HOUSTON — Na avaliação de Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), o país já possui a maior reserva estratégica possível: o petróleo enterrado no pré-sal. A posição foi defendida pelo executivo em entrevista ao estúdio eixos durante a CERAWeek 2026, em Houston.
Para Ardenghy, estoques físicos de grande porte fazem sentido para países altamente dependentes de importações. O Brasil, produtor de mais de 3,4 milhões de barris por dia, está em situação estruturalmente distinta.
A lógica dos estoques estratégicos — e onde o Brasil se encaixa
Os maiores estoques estratégicos do mundo pertencem a grandes importadores de petróleo. Os Estados Unidos, que até recentemente chegava a importar quase 6 milhões de barris importados por dia, mantém bilhões de dólares em óleo estocado em Strategic Petroleum Reserve (SPR). China e Japão seguem a mesma lógica — o Japão, por exemplo, importa 94% de todo o petróleo que consome.
“Países que têm grande estoque estratégico são países que importam muito petróleo. Aí se justifica muito, porque qualquer problema de fornecimento os afeta imediatamente”, explicou Ardenghy. O Brasil está no extremo oposto: é exportador líquido, com a grande maioria do petróleo refinado no país sendo de origem nacional.
O presidente do IBP não descarta um nível moderado de estoques físicos como medida adicional de segurança energética. Mas pondera que um estoque de grande porte envolveria custos elevados de aquisição e manutenção, sem justificativa proporcional ao risco real de desabastecimento que o país enfrenta.
Conflito no Oriente Médio reacende o debate
A discussão sobre estoques estratégicos ganhou força no contexto da instabilidade no Oriente Médio, que está redesenhando os fluxos globais de energia. Países importadores dependentes do Estreito de Ormuz — como Japão, China, Índia e Coreia do Sul — revisam suas fontes de suprimento e buscam alternativas confiáveis de longo prazo.
É nesse cenário que Ardenghy enxerga uma oportunidade histórica para o Brasil. “Independente de quanto tempo vai durar o conflito, há um convencimento de que os países dependentes do Oriente Médio têm que buscar alternativas confiáveis”, afirmou.
O petróleo brasileiro — especialmente o do pré-sal, que emite aproximadamente um terço da média mundial de CO2 por barril produzido — reúne os atributos que esses compradores buscam: qualidade, confiabilidade e baixa pegada de carbono.
Para Ardenghy — diplomata de carreira com passagens pelo consulado brasileiro em Houston e Nova Iorque —, o momento exige que o país se posicione de forma racional e proativa, atraindo investimentos e novos clientes para uma produção que já ultrapassa 3,4 milhões de barris por dia.
“Quais são as tendências do conflito? É muito difícil a previsão, muita gente com bola de cristal aqui, mas, na verdade, muito pouca informação sobre o que realmente vai acontecer, quanto tempo vai durar esse conflito, quais vão ser as consequências”.
“Eu acho que a primeira delas é que os países que são importadores de petróleo, aí eu menciono basicamente os países asiáticos e também os europeus, eles hoje estão reavaliando as suas fontes de suprimentos”.
Geopolítica redefine rotas de suprimento de energia
Na avaliação do presidente do IBP, a guerra no Oriente Médio aprofundou uma tendência que já estava em curso antes do início do conflito: a revisão do papel do petróleo e do gás natural na matriz energética global.
“Já se falava de um outro ritmo do processo de transição energética, de que o petróleo e o gás natural iam ter ainda um papel relevante — e agora isso ficou ainda mais agudo”, afirmou Ardenghy.
O conflito afeta não apenas a produção, mas as cadeias logísticas inteiras. Países altamente dependentes de importações — como Japão, China, Coreia do Sul e Índia — estão revisando suas fontes de suprimento e buscando alternativas ao estreito de Ormuz.
“A crise cria também oportunidades”, disse o presidente do IBP, parafraseando um princípio clássico da diplomacia. “O Brasil e outros países podem se posicionar bem.”
Imposto de exportação: medida preocupa o setor
Em meio ao ambiente favorável de preços, o governo brasileiro instituiu um imposto sobre a exportação de petróleo — medida que o IBP contesta com veemência. Para Ardenghy, a taxação contradiz a lógica do instrumento: o imposto de exportação existe para desestimular vendas externas quando há risco de desabastecimento interno, o que não é o caso do petróleo brasileiro.
“Nós estamos produzindo cada vez mais petróleo. Temos hoje uma produção de 3,4 milhões, 3,5 milhões de barris e quase a metade disso é exportado. Temos uma situação de absoluta tranquilidade no que diz respeito ao fornecimento”
O IBP já formalizou sua posição contrária e acompanha o debate no Congresso Nacional. O executivo lembrou ainda que episódio semelhante, ocorrido no primeiro ano do governo Lula, foi contestado judicialmente com sucesso — a União recorreu e busca consolidar um precedente favorável ao governo no tema.
Na visão do presidente do IBP, os mecanismos já existentes na legislação brasileira — como o aumento natural das participações especiais e dos royalties decorrente da alta nos preços — já fornecem ao governo uma arrecadação adicional robusta, sem necessidade de criar novos encargos que penalizem o investimento de longo prazo.
Pré-sal de baixo carbono como diferencial competitivo
O argumento mais estratégico apresentado por Ardenghy na CERAWeek diz respeito à qualidade do petróleo brasileiro. O pré-sal, responsável por cerca de 80% da produção nacional, emite aproximadamente um terço da média mundial de CO2 por barril produzido.
Trata-se de um óleo leve, de alto grau API, com baixo teor de enxofre — características cada vez mais valorizadas por refinarias e governos comprometidos com metas climáticas.
“Se a gente pode produzir um petróleo com essa qualidade — baixo em enxofre, baixo em emissões de CO2 —, nós temos uma oportunidade gigantesca”, afirmou. Para que essa oportunidade se concretize, Ardenghy defende a continuidade das atividades exploratórias no Brasil — na Margem Equatorial, na Bacia de Pelotas e no Parnaíba —, além da realização regular dos leilões da ANP.
“O petróleo vai continuar muito importante nos próximos 50, 70 anos. E os países têm que se posicionar.” Assim, o Brasil não pode desperdiçar o momento. “É como a gente diz lá no Rio Grande do Sul: o cavalo já está passando, pronto, encilhado. É melhor a gente montar logo.”
Este conteúdo foi elaborado parcialmente com o uso de ferramentas de inteligência artificial e revisado por um jornalista humano.
A conversa com Roberto Ardenghy faz parte da cobertura especial da agência eixos na CERAWeek 2026, o maior fórum global de energia e geopolítica. Assista a cobertura completa, diretamente de Houston: