HOUSTON — A capacidade de suprimento global de gás natural liquefeito (GNL) vai sentir impactos do atual conflito no Oriente Médio até a década de 2030, disseram analistas da S&P Global durante a CERAweek 2026, em Houston, nesta segunda (23/3).
Segundo o diretor da S&P, Ross Weyno, os ataques afetaram não apenas as plantas existentes, mas também projetos que estavam em construção na região.
“Foi um impacto massivo nesse mercado”, disse.
Apenas o ataque da semana passada à cidade industrial de Ras Laffan, no Catar, destruiu 3% da capacidade global de produção de GNL. Ao todo, cerca de 19% do suprimento global de GNL já foi afetado, calcula a S&P Global.
A crise pode atrair novos projetos em outras regiões, incluindo Estados Unidos, Nigéria e México, mas ainda não está claro se isso vai ocorrer, pois a atual volatilidade nos preços dificulta novos investimentos, destacou Weyno.
A maior parte dos volumes que foram afetados até o momento eram importados pela China, mas o país tem conseguido usar reservas para atenuar os impactos por enquanto, assim como o Japão e a Coreia do Sul.
Outros países que estão expostos à crise e têm menos alternativas são a Taiwan, Paquistão e Índia. Os analistas acreditam, inclusive, que clientes industriais indianos podem sofrer racionamento.
Derivados
O conflito também tem um grande impacto sobre a capacidade global de refino, o que está gerando problemas de disponibilidade de derivados.
Segundo o chefe global de análise e pesquisa de transporte marítimo da S&P Global, Rahul Kapoor, dois dos produtos mais afetados pelo fechamento do Estreito de Ormuz são o combustível de aviação e o bunker.
“Há problemas físicos de disponibilidade de bunker em alguns lugares do mundo”, disse.
Impacto no GNL se espalha
A guerra no Oriente Médio pode frear a expansão das majors no Catar e Emirados Árabes Unidos e redirecionar investimentos em GNL para outras regiões, avalia a Rystad Energy, que aponta projetos na África e no Pacífico como alternativas.
O bloqueio tem reforçado a necessidade de diversificação de rotas de suprimento. E para países do Mediterrâneo, o conflito fortalece a tese de investimento no Corredor Vertical de Gás — iniciativa estratégica que visa conectar terminais de GNL da Grécia à Europa Central e do Leste.
A TotalEnergies, que enfrenta interrupções de produção no Catar, Iraque e Emirados Árabes Unidos — cerca de 15% de sua produção total —, reforçou a estratégia de realocar investimentos ao fechar um acordo com o governo dos EUA para destinar cerca de US$ 1 bilhão (previstos inicialmente em eólica offshore) para o setor de gás natural e energia no país.
Os efeitos da crise que podem beneficiar exportadores estadunidenses, contudo, têm limites, disse a consultora da FGV Energia Ieda Gomes ao estúdio eixos. Segundo ela, se os ataque persistirem, o aumento da capacidade de liquefação dos EUA compensaria parcialmente a perda de volumes do Catar.
Assista a cobertura da eixos diretamente de Houston:
