Depois de, enfim, começar a ganhar tração, o mercado livre de gás natural deve caminhar para um processo de amadurecimento – o que passa pelo aumento da aposta dos agentes nas operações spot (de curto prazo) e na digitalização dos processos.
A avaliação é de Antônio Quirino, CEO da GasHub, a primeira plataforma digital independente de comercialização de gás natural.
A empresa iniciou em novembro de 2025 as suas operações como marketplace no mercado spot e enxerga um movimento crescente nesse segmento.
Em entrevista à agência eixos, Quirino destaca que, após dar seus primeiros passos, o mercado livre brasileiro entra, agora, numa agenda de simplificação.
Ele conta que as transações no Brasil ainda são “amarradas em procedimentos manuais”, como a interação com outros agentes por meio de mensagens por aplicativo, mas que conforme o mercado for ganhando escala, será preciso aumentar a eficiência desse canal.
“Quando a gente fala de fomentar a liquidez, isso tem muita coisa por trás, que é fazer com que as empresas abandonem aquele processo manual, que é fazer tudo por WhatsApp, por e-mail, e passar a digitalizar isso pra ganhar agilidade e redução de custos no dia a dia”, comenta o executivo, um dos fundadores da GasHub.
Gás ainda tem baixa rotatividade no Brasil
A digitalização, segundo ele, será essencial para dar liquidez ao mercado.
Quirino dá uma dimensão de como o mercado brasileiro ainda carece de liquidez, a partir do uso do indicador churn rate – que calcula a taxa de rotatividade de uma molécula, ou seja, quantas vezes o gás tem um intermediário antes de chegar no consumidor final.
“Em poucos contratos aqui no Brasil você tem intermediário, ou seja, uma comercializadora antes daquela venda entre produtor e consumidor final”
“Se a gente pega mercados mais maduros, como Europa, Estados Unidos, na média a gente está falando de um indicador que é 20. Ou seja, o gás passa de mão 20 vezes antes de chegar no consumidor final. Aqui no Brasil é menos do que uma vez”, explica.
Gás spot é o passo seguinte à migração
Quirino vê muito espaço para crescimento do gás spot no Brasil. Ele cita que os contratos de curto prazo ainda são pouco aproveitados pelos clientes industriais.
Hoje, são poucos os consumidores livres ativos nesse mercado. Alguns poucos deram um passo à frente para se posicionarem como comercializadores – para poderem revender excedentes, por exemplo. É o caso da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Refinaria de Mataripe e Braskem, por meio da Voqen, seu braço de comercialização de gás e energia.
A entrada de clientes industriais no spot, segundo Quirino, tende a crescer dentro de um processo de amadurecimento do mercado livre.
“Está todo mundo ainda numa fase de adaptação. Muitas indústrias migraram em 2024, algumas em 2025, e muitas ainda estão aqui naquele processo primeiro de renovação do contrato [no mercado livre]”
“A grande maioria das indústrias migrou para o mercado livre, mas continuou ainda em estruturas de contrato muito parecidas com a do cativo. Um pouquinho mais de flexibilidade, um preço um pouquinho menor, mas não mudou tanta coisa”.
“Agora, olhando para frente, a minha visão é que as indústrias cada vez mais vão começar a contratar diretamente o transporte como carregador e algumas começarem a ser comercializadores”.
Simplificar contratos
Atuar como uma bolsa no mercado brasileiro de gás, por meio do oferecimento de soluções mais sofisticadas, não está nos planos por ora – embora não seja um caminho descartado para o futuro.
Quirino cita que um dos objetivos da GasHub, nesse momento, é endereçar o que ele chama de “dores de mercado”, como a complexidade contratual.
“Fazer transação aqui no Brasil é uma trabalheira insana”
Ele conta que a GasHub desenvolveu um MSA padrão – o MSA é um contrato com condições gerais.
Hoje, cerca de 20% das transações que ocorrem na plataforma têm como base esse contrato.
“Nosso objetivo é que esse contrato da plataforma venha a ser usado como um contrato padrão de mercado. Ainda estamos distantes disso, mas ele vem crescendo semana após semana”.
“É algo no qual a gente trabalha muito… porque o agente automaticamente consegue fazer transação com vários agentes sem precisar ficar negociando um contrato com cada player”.
Plataforma opera com 20 empresas
A GasHub foi fundada por três sócios: Antonio Quirino (ex-Edge, Scatec, Galápagos Capital); Ramon de Oliveira Junior (ex-Grupo Gera e Eneva); e Sérgio Silva (ex-Compass, Comgás e Shell).
Os primeiros passos da empresa têm sido capitalizados pelos próprios sócios, que não descartam buscar investidores para suportar, no futuro, os planos de crescimento da plataforma.
“Sempre estamos abertos a levantar capital. Depende da nossa demanda, do crescimento do mercado. A GasHub foi formada pela demanda do mercado e cresce de acordo com a demanda do mercado”, comentou Ramon de Oliveira.
Nada concreto, por ora. Segundo ele, a companhia mantém conversas com potenciais investidores, mas não existe nenhum processo formal em curso.
A GasHub é uma plataforma conecta compradores e vendedores e, desde o lançamento, já estruturou ofertas spot equivalentes a 60 milhões de metros cúbicos de gás, entre mais de 20 empresas.
Eneva, Brava, J&F, Grupo Cecafi (da indústria cerâmica), Cegás e Matrix operam na plataforma. E outras 12 encontram-se em processo de habilitação.
O volume médio das ofertas registradas gira em torno de 200 mil m³/dia.
Além do ambiente digital de negociação, a plataforma incorpora outros serviços como simuladores e mecanismos de gestão de risco bilateral.
Quirino conta que o foco da GasHub, neste momento, é se consolidar como uma plataforma marketplace independente – até então, o mercado vinha operando somente com plataformas criadas pelos próprios agentes, por produtores e distribuidoras, por exemplo.
A tecnologia foi desenvolvida internamente.
“A gente viu que não fazia sentido nenhum pegar uma plataforma de fora e tentar trazer para o Brasil, que era a mesma coisa se você trazer uma Ferrari e tentar dirigir do Rio até o Ceará. A Ferrari simplesmente não ia chegar”.
“Então, desde o início, a gente olhou essas plataformas [externas] como referência, mas a gente criou uma nossa, 100% proprietária, 100% tecnologia brasileira e voltada 100% para o mercado brasileiro de gás”.
“A gente identificou que era a maneira mais adequada de conseguir endereçar uma situação de mercado sem ter que reinventar a roda e trazer uma solução que eventualmente não coubesse”, complementou Quirino.
