O mercado global de gás natural mergulhou num clima de nervosismo nesta segunda-feira (2/3), diante dos novos contornos da escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio.
Não bastasse o bloqueio da passagem de navios de gás natural liquefeito (GNL) pelo Canal de Ormuz, anunciada pelo Irã no fim de semana, o mercado foi impactado nesta segunda pela interrupção da produção da maior instalação de exportação da Qatar Energy no Catar, após ataques de drones iranianos.
A guerra alimenta um novo choque de preços no mercado global de gás – a exemplo daquele vivido em 2022, no contexto da eclosão da guerra na Ucrânia.
Na Europa, os contratos futuros do TTF (referência do gás na Europa), por exemplo, operam na tarde desta segunda com alta da ordem de 39%.
“Interrupções no fluxo de GNL reacenderiam a competição entre a Ásia e a Europa pelas cargas disponíveis, especialmente em um momento em que os níveis de armazenamento europeus estão abaixo da média sazonal e cerca de 10% menores do que no mesmo período do ano passado, após uma forte onda de frio em janeiro”, analisa o vice-presidente de Pesquisa de Gás e GNL da Wood Mackenzie, Massimo Di Odoardo.
A seguir, a agência eixos explica qual o impacto da paralisação do Estreito de Ormuz sobre o mercado global – e claro, sobre o Brasil, que depende da importação de GNL para suprir sua demanda interna, sobretudo das termelétricas.
Como Ormuz impacta o comércio global de GNL
Ormuz recebe boa parte da produção do Oriente Médio, incluindo GNL de grandes exportadores como o Catar e os Emirados Árabes Unidos (EAU).
A Wood Mackenzie cita que cerca de 81 milhões de toneladas (110 bilhões de m³) de GNL transitaram pelo Estreito em 2025.
Isso representa quase 20% do fornecimento global.
O Catar é um dos principais exportadores de GNL do mundo, ao lado de EUA e Austrália.
A Wood Mackenzie compara que uma interrupção no fluxo de GNL pelo Estreito seria comparável em escala (embora de forma menos drástica) à redução do fornecimento de gás russo para a Europa – e que fez os preços dispararem em 2022 para quase US$ 100 o milhão de BTU no pico e para US$ 40 o milhão de BTU, na média.
Europa e Ásia são os mercados mais afetados
O destino das exportações da região é, sobretudo, a Ásia.
O Instituto Oxford de Estudos de Energia (OIES, na sigla em inglês) cita que 80% das exportações do Catar e EAU são destinadas aos mercados asiáticos – e o restante à Europa.
Um fechamento prolongado do Estreito levaria a grandes quedas no fornecimento de GNL para a Europa, China, Sul da Ásia, Japão, Coreia do Sul e Taiwan.
A Europa seria desproporcionalmente afetada em termos de volume, perdendo GNL para os mercados asiáticos, pontua o OIES.
A Wood Mackenzie segue a mesma linha. A consultoria cita que, dada a incerteza em torno dos acontecimentos, é plausível que sejam necessárias algumas semanas para que os fluxos de exportação se restabeleçam, mesmo no cenário mais otimista.
“Com aproximadamente 1,5 milhão de toneladas (2,2 bilhões de m³) de exportações de GNL em risco a cada semana de interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz, os mercados asiático e europeu precisariam recorrer mais intensamente aos estoques existentes, aumentando a necessidade de reabastecimento durante o verão”.
“Isso apertaria as condições de mercado muito além da eventual retomada do comércio pelo Estreito”, complementa.
A Wood Mackenzie acrescenta que o fechamento preventivo dos campos de gás de Leviatã e Karish, em Israel — que forneceram mais de 10 bilhões de m³ ao Egito em 2025 — pode aumentar ainda mais a pressão sobre o mercado global, já que o Egito provavelmente aumentará as importações de GNL para compensar os volumes perdidos.
Um novo choque de preços a caminho?
Desta vez, na avaliação da Wood Mackenzie, é improvável que a reação do mercado seja tão extrema quanto foi a crise de 2022, quando estourou a guerra entre Rússia e Ucrânia.
“Ao contrário da interrupção prolongada do fluxo de gasodutos russos, um bloqueio no Estreito pode ser visto como temporário, moderando o potencial de alta”, citou Di Odoardo.
Ainda assim, a consultoria vê espaço para um salto imediato nos preços. E qualquer sinal de que as interrupções possam se prolongar daria ainda mais impulso à valorização do gás no mercado global.
Num estudo publicado em meados de 2025, o OIES estimou que os preços do GNL no mercado de curto prazo (spot) poderiam voltar aos patamares de US$ 30 o milhão de BTU nos hubs da Europa e da Ásia, com um eventual fechamento de Ormuz. (leia o relatório na íntegra, em .pdf). O instituto britânico informou nesta segunda que as conclusões ainda são válidas para o novo contexto.
Para efeitos de comparação, em 2022 o TTF chegou a US$ 47 o milhão de BTU, mas parte dessa inflação refletiu o congestionamento da infraestrutura de importação no continente.
O OIES modelou o impacto do fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, a fim de avaliar adequadamente os fundamentos do mercado, e concluiu na ocasião que, numa eventual interrupção do fluxo do comércio de GNL que passa pela região:
- essa queda seria parcialmente compensada por volumes maiores da Austrália e América do Norte, mas resultaria num declínio geral de 86 bilhões de m³ (bcm) do comércio global;
- o declínio nas exportações de gasodutos da Rússia para a Europa entre 2021-2023, por sua vez, foi de 135 bcm em base anual
E como o Brasil pode ser afetado?
O Brasil não é dependente das importações de GNL do Oriente Médio.
Em 2025, Catar e EAU não constavam, por exemplo, entre as fontes de gás natural liquefeito do mercado brasileiro, de acordo com dados da ComexStat.
O mercado brasileiro é mais impactado pela dinâmica do mercado da Bacia do Atlântico. Os Estados Unidos representaram, no ano passado, mais da metade das importações brasileiras.
Uma crise no mercado asiático e europeu, contudo, tem efeitos indiretos sobre o Brasil: se a oferta do Oriente Médio for reduzida, os compradores asiáticos poderão recorrer a outros fornecedores de GNL, como os EUA – o que pode estimular a volatilidade no mercado spot.
Além disso, o Brasil não é uma ilha: as termelétricas são as principais consumidoras do GNL importado no Brasil e é comum que os contratos de suprimento dessas térmicas sejam vinculados ao índice JKM, referência no mercado asiático, por exemplo.
