é incipiente, resulta na ausência de normas para regular as interfaces entre os setores do gás natural e da energia elétrica.
Na prática, a falta de articulação dificulta um planejamento energético unificado que enderece, por exemplo, situações de contingência de suprimento e a mitigação de riscos de interrupção operacional decorrentes da falta de protocolos padronizados.
A ausência de incentivos específicos para o uso do gás em data centers — evidenciada pela falta de menção expressa ao energético na MP 1.318/2025, que institui o Redata — gera insegurança aos investidores e revela que ainda há um longo caminho para que as autoridades reconheçam e defendam, de fato, o papel do gás natural na geração de energia confiável e segura para infraestruturas digitais.
Adicionalmente, os data centers, como grandes consumidores de eletricidade, poderiam se beneficiar da instalação próxima a gasodutos existentes, garantindo maior prontidão operacional e escalabilidade.
Para tanto, o país precisa criar condições para ampliar a infraestrutura dutoviária de forma sustentável e juridicamente segura, com atuação harmônica entre os entes federativos — princípio este, aliás, já previsto na lei 14.134/2021.
Em síntese, a discussão sobre o papel do gás natural na expansão dos data centers no Brasil deve ser enfrentada como um desafio técnico e regulatório complexo, que exige pragmatismo para enfrentar o conhecido trilema da transição energética: garantir segurança, competitividade e sustentabilidade em um cenário de demanda crescente por infraestrutura digital.
Nesse contexto, o gás natural, longe de ser um vilão, pode atuar como aliado na construção de uma matriz mais limpa, confiável e resiliente. Para isso, é indispensável, como explicado:
- Integrar os setores de gás e energia elétrica, com regulação e planejamento coordenados;
- Criar incentivos claros para o uso do gás em data centers, reduzindo incertezas para os agentes econômicos; e
- Expandir a infraestrutura dutoviária de forma sustentável e juridicamente segura, garantindo escalabilidade e eficiência.
Sem essas medidas, o Brasil corre o risco de comprometer investimentos estratégicos e perder a oportunidade de consolidar-se como um hub tecnológico regional, capaz de gerar ganhos econômicos e sociais concretos para a sua população.
O momento exige ação concreta, não retórica superficial: é hora de transformar diretrizes em realidade.
Felipe Boechem é sócio de Petróleo e Gás do Lefosse.
Rafael Martins é counsel de Petróleo e Gás do Lefosse.
Referências
[1] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Energy and AI: energy demand from data centres. Paris: IEA, 2025. Disponível em: <https://www.iea.org/reports/energy-and-ai/energy-demand-from-ai/>. Acesso em: 26 jan. 2026.
[2] CLEANBRIDGE. Global data center market report 2025: Brazil regional overview. Londres, 2025. Disponível em: <https://www.cleanbridge.co/insights/energy-transition/cleanbridge-global-data-center-market-report-2025/regional-market-overviews-gdc2025/brazil-gdc2025/>. Acesso em: 26 jan. 2026.
